Porque governantes precisam assistir mais filmes e séries





11/09/2019 - Atualizado às 02:30


Hoje, um vasto rol de filmes e séries, dos mais diferentes gêneros, circula pelas inúmeras mídias ao nosso alcance. E nunca foi tão fácil consumir narrativas como é atualmente.

Entre produções fúteis, de entretenimento básico, e obras ovacionadas por festivais renomados da Europa, existem histórias singulares sobre os mais diferentes grupos sociais e culturais, que podem ensinar uma coisa ou outra sobre empatia. Além do mais, as narrativas, existentes desdes os primórdios da humanidade, foram e são responsáveis por transmitir valores, fatos históricos, conhecimento científico e compreensão das sociedades que nos circundam.

Segundo o artigo Cientista na Animação Televisiva, de Denise Siqueira, pós doutora em sociologia e professora de comunicação da UERJ, diante de filmes e programas de TV, crianças e adultos estão em constante processo de socialização, formação e aprendizado. E ainda que os meios de comunicação sejam amplamente divulgados como meros instrumentos de entretenimento, eles também são responsáveis por transmitir ideias, mensagens, representações sociais e consolidar formas de pensar, ideologias e hábitos. Ou seja, somos o que somos hoje, por causa das narrativas que nos envolvem.

Dito isso, a TV e o cinema atual, que cada vez mais escalam e contratam atores, roteiristas e diretores LGBTQ+, negros, asiáticos e etc, podem nos proporcionar um maior entendimento sobre culturas e etnias que, por exemplo, um homem heterossexual branco pode – muito provavelmente – não ter conhecimento.

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E diante de uma sociedade como a nossa onde os governantes são, em sua grande maioria, desse nicho, é importante ressaltar que as narrativas, produtos de fácil alcance, podem ajudá-los a compreender que o seu dever não é somente como uma parcela da população, mas com o todo.

Aliás, enquanto alguns persistem em teclar os botões do conservadorismo e da intolerância, narrativas da TV e do cinema aproximam-se cada vez mais dos diferentes grupos da sociedade. Séries como Grey’s Anatomy e How To Get Away With Murder, por exemplo, hoje apresentam personagens de diferentes etnias, crenças e culturas, expondo, além, os problemas emergenciais da população, como o abuso sexual, controle de arma, imigração, sistema judiciário e médico quebrados, questões de gênero, religião, entre outros. São discursos que dialogam, de fato, com a sociedade, ao contrário dos pronunciamentos rasos de certos governantes que, normalmente, são direcionados apenas para os seus semelhantes.

Segue abaixo dois exemplos:

“O racismo está enraizado no DNA dos Estados Unidos. E enquanto fecharmos os olhos para a dor de quem for oprimido por isso, nunca escaparemos dessas origens. A única salvação que negros têm é a defesa e nós nem damos isso a eles. Significa que a promessa de direitos civis não se cumpre. Devido às falhas do nosso judiciário, da Defensoria Pública em especial. Lei que tornou ilegal que brancos e negros fossem enterrados no mesmo cemitério, que categorizava pessoas em raças mistas, que punia negros por buscar ajudas em hospitais de brancos. Alguns afirmam que a escravidão acabou. Mas diga isto aos judeus que estão em jaulas que acreditam não ter nenhum direito. É neste país que esta Corte quer mesmo viver? Onde dinheiro é mais importante que humanidade? Onde criminalidade é confundida com saúde mental?”

Por outro lado, há produções que retratam grupos específicos, como 12 Anos de Escravidão, Cara Gente Branca e Histórias Cruzadas, que apresentam dores e problemas históricos, como a escravidão, o racismo e a violência policial. São lutas que os demais nichos podem não compreender a princípio, justamente por não vivenciá-las diariamente.

Contudo, a atuação, a imersão, fotografia e a trilha sonora são alguns dos recursos que seduzem o espectador a conhecer mais a fundo e sentir um pouquinho, na pele, o “viver” do outro. Em outras palavras, ensinam-no a ter empatia.

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Citando mais alguns exemplos, temos Orações para Bobby, um retrato doloroso sobre as delicadas relações entre a homofobia, suicídio e a religião. Além de ser um lembrete para as famílias reafirmando que o amor transcende qualquer barreira, por mais clichê que isso pareça.

One Day At A Time e Brooklyn 9-9 expõem os problemas de imigração, de gênero, depressão e ansiedade, ainda que com leveza e humor. Na verdade, tais características as tornam mais fáceis de serem digeridas por qualquer público, até os conservadores.

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Por último, Sense 8, o reflexo da diversidade, uma história sobre indivíduos de diferentes partes do mundo, com problemas únicos, que devem se unir, superar as diferenças e enfrentar as adversidades que os circundam, como o falho sistema político africano, machismo e a transfobia. As distinções de cada cultura e etnia são impactantes de início, justamente por não as conhecermos, porém didáticas e enriquecedoras.

Há diversos outros exemplos para serem citados, mas estes bastam por ora. No fim, gostaria de saber: Qual a sua opinião a respeito? Acham que vale a pena um governante gastar mais tempo conferindo uma série do que acompanhar as suas redes sociais para atacar e bloquear os seus “adversários”?