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Crítica de TV

Crítica |Gentleman Jack (HBO)

Série eleva o gênero de romance de época com heroína carismática

Gentleman Jack é diferente de tudo que já se viu na TV em termos de seriado de época, conseguindo elevar o gênero ao explorar a vida e peripécias de uma senhora de terras lésbica no século XVIII que planeja dar um golpe do baú em uma herdeira rica 12 anos mais nova.

É difícil condensar tudo que foi Anne Lister, uma mulher incrível e ícone LGBT+ que desafiou as convenções de gênero de sua época ao fazer viagens sozinha por toda a Europa e elevar o potencial de mineração de carvão em Halifax, no condado de Yorkshire, na Inglaterra, além de viver seus romances conforme mandava seu coração e sua cabeça.

A série, uma produção conjunta da BBC com a HBO, criada por Sally Wainwright, usando o trabalho da biógrafa Jill Liddington, retrata uma heroína muito longe de ser perfeita, mas por isso mesmo encantadora. Altiva, vivaz e completamente dona de si, Lister ficou conhecida após a morte por seu diário criptografado onde contou seus romances com outras mulheres ricas da Europa.

Após voltar de uma de suas excursões, Anne resolve investir na conquista do coração de Ann Walker (Sophie Rundle), jovem de temperamento frágil e que vive sufocada com uma enorme quantidade de parentes que pretendem casá-la o quanto antes para que possam ter acesso à sua fortuna.

Anne se vê apaixonada por Ann e por diversas vezes, durante os percalços do relacionamento, se mostra frágil, uma face que poucos conseguem enxergar nela, mas com a qual o público pode se identificar graças à atuação perfeita de Surrane Jones. O carisma das personagens é enorme e faz com o expectador torça pelo amor das duas.

Energética, Lister peita os homens ricos e poderosos da região e sai para resolver seus negócios sem intermédio nenhum, contando com a ajuda direta de apenas alguns de seus inquilinos e acompanha de perto os problemas de suas terras. É impossível não se sentir pouco produtivo depois de um episódio de Gentleman Jack com Anne resolvendo coisas para lá e para cá.

Mas longe de ser uma heroína de contos de fada, Anne Lister desafia as convenções de gênero ao mesmo tempo em que se agarra às de classe, ela tem orgulho da casa ancestral da família, Shibden Hall e aversão às revoluções burguesas em alta na época. Um ponto controverso é quando ela se mostra impaciente com as mulheres que se encaixam completamente no esperado pela sociedade, como sua irmã, Marian Lsiter vivida por Gemma Whelan (a Yara de Game of Thrones).

Falando na família Lister, é reconfortante ver o amor de sua tia, chamada apenas de Tia Lister, vivida pela veterana Gemma Jones, seu pai, Jeremy Lsiter, vivido por Timothy West. Eles se preocupam apenas com a felicidade e segurança de Anne, em nenhum momento julgando dua sexualidade ou seu modo de vestir. Ela é a cabeça da família, a senhora de Shibden Hall e é assim que é tratada em casa e pela maioria dos inquilinos e empregados.

Um dos trunfos para o expectador se conectar com Lister é a quebra da quarta parede, recurso cada vez mais comum em produções de TV, mas poucas vezes tão bem explorado. É possível se sentir dentro do famoso enorme diário de Anne Lister e confabular com ela seus verdadeiros sentimentos, ou aqueles que ela espera que fossem os verdadeiros.

A primeira temporada de Gentleman Jack foi ao ar na HBO e pode ser assistida completa pela HBO Go. A segunda temporada já está confirmada e deve estrear em 2020.

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Crítica

Crítica | Watchmen (piloto da série)

Derivado da famosa HQ, o piloto de Watchmen vai na onda de Coringa e entrega uma obra intensa e realista

Watchmen

O piloto de Watchmen termina e você entende exatamente qual é a proposta de Damon Lindelof: a fidelidade pelo conceito criado no universo da clássica HQ de Alan Moore e Dave Gibbons e promover uma trama envolta no mistério característico, marca registrada do diretor e roteirista, criador de Lost e The Leftovers.

