Um breve passeio pela história das trilhas sonoras de Final Fantasy (Parte 1)





06/07/2019 - Atualizado às 18:36


Com mais de 30 anos de história, Final Fantasy ainda se mantém, hoje, como uma das mais aclamadas franquias de RPG. Junto ao seu gameplay renovável, histórias místicas e personagens (quase) sempre carismáticos, os jogos possuem peças musicais que impecavelmente dão vida ao jogo, incorporando o drama, a alegria, a tragédia e a melancolia com gêneros e ritmos diversos.

Contudo, apesar do sucesso atual, a Square Enix, desenvolvedora responsável pela franquia, enfrentou fortes turbulências mercadológicas no início de sua carreira. Muitos dos seus primeiros títulos não recuperaram o valor investido em custo e marketing. Diante disso, o diretor e designer Hironobu Sakaguchi decidiu criar um último jogo, que seria responsável por definir o destino da companhia.

Inspirado pelo RPG de sucesso comercial Dragon Quest, o primeiro Final Fantasy nasceu. Como o próprio nome ironiza, o jogo era a “fantasia final” da desenvolvedora, a última cartada da Square para esgueirar-se da falência e encontrar o seu lugar no meio capitalista. E bem, se vocês estão aqui, é porque ela conseguiu.

Nessa decisiva empreitada surgiu Nobuo Uematsu, o compositor dos principais títulos iniciais da franquia. Naquela época, o artista, assim como a fadada companhia, também enfrentava crises financeiras, o que o fez trabalhar para várias bandas amadoras e criar músicas para comerciais.

Felizmente, tudo mudaria em 1985, quando o compositor conheceu o diretor Hironobu e a Square Enix. Nesse período, ainda que o futuro da companhia estivesse incerto, Nobuo sentiu-se inspirado pela visão e confiança de Hironobu, o que o fez trabalhar na trilha sonora do primeiro Final Fantasy. Trabalho que seria o primeiro de muitos e que o faria ser reconhecido como um dos maiores compositores da indústria gamer.

Dito isso, confira, a seguir, um resumo da trajetória de Nobuo Uematsu pela franquia, com curiosidades, segredos e informações que foram, há muito tempo, enterradas pela internet.

FINAL FANTASY I, II e III

Para o primeiro título da franquia, Nobuo Uematsu utilizou os briefings de Hironobu Sakaguchi e as artworks de Yoshitaka Amano como inspiração. A trilha sonora do clássico Super Mario Bros também foi referência para o seu trabalho.

Ao fim, o compositor produziu 20 faixas, incluindo temas de batalhas, músicas ambientes e canções que tornariam-se recorrentes na franquia, como o “Prelude”, “Opening Theme” e “Victory”.

Devido ao instantâneo sucesso comercial do título, Nobuo foi contratado para trabalhar em período integral na Square, logo tomando a posição de compositor da sequência. Para o desenvolvimento de sua nova trilha, ele concentrou-se em retratar locais místicos e impulsionar algumas peças, como o adorável tema do “Chocobo”. Tudo isso, baseando-se na trilha sonora do seu antecessor.

Dois anos mais tarde, em 1990, o artista dobrou o seu trabalho, criando 44 peças musicais para o Final Fantasy III. Nesse ponto, querendo provar que poderia criar arranjos mais complexos, ele produziu o álbum Final Fantasy III: Legend of Eternal Wind, que apresenta faixas mixadas e arranjadas com temas vocais e narrativas épicas.

FINAL FANTASY IV

Com o estrondoso sucesso da franquia, o quarto título era inevitável. Final Fantasy IV, além de gerar uma fantástica campanha com Cecil, Rydia e Edward, também foi responsável por criar um dos temas de batalhas mais populares da franquia, que infelizmente não recebeu um nome apropriado e é chamado apenas de “Battle 1”, o que pode gerar equívocos e confusões.

De todo modo, nesse ponto da história, o compositor, com sua sede agora em Havaí, deixou-se inspirar pelo cenário mais elaborado do jogo para criar faixas evocativas, baseadas nas emoções e personalidades dos protagonistas. E a faixa “Theme of Love” é um exemplo disso.

FINAL FANTASY V

Já na sequência, Nobuo Uematsu retornou ainda mais ambicioso. Como resultado, foi criada a música “Clash on the Big Bridge”, um animado e cômico tema de batalha do eterno Gilgamesh e que viria reprisar o seu papel mais tarde em novos títulos, tornando-se uma das canções favoritas do público.

Para a composição da trilha de Final Fantasy V, ele assegurou que a música permanecesse acessível e sincera, colocando em foco melodias poderosas que poderiam falar por si mesmas.

FINAL FANTASY VI

As primeiras experimentações do compositor vieram, em 1994, com Final Fantasy VI. Tendo a sua disposição novos aparatos tecnológicos, Nobuo Uematsu sentiu-se mais à vontade para explorar novos ares para a sua música.

Parte dessa nova dinâmica gerou algumas extensas faixas para a soundtrack, incluindo: “Opera Maria and Draco”, uma sequência inspirada na música clássica; “Dancing Mad”, uma peça de órgão que representa a metamorfose do chefe final; e “Balance Is Restored”, um tema de encerramento com samples temáticos de cada protagonista.

