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Coberturas

#VoltsNaMSDC Confira aqui as críticas do Panorama Brasil – Filmes da Região Norte

Os seis filmes selecionados vêm dos estados do Amazonas, Pará, Rondônia e Acre

Ao todo, a Mostra Sesc de Cinema 2019 conta com 42 produções e aqui no Volts você confere nossos comentários sobre todas elas. Nesse post, as produções da Região Norte são as estrelas. Vai vendo.

O Céu dos Índios Desâna e Tuiuca (Manaus – Amazonas) 26min, curta-metragem, documentário, 2017

Documentário dirigido por Flavia Abtibol e Chicco Moreira explora um saber indígena peculiar: o uso que duas etnias amazônicas dão às constelações. Sim, cosmologia indígena a serviço de orientações de tempo e espaço. A observação das estrelas funciona a eles como calendário que verifica as estações do ano e bússola em busca de períodos de fertilidade e escassez.

O documentário, ao longo de 26 minutos, dá voz a índios veteranos que explicam com suas próprias palavras a engenharia das constelações. O camarão, o peixe, a serpente – termos próprios para as escalas estelares que a cultura ocidental nomeia e pensa de outra forma.

Muito mais interessante por trazer esse conhecimento astronômico dos índios à luz do Cinema que pela própria forma, o filme acaba acompanhando uma maneira lúdica de repassar a sabedoria tradicional aos indiozinhos da aldeia: estrelinhas recortadas e coladas em cartazes explicam cada constelação aos pequenos e simbolizam a transmissão de conhecimento para novas gerações de índios; um saber de extrema beleza agora eternizado no doc.

Vozes da Memória (Porto Velho – Rondônia) 33min, média-metragem, doc., 2018

Raissa Dourado dirige esse doc em média metragem que é um balé caótico de narrativas, colagens, sobreposições de imagens, drones, depoimentos atuais, profusões de imagens de arquivo. Tudo pra acompanhar figuras folclóricas de Porto Velho que de certa forma ajudam a contar, através das próprias vivências, a história da cidade.

O poeta, a bailarina da praça, o jornalista acidental, o sambista… personagens do cotidiano que atestam a máxima da sabedoria popular, contam causos enquanto o filme lambe as paisagens da cidade e mescla com vídeos de acervo – certamente catalogados a partir de um exaustivo trabalho de garimpo que, pela dificuldade de acesso, fez pena não incluir. É o que talvez explique a coreografia do caos que Raissa Dourado orquestra aqui, deixando o espectador meio atordoado em alguns momentos, mas nunca entediado.

Francisco (Rio Branco – Acre) 20min, curta-metragem, ficção, 2018

Tudo em “Francisco” é boa intenção. O curta ficcional roteirizado, dirigido e montado por Teddy Falcão é sobre um jovem entendendo sua própria identidade enquanto revisita os ensinamentos e a trajetória do pai. É bem simbólica a cena em que o rapaz analisa as duas versões da própria certidão de nascimento: em uma é negro, na outra pardo. A aparente confusão na definição (ou falta dela) guarda muito significado interno. O filme, entretanto, pedala entre narrativas numa estrutura que deságua no personagem-título encarando a câmera, como se de repente num documentário, pra contar a história que girou a chave do seu auto-conhecimento. De novo, a intenção é boa.

Chamando os Ventos: Por Uma Cartografia do Assobio (Belém – Pará) 14min, curta-metragem, documentário, 2018

Seja pela força evocativa da música e da contemplação do céu, seja pelo fascínio humano por histórias, esse documentário de 14 minutos interessa do começo ao fim. Dirigido e roteirizado por Marcelo Rodrigues baseado na crença ancestral de que é possível “chamar o vento” através de assobios, o filme segue com depoimentos em voice-over de pessoas que compartilham a mesma ‘sabedoria’. Enquanto isso o que se vê são imagens aleatórias de roupas no varal, árvores, pipas… qualquer coisa que possa ser assanhada pelo vento.

Sendo assim, mesmo que a forma não seja um vórtice de criatividade narrativa, ouvir as histórias curiosas sobre gente que já chamou o vento (!) tem sua carga de afetividade, memória e uma inocência conservada nas vozes desses adultos – ainda que nunca se veja o rosto deles.