De cara, vai chamar a atenção também o visual arrojado e a edição ousada, mas será na atualização relevante da narrativa – com comentários políticos e sociais diretos que podem ser lidos como críticas ao ultaconservadorismo atual – e a abordagem bastante realista a chave que atingirá mentes e corações. E, mesmo que a série se passe em uma realidade alternativa, assim como no filme de Zack Snyder, ela é muito mais semelhante à nossa.

Trinta anos após os eventos finais da HQ (e do filme), os vigilantes mascarados ainda estão nas ruas e ajudam a polícia. Eles são heróis anônimos, mas agora são pessoas comuns, que tem vidas normais, sem o culto de personalidade que outrora tinham Coruja, Comediante e Spectral. Os fãs certamente irão vibrar com a precisão dos detalhes e as referências – um tanto diferente da opção pela estilização do longa assinado por Snyder – onde está explícita a paixão de Lindelof pela obra de Alan Moore. Porém, aos não iniciados no universo da HQ, Watchmen também funciona muito bem como uma série derivada e independe, ainda que possam se sentir interessados a entender certas excentricidades.

Em um momento em que, as obras baseadas em quadrinhos podem entreter a partir de um novo conceito, embaladas pela visceralidade real de Coringa, Watchmen é brilhante na medida em que entrega uma experiência nessa mesma intensidade. Com momentos impactantes, ótimas atuações (Regina King, Jeremy Irons e Don Johnson excelentes) e elementos técnicos irrepreensíveis, a série da HBO sustenta uma história promissora cujo caminho ninguém faz ideia onde vai dar mas, de forma inteligente, instiga a pensar, mantendo a audiência interessada e atenta. 

Expectativa altíssima para os próximos 8 episódios.


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Crítica de TV

Crítica | (Des)encanto – 2ª temporada

Quando a primeira temporada de (Des)encanto chegou à Netflix, o hype e a ansiedade atingiram níveis gigantescos. Primeiro, porque se tratava da nova animação de Matt Groening – o criador de Os Simpsons e Futurama – segundo porque o novo universo, um reino místico cuja protagonista era uma princesa má educada e beberrona, parecia promissor para os que adoram um humor ácido e adulto. Dito e feito. A primeira temporada, apesar de alguma inconsistência na narrativa, conseguiu entregar exatamente o que os fãs queriam: irreverência e boas piadas. 

Com a chegada da segunda temporada, era preciso reconectar o público depois de um final curioso, porém um pouco mais dramático do que aquele tom de descaso inicial dos primeiros episódios. Mais do que isso: como retomar aquela maravilhosa química entre o trio de protagonistas? Sem muita surpresa, os primeiros episódios já respondem as pontas soltas e amarra tudo já logo nos dois primeiros capítulos. E a química volta lindamente. É visível, inclusive, que prevalecerá no desenrolar da história uma condução mais confortável e pé no chão, porém não menos descontraída. 

No decorrer da série é possível notar que, nessa temporada, há uma menor predisposição de dialogar apenas com a fantasia. Apesar de ainda beber nessa fonte, há boas referências de outros gêneros que intensificam novas boas ideias como, por exemplo, alguns óbvios paralelos com Game of Thrones. Embora isso não signifique que mantenha-se engajada naquele discurso (interessantíssimo) de como a sociedade medieval se assemelha ao nosso atual modelo de política – democrática, porém cruel para os que não se encaixam nos padrões de normalidade. 

O visual continua sendo uma delícia. Tanto a iluminação quanto o sombreamento distribuem bem a atenção, seja nos momentos de ação ou nos de mais calmaria. E o toque de mestre são as sutilezas digitais que se somam ao estilo tradicional das animações de Matt Groening. 