A trilha sonora de Final Fantasy VI marcou a primeira tentativa do compositor em criar faixas com vocais para a franquia. “Dancing Mad”, por exemplo, entre os seus dezessete minutos, apresenta vozes “intangíveis” mixadas por sintetizadores. Esse coro abafado atravessa a longeva obra orquestral, guiada por órgãos e instrumentos de percussão, em suas quatro diferentes seções, cada qual correspondente a um estágio da luta final contra o vilão Kefka.

Após o lançamento, o álbum de Final Fantasy VI ganhou destaque entre a mídia e os críticos, sendo eleito uma das melhores soundtracks de todos os tempos. Não por menos, Nobuo o cita como o seu trabalho favorito da franquia.

FINAL FANTASY VII

A transição da franquia para a era do Playstation permitiu Uematsu abraçar ainda mais a experimentação e diferentes estilos musicais em Final Fantasy VII. De acordo com as reviews oficiais, a obra é um híbrido de rock e eletrônico, ao mesmo tempo que é, primordialmente, uma trilha orquestral.

Entre os seus destaques está a melancólica Aerith’s Theme, faixa concebida por instrumentos de sopros e solos de piano, que toca durante um dos momentos mais emocionantes da história dos jogos eletrônicos. Consensualmente, a música ganhou forte apreço pelos fãs e críticas especializadas, sendo rearranjada e remixada diversas vezes após o seu lançamento.

Outra notória faixa é indiscutivelmente uma das favoritas do público, se não a mais ovacionada: One-Winged Angel“. O tema de rock orquestral foi consagradamente descrito como a “maior contribuição do musicista para a franquia” e a “ideia mais inovadora na história de Final Fantasy”.

Para o desenvolvimento dessa canção, a sua primeira com vocais digitalizados, Nobuo utilizou versos em latim, que são inspirados na peça Carmina Burana do musicista alemão Carll Off. Comentando sobre a sua criação, o compositor revelou que “tinha o vilão Sephiroth em mente quando começou a criar a música, assim, o som gira totalmente em torno de sua imagem“.

Devido a sua popularidade, One-Winged Angel foi reutilizada, posteriormente, em diversos subprodutos da franquia, como o filme em CGI Advent Children e o derivado World of Final Fantasy.

FINAL FANTASY VIII

Como uma história de amor, Final Fantasy VIII se embala no romance, como notório em sua trama, e na faixa Eyes On Me, tema interpretado pela cantora chinesa Faye Wong.

Devido a capacidade tecnológica do Playstation, Nobuo Uematsu conseguiu desenvolver para o título samples orquestrais ainda mais expressivos e realistas. A faixa de versos em latim, “Liberi Fatali”, é a prova de que a nova empreitada do musicista foi bem-sucedida.

FINAL FANTASY IX

Enquanto as suas últimas soundtracks, assim como os jogos aos quais faziam parte, flertavam com o realismo, Final Fantasy IX adotou a temática medieval, voltando-se fortemente para a fantasia em si.

A trilha sonora do jogo também foi particularmente influenciada pelas aventuras pessoais do compositor, que durante o seu tempo livre, estudou a música de diferentes eras e países.

Essa jornada, felizmente, gerou faixas indispensáveis, tais como: “Vamo Alla Flamenco”, música evidentemente inspirada no ritmo espanhol; “Bran Bal”, canção baseada na arte impressionista; e “A Place to the Call Home”, tema que utiliza instrumentos “ancestrais”.

FINAL FANTASY X

Abrigando uma das melhores trilhas da série, Final Fantasy X proporcionou uma nova experiência para o compositor Nobuo Uematsu, ao inaugurar a era do Playstation 2 para a franquia de RPG.

Contudo, devido a exaustão e distrações em reuniões do trabalho, o musicista ficou incapaz de manter o ritmo para entregar a trilha sonora a tempo do deadline. Por essa razão, ele solicitou assistentes, o que acabou por marcar a primeira vez que uma soundtrack da franquia seria produzida em colaboração com outros musicistas, nesse caso Masashi Hamauzu e Junya Nakano.

Com mais mão de obra e tecnologias à disposição, a trilha de Final Fantasy X gerou uma composição eclética, que reuniu diversos ritmos inusuais para a saga, como o funk, o metal, o eletrônico e até o gospel.

A emblemática “To Zanarkand”, que inicialmente foi desenvolvida para um recital de uma amiga de Nobuo, tornou-se uma das favoritas dos fãs, dos críticos e do próprio compositor. Já “Suteki da ne (Isn’t Wonderful?)”, música tema do jogo, é interpretada pela cantora japonesa de folk Rikki e inspirada na atmosfera das ilhas de Okinawa, um ambiente isolado e majoritariamente tropical, que também serviu de referência para as locações do game.

FINAL FANTASY XI

Novamente acompanhado, Nobuo Uematsu encerrou sua era em Final Fantasy com o décimo primeiro título da franquia, sendo o seu último trabalho como compositor principal (até ele retornar em 2014, em Final Fantasy XIV).

Como tratava-se de um jogo online, o musicista decidiu utilizar a língua Esperanto no tema de abertura para simbolizar a conexão entre diferentes culturas ao redor do globo. Poético.

Em 2004, após exercer o seu trabalho em 11 títulos, durante 17 anos, Nobuo Uematsu deixou a Square Enix para se tornar um freelancer, abrindo uma nova era musical para a franquia. Novos rostos e talentos conhecidos apareceram nessa amada casa, um assunto que será tratado detalhadamente na próxima parte desse artigo.

E enquanto não chega, aproveite essa playlist feita pelo Volts com as melhores faixas da franquia, incluindo as citadas no texto: