GoT Com Elas | Por que menosprezamos as Sansas?

GoT Com Elas | Por que menosprezamos as Sansas?

Sansa Stark talvez seja a personagem de fantasia mais odiada e subestimada de todos os tempos. Arwen não salvou Frodo nos livros de O Senhor dos Anéis, mas jamais enfrentou tamanho ódio cego como a personagem de Sophie Turner em Game of Thrones. Sansa é um produto de ficção inspirado, entre outras coisas, em uma ideia de Idade Média, mas é possível medir a recepção à ela em posts enfurecidos em redes sociais contemporâneas.

Há uma explicação muito simples para isso: misoginia; e sabemos que argumentos racionais mostrando que o ódio e desprezo por Sansa Stark são um espelho do ódio e desprezo pelas mulheres que se arrastam há séculos, proveniente de uma sociedade dominada por um ideal de força e liderança masculino, pode soar como vitimismo para muitos.

Mas longe de ser uma vítima, Sansa Stark, e as mulheres que ela representa, são sobreviventes e possuem um tipo diferente de força. Nas palavras de Brienne de Tarth para Catelyn Stark, o primeiro modelo de Sansa, “talvez não uma força de batalha, mas uma força feminina”.

Mas quem é Sansa e onde a perdemos ou ignoramos em Game of Thrones para que a tomemos, mesmo nove anos depois, como a ingênua e birrenta garotinha que sonhava em casar com um príncipe encantado e viver seus dias cuidado dos filhos e servindo como ideal para o povo?

Sansa Stark nem sendo abusada despertou empatia

É preciso antes ressaltar que odiar garotinhas que sonham em ser felizes no casamento, em ser mães e inspirarem amor maternal, por si só é errado e sintoma de aversão por características consideradas femininas.

Para entendermos quem é Sansa em um contexto maior, precisamos entender quem é esta personagem no imaginário humano. Ela é apresentada como donzela em perigo, mas ela também é uma deusa que distribuía maçãs sem as quais não existiriam deuses, e a mulher que acabou com a Guerra das Rosas, tomando como base duas das mais recorrentes inspirações para George R.R. Martin escrever as Crônicas de Gelo e Fogo: a mitologia Nórdica e a História e lendas da Inglaterra.

Sansa é a deusa nórdica Iduna

A deusa nórdica da casa dos Aesir Iduna, uma das poucas deidades que sobrevive ao Ragnarok, é sequestrada por Loki (Mindinho) e dada em casamento pra uma águia, que na verdade era o perverso gigante Thiazi (Ramsay).

Iduna já era casada com Bragi, o deus da poesia. Sendo descrita como doce, gentil e boa ela era responsável por renovar a imortalidade dos deuses. Sempre que estes sentiam o peso dos anos batendo, ela lhes dava uma única maçã. “Sem as maçãs de Iduna os deuses mal seriam deuses”, diz Neil Gaiman em sua livro Mitologia Nórdica, reforçando a importância da deusa na permanência dos Aesir no comando de Asgard.

Iduna e as maçãs da imortalidade

Loki engana Iduna a levando para comparar suas maçãs mágicas com supostas maçãs comuns que ele teria encontrado. Quando os deuses dão por falta de Iduna e temem morrer, Loki acaba sendo descoberto e em troca de não ser executado vai atrás da deusa. Encontra ela chorando no cárcere do gigante. Ela acusa o deus trapaceiro de ser a fonte de todos os seus tormentos. Loki termina por resgatar Iduna da prisão onde ele mesmo a colocou..

Iduna é uma das deidades que sobrevive ao Ragnarok, apesar de ser sempre descrita como alguém passivo, tal qual Sansa, e de muito pouco sobre ela ter sido relatado. Na segunda temporada de Game of Thrones Tyrion pontua: “você talvez sobreviva a todos nós, minha Senhora de Stark”. As semelhanças com Sansa e sua relação com Mindinho e o casamento com Ramsay também são enormes.

Sansa é Elizabeth of York

Elizabeth de York era a filha mais velha de Eduardo IV e Elizabeth Woodville. Reza a lenda que ela foi a inspiração para a ilustração da Rainha de Copas nas cartas de baralho e que teria tido um caso romântico/sexual com seu tio Richard III.

