Review | She-Ra e as Princesas do Poder (1ª Temp.)





19/11/2018 - Atualizado às 10:19


A Honra de GraySkull finalmente foi restaurada após 33 anos de história. A estreia da animação She-Ra e as Princesas do Poder na Netflix em novembro é a grande responsável por esse feito. Isso porque esse reboot – além de ser bastante aguardado pelos trailers apresentados – retoma uma narrativa clássica dos anos 1980 para o foco do mundo Geek.

Produzido pela talentosa Noelle Stevenson, a animação da DreamWorks reconta a história da versão animada produzida pela Filmation/Mattel com o objetivo de situar Adora, e seu alter-ego She-Ra, em um pedestal de protagonismo pleno. O estúdio, por sinal está de parabéns. Após Voltron, a animação de She-Ra é sua segunda incursão pelos sucessos dos anos 1980 e se apresenta como mais um revival de respeito.

Em 1985, para expandir o universo da franquia de bonecos articulados He-Man e os Mestres do Universo, a Mattel – junto da Filmation – desenvolveram uma contraparte feminina para o defensor dos segredos do Castelo de GraySkull. Nascia assim She-Ra, introduzida no especial de uma hora “O Segredo da Espada Mágica”, que é considerado o episódio um da primeira animação da princesa do poder.

Sem He-Man, Adam, Feiticeira Zoar e Mentor, a única referência a Eternia e ao misterioso castelo está na frase de transformação que Adora profere ao se tornar She-Ra. Esse primeiro destaque é o que torna a nova animação bastante promissora. Desta vez She-Ra não tem a necessidade de ser introduzida por ninguém. She-Ra é ela mesma a grande atração somente.

Propondo um novo olhar para a mitologia da personagem, She-Ra não é mais só a outra versão de Adora. She-Ra é uma lendária campeã do planeta Etheria que desde tempos antigos escolhe uma das princesas para equilibrar os elementos e lutar contra o mal. A nova She-Ra nem mesmo se preocupa em esconder sua real identidade. Todos a conhecem, todos a admiram.

Rejuvenescida, a franquia ganha com a proposta intuitiva presente nas animações da DreamWorks, onde piadas e drama se diluem durante os acontecimentos da trama sem necessariamente torná-la evidente para um lado só cômico ou só trágico.

Nesta primeira temporada o que se é possível destacar é que o reaproveitamento das personagens de She-Ra vai para muito além de “infantilizar” um pouco cada uma. Na verdade, ninguém ali foi infantilizado. Pode-se dizer que muitos deles tornaram-se aquilo que deveriam ter sido desde o início da franquia, quando a Mattel apostava muito em figuras másculas e/ou com sex appeal ao invés de personalidade ou pano de fundo dramático.

She-Ra já não usa uma microssaia e nem é um mulherão de corpo escultural. Mudanças possibilitadas pelo design de personagens e a redefinição da história. A animação também dialoga com temas modernos e abre espaço para a diversidade e a representatividade. Cintilante e Arqueiro são exemplos disso.Os amigos de She-Ra agora já não são mais uma bela jovem em collant apertado e lábios carnudos; e nem um homem branco e ruivo, musculoso e de toráx à mostra.

A nova Cintilante é uma adolescente um pouco mimada, mas bastante verdadeira, gordinha e sorridente. O novo Arqueiro é um intrépido garoto negro que não tem medo de mostrar seu lado mais gentil já que está cercado de mulheres, sem que isso nos leve num primeiro momento a fazer qualquer suposição sobre sua sexualidade.

E esse assuntos do coração são tratados de forma bem distintas no desenho animado. Já da para perceber que Noelle Stevenson deixa em Cintilante a marca de uma narrativa que pode despertar em quem assiste o desejo de shipar casais. Tudo isso sem ser abertamente discutido ou alimentado pelas personagens da trama, que vão encarar tudo como amizade.

O ponto alto da animação é mesmo o reboot da origem de She-Ra. Nesse universo narrativo, Adora não é a primeira She-Ra. Mesmo assim é a partir dela que conheceremos segredos da personagem. O reboot também nos presenteia com um ótimo plot entre a protagonista, Felina e Sombria. Assim como na versão original, Adora é uma orfã que servia na Horda liderada por Hordak. Criada quase como uma filha por Sombria, a garota é a única amiga de Felina com quem cresceu junta.

Separadas pelo destino da espada, as duas agora se encontram em lados opostos. Felina divide-se entre o sentimento de amor pela amiga (quase uma irmã) e a inveja que sempre sentiu. Adora, por sua vez, deve lhe dar com a dor da rejeição ao mesmo tempo que tenta descobrir mais sobre seus poderes e lidera a Grande Rebelião no intuito de salvar Etheria.

Bom, sobre GraySkull e os demais elementos da trama clássica ainda não há perspectivas. Quem poderá esclarecer melhor isso é a enigmática Esperança da Luz, que junto de Sombria e o próprio Hordak são os únicos que sabem o real segredo da origem de Adora. A possibilidade da DreamWorks trabalhar em um universo expandido e quem sabe inserir He-Man e outros personagens da franquia nas próximas temporadas já é especulada. Contudo, mesmo sendo as mesmas histórias, nada é garantido que He-Man possa ganhar um novo reboot no processo.

Por hora é melhor esquecer dele mesmo. O foco aqui é She-Ra, a Princesa do Poder, que brilhantemente renasce após longos anos de coadjuvantismo à sombra do irmão gêmeo. Coadjuvantismo esse que existiu mesmo quando era protagonista de sua própria série. Agora não mais! Finalmente restabeleceu-se o respeito merecido “Pela Honra de GraySkull!“.