Sex Education e a naturalização do sexo na TV

Sex Education e a naturalização do sexo na TV

Não há nada de embaraçoso em falar sobre sexo, ou pelo menos, não deveria ser.

Seguindo essa ideologia, a série britânica Sex Education transita entre a comédia e a drama, tratando de temas ‘tabus’ acerca do famigerado sexo, sem costurá-los em uma trama superficial, como outras séries o fazem hoje em dia.

Neste caso, Sex Education vai afundo na raiz do problema e não possui vergonha ou escrúpulos em ser brutalmente sincera sobre a realidade que ninguém quer contar.

Tudo começa com uma instantânea estranheza causada a nós, que logo se transforma em uma dupla-lição. A primeira, explanada à prática, trata-se do rico conhecimento sobre os problemas comuns acerca do sexo, indo da anatomia, aborto, até o cyberbullying, entre bordões informais e diálogos técnicos. Já a segunda, acompanha a lógica dos seguintes questionamentos “Nós não deveríamos ter aprendido isso antes? Por que nunca me falaram que isso era possível?”.

Diante deste impacto, descobrimos aos poucos que cada personagem apresentado na trama é assombrado por segredos sombrios sobre sua sexualidade, cada qual alinhado a um específico problema. Seja por não conseguirem se masturbarem, ejacularem ou abrirem a entrada do seu templo para estranhos explorarem. Todos, de alguma forma, encontram-se perdidos e são alimentados por constantes dúvidas sobre os seus corpos, hormônios, parceiros e daí em diante.

Do senso-comum, sabemos que nem sempre os pais ou responsáveis possuem toda a lógica, ou presunção de como tratar da sexualidade com os seus filhos, muita das vezes, há uma timidez ou um silêncio entorpecedor entre alguma das partes. Alguns seres da classe jovem também prezam pela privacidade e não abrem espaço para tal comunicação. E ainda que esses problemas sejam superados e este diálogo ocorra naturalmente, nada substitui o enriquecedor conhecimento de um profissional da área, que infelizmente, hoje, ao menos no Brasil, sofrem uma esquisita repreensão do governo, equivocado e fascinado por uma ideologia de gênero inexistente.

Acima dos contrapontos, a série propõe naturalizar, de todos os modos, os temas acerca do sexo, aliás, não evidencia, quase nunca, apenas o entretenimento por trás deste ato. Até o questiona ás vezes. A intenção, antes de tudo, é ressaltar que é uma questão de saúde, física e mental. E que não há nada de errado em errar – ou passar por algumas das situações ilustradas de maneira dramática ou cômica na série.

Dito isso, desejo traçar, aqui, um paralelo com o discurso de Shonda Rhimes (Grey’s Anatomy, Scandal) no evento da Human Rights Campaign, em 2015:

 “Estou normalizando a televisão. Estou fazendo a televisão parecer como o mundo é”.

Neste caso, a produtora e roteirista retratou sobre a diversidade do elenco de suas produção, e que para ela (e qualquer sensato), tratava-se de algo normal, ou nada fora do usual, até por que “mulheres, negros e pessoas  LGBTQ correspondem a mais de 50% da população”.

Seguindo esta mesma lógica, o mesmo pode ser dito sobre os polêmicos tópicos acerca do sexo. Este, alienado constantemente com supérfluas representações nos canais de entretenimento, e escondidas pelo véu da perfeição, não estão a par de sua realidade. A história é outra.

Nós somos imperfeitos, nossos corpos também. E não há nada de errado nisso. 

E é isto que Sex Education nos apresenta. Ainda que entre situações caricatas, simbólicas, ou práticas, a série proporciona mais conhecimento, com seus 8 episódios de 50 minutos, do que terceiros antes tentaram retratar entre horas, meses, ou mesmo anos. E como sabemos muitos não vão muito além da simplória visão utópica do sexo…

Dito isso, assim como Shonda Rhimes o faz na representação e diversidade de seu elenco, Sex Education e toda a sua equipe de produção também nos guiam para a normalização da TV, streamings, filmes, etc.

A perfeição sobre o sexo, nossos corpos e relações acerca disso, precisam ser abolidas para abrir espaço para a sua naturalização.

E esperamos que séries como Sex Education nos ajude nesta empreitada.

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