Segundo a biógrafa Nancy Lenz Harvey, Elizabeth desde o nascimento foi tomada como uma princesa para ser casada com alguém e cimentar alianças políticas para a casa de seu pai, os York. Suas opções de casamento flutuavam como flutuavam as alianças que Eduardo IV ia fazendo durante a Guerra para se manter no trono.

Elizabeth de York jovem e depois de casada usando um colar Tudor

Nos anos finais das Guerras das Rosas o poder havia sido tomado por seu tio, Ricardo III e o peso de barganha por casamento da princesa estava limitado.

A roda da fortuna girou novamente em seu “favor” quando Henry Tudor, um nobre galês pretendente ao trono da Inglaterra pelo ramo materno dos York, venceu a batalha contra Richard III e tomou o trono unificando as rosas e restaurando a paz.

Elizabeth foi parte essencial para que os Tudor consolidassem seu poder, sem ela, uma Tudor de linhagem masculina e filha do antigo rei os nobres poderiam vacilar em apoiar Henry VII. Foi também responsável em grande parte pela negociação do casamento entre a princesa de Isabel de Aragão com Arthur, o príncipe de Gales, uma união que seguraria o apoio da Espanha às causas inglesas.

Sansa Stark deliberadamente se parece com Elizabeth de York

Até fisicamente a personagem da Sansa Stark se parece com a descrição e retratos de Elizabeth de York, descrita como tendo longos cabelos ruivos ou loiro-ruivos; além disso, a Casa Stark recebeu este nome por ser semelhante à York, enquanto so Lannister seriam so Lancaster, a outra facção das Rosas. Elizabeth era a chave para a Inglaterra como Sansa era a chave para o Norte.

Sansa Stark em Game of Thrones

A Sansa dos livros é odiada, a da série de TV é a sua herdeira, mesmo que o desenvolvimento das duas tenha diferenças muito importantes até agora. É possível mostrar temporada por temporada como a personagem tem sido subestimada dentro e fora da série, como se um surto de ignorância coletiva tivesse sido espalhado através do chiado da HBO.

Odiamos em Sansa tudo que é feminino, e tudo nela o é. Amamos em Arya e Brienne tudo que nelas que é masculino. Para as mulheres que lutam com espadas, um símbolo de poder fálico masculino, como ‘elegantemente’ sublinhado por Walder Frey no Casamento Vermelho. Elas parecem fortes, obstinadas, corajosas, homens de saia.

Brienne, o corpo híbrido

Um ótimo contraponto é Cersei Lannister, que também personifica a imagem da Rainha perfeita, seus longos cabelos dourados, seus vestidos carmesim, seu amor pelos filhos mesmo quando um deles é um psicopata. Para ser amada é preciso ser perfeita, porém fria, amar os filhos e sofrer não por você, mas por eles.

Mas Cersei é também a extensão de Jaime, seu complemento masculino, ela chega a dizer que só se sente completa quando penetrada pelo irmão. Ela passa a usar roupas como as de Tywin, seu pai, ela diz a ele que é seu “filho”, o filho que ouvia as lições, e se recente em ter sido vendida em casamento à um homem que não amava.

A mulher para ser amada pelo público tem que ser um objeto lasciva, pecadora e sublinhar seu complemento masculino. O momento de maior glória de Cersei foi explodir do Septo de Baelor, cometendo genocídio, extirpando toda a nobreza e clero de Porto Real.

Cersei Lannister, a pecadora sem escrúpulos

Catelyn Stark é a personificação da mater dolorosa. Gostamos e simpatizamos com ela por sua dor pelos filhos e pelo marido. Catelyn Stark se torna a Senhora Coração de Pedra nos livros, arrebatando amor dos leitores que não a admiravam apenas enquanto mãe. Para ser amada é preciso se despir de toda a humanidade, se tornar um demônio vingativo e deformado.

Cat Stark, a mater dolorosa

Daeneys Targaryen, por sua vez, é amada por seu caráter mítico, mágico. Ela vem de uma linhagem de pessoas excepcionais, descendente do Conquistador, nasceu em meio à uma tempestade, quebra correntes, não se queima, ela choca ovos em piras funerárias e doma dragões. Ela executa sumariamente seus adversários. A mulher só é amada quando é mítica e inacessível.

Daenerys, a mulher mítica e inacessível

Sansa é apresentada como inocente, doce, sonhadora, mas também mimada. Mas há que se questionar se quando ela mente sobre a briga entre Arya e Mycar não foi uma jogada que lhe garantiu seguir com o que queria? Não recompensamos mulheres mentirosas?

