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Artigo

Jenny of Oldstones e as canções em Game of Thrones

Analisamos a letra da canção e suas implicações no passado e presente de Game of Thrones

Por Tayna Abreu e Alessandra Medina

A música é um elemento importante em Game of Thrones. Algumas canções saem diretamente das páginas de As Crônicas de Gelo e Fogo, livro de George R. R. Martin que deu origem à série. Outras são compostas exclusivamente para o seriado. Há ainda a participação de cantores e bandas da vida real que tocam músicas para embalar casamentos sangrentos ou interpretam soldados Lannister que não sobrevivem a batalhas.

No último domingo (21), no episódio A Knight of  the Seven Kingdoms, os personagens estavam no que poderíamos considerar um último momento de paz antes da chegada do exército de White Walkers. Em frente a uma lareira em Winterfell, Tyrion, Jaime, Davos, Brinne, Tormund e Podrick bebiam e conversavam, em cenas que alternavam entre o cômico e o dramático.

Para marcar o momento, o pequeno Lannister solicita aos companheiros uma música, qualquer uma, para não acabarem a noite em um silêncio sepulcral. Para a surpresa de todos, Podrick Payne solta a voz com a canção Jenny of Oldstones, uma triste música que guia o telespectador por cenas que mais do que nunca mostram que o inverno chegou. Após episódio, a HBO oficialmente lançou a música, na versão de Florence + The Machine.

Para quem acompanha os livros, a música não é totalmente desconhecida. Em A tormenta das espadas, Arya Stark e a Irmandade sem Estandartes acampam em uma região das Terras Fluviais conhecida como Coração Alto. Lá eles esperam encontrar a Fantasma do Coração Alto, para ouvir suas previsões sobre o futuro e sobre o paradeiro de Beric Dondarrion. O pagamento pelas previsão é que seja cantada Jenny of Oldstones. Enquanto ela escuta a música, ela murmura palavras, gritos e choros.

Florence Welch com flores no cabelo, muito Jenny

Mas quem foi Jenny de Pedravelhas?

Jenny era uma jovem camponesa das Terras Fluviais que encantou Duncan Targaryen, o príncipe de Pedra do Dragão, filho mais velho e herdeiro de Aegon V, o Improvável (o Egg de O Cavaleiro dos Sete Reinos) em 239 DC. Jenny se dizia uma descendente dos reis dos Primeiros Homens e seu sobrenome fazia referência ao castelo em ruínas de Pedravelhas, antigo assento da Casa Mudd.

Os Mudd não existem mais nem no tempo de Jenny e quando governavam terras do Ramo Azul do Tridente se intitulavam Reis dos Rios e das Colinas. Pedras Velhas foi o nome dado apenas às ruínas do castelo por se relacionar com a sua decadência. Jenny andava com flores nos cabelos e tinha uma bruxa anã como companhia, a velha Fantasma de Coração Alto, que, por sua vez, se dizia descendente dos Filhos da Floresta.

Contra a vontade de seu pai e de todo o reino, Duncan quebra o noivado com filha de  Lyonel Baratheon, um importante aliado dos Targaryen, desposa Jenny e abandona seu direito à coroa dos dragões, passando a ser conhecido como o Príncipe das Libélulas (Dragonfly, em inglês).

Jenny, agora esposa de Libélula, levou para a corte sua amiga; essa é a bruxa que profetiza que o Príncipe Prometido nasceria da linhagem de Aerys e Rhaella Targaryen. Quando o pai das crianças, Prince Jaehaerys, ouviu a profecia arranjou que os irmãos se casassem.

O tempo passa, Aerys e Rhaella se casam e produzem um novo herdeiro. No fim da gravidez de Rahella, em 259 DC, toda a corte e descendentes Targaryen se reuniram na casa de veraneio da família, Solar de Verão (ou Solarestival), onde Aegon V inventou de levar sete ovos de dragão para serem eclodidos com fogo vivo.

Tragédia de Solar de Verão

Sete ovos para homenagear a fé dos Sete, mas o uso de fogo vivo foi repreendido pelo Alto Septão já que a substância era extremamente volátil. Dito e feito, acontece a tragédia de Solar Estival, quando quase toda a Casa Targaryen foi morta no incêndio causado pelo rei. O Príncipe das Libélulas pereceu, assim como seu pai e seu irmão Jaehaerys. A coroa passou então para o príncipe Aerys. Jenny não foi encontrada entre os corpos, mas também nunca mais foi vista, ao contrário de sua bruxa que segue vivendo até os dias da Guerra dos Cinco Reis.

Mas nem só de morte foi marcado o dia. Enquanto os velhos morriam, Rahella dava à luz ao novo Príncipe de Pedra do Dragão, Rhaegar Targaryen. O menino cresceu envolvo na história de seu nascimento e na profecia da Coração Alto, o que o fez acreditar que ele era o Príncipe Prometido.

Arya dançando com seus fantasmas

A canção

A música de Jenny de Velhas Pedras é uma das mais cantadas nos Sete Reinos e uma das histórias mais citadas nos livros. Apenas em A Tormenta das Espadas, Jenny e sua música são lembradas três vezes:

1 – Fantasma de Coração Alto pede que Tom Setecordas, da Irmandade Sem Estandartes, cante a canção no capítulo 43, Arya VIII;

2 – Robb Stark pede que se cante “Jenny de Pedras Velhas com Flores na Cabeça” (o nome completo nos livros) quando acampado nas ruínas do castelo de Pedravelhas;

3 – Tom Setecordas canta finalmente a tal Jenny esperando pela chegada de Merret Frey em Pedras Velhas no epílogo.

Em O Festim dos Corvos, Marillion coloca Jenny entre as canções de seu repertório com só as mais sofridas de Westeros enquanto está preso em uma das celas do Ninho da Águia. A última vez é no A Dança dos Dragões, no capítulo 67, O Derrubador de Reis, quando Barristan Selmy pensa sobre o término do romance entre Dany e Daario:

Melhor para Daenerys e para Westeros. Daenerys Targaryen amava seu capitão, mas essa era a garota nela, não a rainha. O Príncipe Rhaegar amou sua Senhora Lyanna, e milhares morreram por isso. Deamon Blackfyre amou a primeira Daenerys, e levantou-se em rebelião quando ela lhe foi negada. Açoamargo e Corvo de Sangue amaram Shiera Seastar e os Sete Reinos sangraram. O Príncipe das Libélulas amou tanto sua Jenny de Pedravelhas que deixou de lado uma coroa, e Westeros pagou o dote da noite em cadáveres. Todos os três filhos do quinto Aegon se casaram por amor, em desafio aos desejos do pai. E porque aquele monarca fora do comum tinha, ele mesmo, seguido seu coração quando escolheu sua rainha, permitiu que os filhos trilhassem seu caminho, fazendo amargos inimigos onde poderia ter tido bons amigos. Traição e tumulto se sucederam, como a noite segue o dia, terminando no Solar de Verão, em feitiçaria, fogo e lamento. O amor dela por Daario é um veneno. Um veneno mais lento do que os gafanhotos, mas no fim tão mortal quanto“.

Sobre a letra da canção nos livros há apenas uma linha, a primeira: “No alto dos salões dos reis que se foram, Jenny dançava com seus fantasmas…”; todo o resto cantado por Florence + the Machine foi composto em conjunto pelos produtores de Game of Thrones David Benioff e D.B Weiss, o compositor das músicas originais da série Ramin Djawadi, e George R.R. Martin, autor das Crônicas.

É interessante notar as duas referências que compõe apenas a melodia: a tradição Celta e as músicas de Game of Thrones. Florence contou em entrevista ao Consequence of Sound que ao ouvir a música pensou em uma melodia de ninar Celta. “Música Celta sempre esteve em meu sangue, então eu senti que poderia fazer algo com isso. A mágica e rituais em Game of Thrones, sem mencionar as roupas, sempre me fascinaram…”

Podrick canta “Jenny” em um dos salões de pedra de Winterfell e todo o norte da história é inspirado na Escócia e na tradição Celta, inclusive a religião dos Velhos Deuses, muito mais ligada à natureza que a Fé dos Sete. Mas Jenny e sua canção são sobre uma tragédia, sobre fantasmas dançando em salões de pedra úmida, sobre reis antigos e sobre o que o Meistre Aemon diz para Jon Snow “o amor é a morte da honra”.

Como tudo isso se relaciona com Jon Snow e Daenerys

É preciso aqui adaptar as palavras de Barristan. O cavaleiro achava que Dany amava Daario, mas na série sabemos que a rainha amou apenas dois homens: Drogo e Jon. Se transplantamos a preocupação de Selmy para o episódio em que Jenny of Oldstones foi cantada as coisas não parecem boas para o casal, mas isso não é exatamente novidade, certo?