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A parte não tão legal é uma menor inserção de memes nos diálogos da versão dublada, coisa que a primeira temporada deitou e abusou de forma criativa e inteligente. Mesmo assim, o humor nessa segunda temporada parece se encaixar de uma maneira mais natural, até porque as características dos personagens já foram exploradas e a graça agora é, justamente, ver como eles reagem em situações que exigem uma maior intimidade entre si. 

E como a terceira temporada já está confirmada, a tendência é que (Des)encanto siga com sua faceta insana, mas bem mais espontânea e que, assim como em Os Simpsons e Futurama, nesse ritmo, possam ter episódios que funcionem bem de forma isolada. 


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Crítica de TV

Crítica | Carnival Row – S1 (Prime Video)

Série é uma admoestação sobre imperialismo recorrendo mais à didática que à arte de contar histórias.

A nova série de Fantasy do Amazon Prime, Carnival Row, e uma empreitada dos produtores Travis Beacham e René Echevarria, através da Lionsgate, convergindo em oito episódios uma combinação de Romance Vitoriano – de terror e de exploração -, Police Noir e Fantasy.

Em sua premissa, as consequências da invasão de uma terra recém descoberta por duas nações imperialistas, a República de Burgue e o Pact. Com a tomada das terras do reino feérico de Anoun, criaturas antes tidas apenas como fruto da imaginação humana se tornam refugiados na capital de Burgue, uma mímica da Londres Vitoriana.

As tensões entre as populações humanas e feéricas se acirram quando um – segundo – assassino em série deixa um rastro de sangue de homens e fada. Amarrando tudo, o romance entre um investigador de polícia, Philo, (Orlando Bloom) e uma fada, Vignette (Cara Delevigne) interrompido pela guerra.

É inevitável não comparar Carnival Row com Penny Dreadful, ambas fantasias neo-vitorianas, que flertam com o steampunk. Mas enquanto a série do Starz bebia apenas dos clássicos romances de terror do século XIX, Carnival Row traz um escopo muito mais variado de referências, tais como Shakespeare e a mitologia judaica.

Um ponto a se considerar sobre a série do Prime é a completa falta de sutileza, seja em repetir um foreshadowing à exaustão seja em como trabalha seu subtexto, se é que se pode chamar de subtexto a forma como fala sobre temas do mundo real.

A produção é digna, nada espetacular, mas não se envergonha do que tem a oferecer. Suas cenas mais no escuro são as que menos demandam efeitos especiais, estranhamente. Fadas voam à luz do dia e kobolds atuam no equivalente daquele mundo à um teatro de marionetes de rua. Mais especificamente pode-se apontar as asas das fadas (que certamente não aguentariam seu peso na vida real) e os pucks (uma espécie de Minotauro retirada de Sonho de uma Noite de Verão) como os pontos fortes na caracterização do povo feérico.

É preciso notar o excelente, e diversificado, elenco de Carnival Row. São ótimas as atuações das estrelas Orlando Bloom, Tamzine Merchant, Jared Harris e Indira Varma. É apenas uma pena que, tomando novamente Penny Dreadful como norte, Cara Delevigne ande longe de ser uma Eva Green.

O romance policial é o gênero que leva as coisas para frente, e de uma forma muito acertada, apesar dos foreshadowings excessivos. Os plot twists são até bem amarrados, deixando ainda um bom espaço para um segundo ato – com cara de nazismo -, que esperamos seja confirmado em breve.

No quesito bizarrice, notamos Philo (Bloom) sendo ordenhado por uma bruxa idosa. É só isso mesmo.

Carnival Row é, em resumo, uma admoestação sobre imperialismo, colonialismo, racismo, fundamentalismo religioso e imigração que usa uma miríade de personagens feéricos como metáfora. O faz de uma forma extremamente didática, mesmo em detrimento de qualquer poética, não perdendo apenas a capacidade de entreter.

No entanto, longe de ser uma mancha na série, isso nos faz questionar se em um mundo onde fã de Star Wars e Pink Floyd é também acólito de figuras totalitaristas, a subjetividade artística seja algo superestimado quando se precisa de discursos efetivos.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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