Quando Joffrey leva Sansa para ver a cabeça de seu pai na estaca a reação da ainda inocente garota é pensar, e quase conseguir, empurrar Joffrey da ponte que liga a Fortaleza de Maegor à Fortaleza Vermelha.

Quando questionada por Tyrion se queria voltar para casa após ser despida e espancada na sala do trono ela responde “Porto Real é minha casa”, ao que o homem mais inteligente dos Sete Reinos responde “você talvez sobreviva a todos nós”.

Quando oferecida aliança com o maior enganador do continente ela se agarra com unhas e dentes. Quando precisa sobreviver aos senhores do Vale após ser cúmplice no assassinato da própria tia ela mente sem piscar.

Quando se liberta de Ramsay ela confronta Mindinho sobre sua conivência com todo o sofrimento que lhe foi infligido. Quando percebe que Jon não a ouviu sobre os preparativos para a Batalha dos Bastardos ela chama os cavaleiros do Vale e mais tarde lembra a todos que “Jon perdeu a Batalha dos Bastardos” quem ganhou foi ela. Sansa dá Ramsay de comer para seus próprios cachorros como vingança.

Sansa, a chave para o Norte

Sansa usa Mindinho para continuar com o apoio dos Senhores do Vale até que encontra uma oportunidade de se livrar de suas investidas de uma vez por todas. Ela coloca Arya para o executar após servir como juíza e acusadora dos crimes de Petyr Baelish.

E seguimos a odiando muito em razão de estarmos constantemente sendo expostos ao meme “você está estragando tudo”, mas em grande parte pela forma como fomos apresentados à personagem. Mas o principal de tudo é a forma como Sansa segue se apresentando.

Sansa fingiu, mentiu, matou, tramou, ganhou batalhas, mas seguiu se portando como sempre se portou: como uma Lady. Ela é fiel aos que a ajudam, elas não os humilha, ela ama sua família como um todo, ela suporta o desdém de Jon Snow, a desconfiança de Arya e a bizarrice de Bran. Ela segue como a Senhora de Winterfell, feminina e altiva, mas bondosa e por isso mesmo submestimada. Ela é hoje a personagem mais bem preparada para governar, ela recolhe suprimentos e se atenta a detalhes como forro de placas de peito, mas ainda é odiada.

Lyanna Mormont não é muito diferente da Sansa de hoje. Ela teve que aprender mais rápido, estava segura em casa, tomou toda a Ilha dos Ursos nas mãos, mas ainda assim é subestimada no Salão de Winterfell. Os senhores sorriem quando ela começa a falar por ser ainda uma criança e, que Deus tenha piedade, ser menina.  Jon sorri sempre que Lyanna abre a boca, assim como não dá ouvidos à irmã e não reconhece sua inteligência.

Olenna Tyrell, a idosa sábia

Olenna Tyrell, por sua vez, é a Sansa idosa, e é quase impossível achar alguém que não goste dela. Olenna era uma princesa, foi dada em casamento arranjado, é mãe e avó, cuidou do legado Tyrell, mas tem a língua afiada que os anos e a experiência lhe trouxeram, assim como os anos, ainda que poucos, e a experiência, ainda que sofrida, ensinaram à Sansa questionar na cara de Jon se ele dobrou o joelho por amor ao Norte ou por amor à Dany.

Então por que não podemos gostar de Sansa? A resposta está na imagem e no imaginário do feminino, da mulher inocente, passiva e sonhadora, mesmo que seja, no fundo, detentora de um enorme poder. Sansa padece do mesmo fim que Elizabeth de York, que nunca é lembrada como peça essencial para que um reino destruído encontrasse paz e aliados, ou Iduna jamais creditada como real fonte de poder dos deuses através de suas maçãs especiais.

Elizabeth sobreviveu às Guerras das Rosas, como Sansa sobreviveu ao Conflito dos Cinco Reis, mas ainda nos falta saber se sobreviverá à Batalha da Aurora como Iduna sobreviveu ao Ragnarok.

A única forma de Sansa ser amada seria, então, se transformar em uma de suas companheiras de série: perder a sanidade, a humanidade, ser desfigurada, empunhar uma espada… Nem mesmo os sucessivos estupros e espancamentos serviram para abrandar os corações, porque no fundo somos um pouco como Joffrey e Ramsay, gostamos de apreciar um rostinho bonito e gostamos de odiar quem o tem.

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