Review | 2020 – Japão Submerso

Acho que todo mundo que consome obras sobre desastres naturais já deve ter se perguntando se suas habilidades de sobrevivências são eficazes caso tudo aquilo fosse real. Falo habilidades porque instinto é algo tão natural, tão primitivo e internalizado na essência de quem somos que seria tolice tentar me basear por eles. Instintos falham. Habilidades também (mas pelo menos com elas já temos uma nossa do nosso potencial).

Em meio a uma narrativa que tem como pano de fundo o desastre em larga escala é até incomum o espectador não se apoderar de sensações como pavor, angústia, ansiedade e sentir seus níveis de adrenalina subir espontaneamente. Seja em narrativas do gênero de ação ou no suspense, se a obra te permitiu viver isso ela obteve êxito. Depois disso é o processo catártico de cada um e nosso poder de síntese para nos lembrar que ali reside uma trama, mas não a realidade e assim nos permitir seguir resolvidos com o que consumimos.

Todo esse prelúdio é para desabafar alguns pensamentos que construí durante minha rápida maratona de “2020 – Japão Submerso”, animação do estúdio Science Saru que estreou recentemente na Netflix. Em 10 episódios somos apresentados a um cataclisma de proporções absurdas que superam em muito a realidade vivenciada em 2011, por exemplo, quando do Grande Terremoto do Leste do Japão (aquele que destruiu a Central Nuclear de Fukushima I).

A geologia moderna nem de longe defende a hipótese de que o que o animê relata seja sério, mas a trama dirigida por Masaaki Yuasa (Devilman Crybaby e Keep Your Hands of Eizouken!!) nos relata como seria se as placas tectônicas das Filipinas e a Euroasiática promovessem uma série de sismos classificados como encontros convergentes do tipo oceano-oceano. Em linhas gerais, a placa menos densa se dobra e a mais densa a sobrepõe criando bolsões de magma que sob pressão entram em erupção. No animê, isso acontece e tem um efeito contrário, ao invés de fazer com que os vulcões subaquáticos formados pelo encontro avancem em direção à superfície, o fenômeno tratou de engolir o arquipélago japonês, que originalmente havia sido formado dessa forma.

Geologia a parte, a trama foca na família Mutoh e a partir da vivência deles é que vamos descobrir o que vai acontecer ao país chamado Japão. E é bem aí que a trama tem muito a oferecer. Só acompanhando para você perceber a densidade do texto preparado para a série ao destacar discursos bem emblemáticos sobre a constituição antropológica dos japoneses, seus comportantes e atos sociais, suas observações a respeitos do mundo exterior (Episódios 03 a 05), conservadorismo nacionalista (questionado de forma sutil em diversos momentos), raízes culturais e representatividade política.

Temas como a credibilidade da mídia para com a sociedade e o ufanismo descabido de alguns que provoca atos xenófobos (Episódio 07) estão sempre presente desde o primeiro episódio e marcam a construção da nossa relação com os protagonistas, que são japoneses com ascendência filipina. Ayumu e Go tem diálogos bem formados sobre sociabilidade e família, outro ponto bastante retomado na série (Episódio 08).

É importante lembrar que “2020 – Japão Submerso” é uma releitura atual de um clássico da literatura japonesa dos anos 1970, Nihon Chibotsu de Sakyo Komatsu, uma obra premiada de ficção científica que à época tinha como plot uma discussão a respeito do crescimento populacional japonês no pós-Segunda Guerra. Agora o foco não é mais no número de pessoas, mas sim no comportamento delas. No fim, a mensagem da série é cheia de simbologia ao reafirmar a paixão pelo país e sua cultura, seu estilo de vida, suas particularidades em detrimento aos demais países (Episódio 10).

Esse homenagem carregada de semântica toma contornos bem interessantes se lembrarmos que o filme tem como uma de suas protagonistas uma aspirante a atleta que se prepara para o cenário internacional e que oito anos depois da tragédia vai representar seu país – que se reconstrói do zero – nos Jogos Paralímpicos numa clara mensagem de superação, persistência esforço recompensado , como se estivesse emergindo tal qual a nação que afundou nas águas do Pacífico.

Tenho certeza que se não pela pandemia a animação seria um ótimo esquenta ao Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Tóquio, adiados para o ano que vem, por trazer uma mensagem bem oportunista de que o Japão é único e todos devemos nos alegrar de sua existência. Sejamos nós japoneses ou não.

Até a próxima e… Sayonara!

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