Jon e Dany estão enfrentando simultaneamente a mesma questão que Duncan, o Libélula, teve de enfrentar por sua amada. Dany sempre quis o Trono de Ferro e foi levada pelo amor a Jon à lutar contra os White Walkers, postergar sua guerra contra Cersei, para então ficar sabendo que ele é o principal concorrente legítimo ao posto pelo qual ela foi no inferno e voltou.

O Guardião do Norte, por sua vez, ajoelhou para uma rainha estrangeira contra toda a recomendação daqueles que o coroaram para agora ficar sabendo que ela é sua tia, que ele é também da Casa que executou seu avô e seu tio, a casa para quem os Senhores do Norte juraram que jamais formariam aliança novamente após Lyanna ter sido supostamente sequestrada e estuprada dando início à Rebelião.

Sansa, que ficará segura com os fantasmas nas criptas

A Letra

Se a história por trás de tudo pode ser encontrada na letra da canção Jenny of Oldstones, o presente também pode ser. É impossível não pensar em Winterfell, ainda mais quando o vídeo oficial foi divulgado pela HBO.

A letra fala sobre salões de pedra de reis que se foram, o que pode ser tanto Solar de Verão, qualquer castelo antigo ou, como vamos sublinhar, as criptas de Winterfell, já que os salões tem pedra velha e molhada, como os níveis mais profundos do malcozeu Stark.

Jenny, veja só, não está dançando com os fantasmas destes reis, como a tradução em português da intro pode deixar implícito, mas com os fantasmas dela, os fantasmas das pessoas da vida de Jenny. Esses fantasmas podem ser o seu príncipe, mas podem ser também os fantasmas das pessoas que Dany, Jon e Cia perderam ao longo dos anos. Mais uma vez os fantasmas dos Stark que são caros para Sansa, Arya e Jon.

Enquanto ela dança, suas tristezas e dores são afastadas e ela nunca quis deixá-los. O corpo de Jenny nunca foi encontrado em Solar de Verão, mas ela foi dada como um dos mortos. Estes, aliás, se aproximam de Winterfell, sendo alguns deles pessoas queridas para os reclusos nas criptas, como toda a Casa Umber.

A dança com os fantasmas durou o dia todo e entrou pela noite, sem se importar com a neve que caía no salão. Não há neve em Solar de Verão, ele só era frequentado, como diz seu nome, nos momentos de calor, de festa, de férias. Segue a dança pelo inverno, passa pelo verão e vem o inverno novamente, até que as muralhas caiam sobre os dançarinos. Que muralhas? A Muralha e a muralha da vida. No juramento da Patrulha da Noite o termo usado é “muralhas” no plural. E o que também é uma dança? Uma batalha. Esta parte da letra parece lembrar que a Batalha da Aurora teria de se repetir, como será no terceiro episódio, mas desta vez com dragões dançando nos céus de inverno.

[Intro]

High in the halls of the kings who are gone

Jenny would dance with her ghosts

The ones she had lost and the ones she had found

And the ones who had loved her the most

[Verse 1]

The ones who’d been gone for so very long

She couldn’t remember their names

They spun her around on the damp old stone

Spun away all her sorrow and pain

[Chorus]

And she never wanted to leave, never wanted to leave

Never wanted to leave, never wanted to leave

[Verse 2]

They danced through the day

And into the night through the snow that swept through the hall

From winter to summer and winter again

‘Til the walls did crumble and fall

[Chorus]

And she never wanted to leave, never wanted to leave

Never wanted to leave, never wanted to leave

And she never wanted to leave, never wanted to leave

Never wanted to leave, never wanted to leave

[Outro]

High in the halls of the kings who are gone

Jenny would dance with her ghosts

The ones she had lost and the ones she had found

And the ones who had loved her the most

Artigo

Passou da hora de questionar a eugenia em Game of Thrones

Ancestralidade superior e o sangue puro são ideais nazistas

É um sintoma social quando torcemos por genocídio e usamos eugenia para justificar um personagem merecer mais alguma coisa que outros. Game of Thrones tem despertado o pior nas pessoas e fãs tem andando muito perto de salvar um füher.

No Mundo de Gelo e Fogo, o mundo criado por George R.R Martin como lar de seus personagens das Crônicas de Gelo Fogo e outros romances e contos derivados, conceitos comuns à ideologia nazista são apresentados no ideal da família Targaryen: a ancestralidade superior e o sangue puro.

Imaginemos um grupo de pessoas que se consideram especiais e casam entre si para manter os traços que os diferenciavam daqueles que consideram inferiores, com apenas algumas uniões destoando dessa regra. Gerações e mais gerações de filhos nascidos do incesto entre irmãos e tios e sobrinhas. O suborno à maior igreja do reino para que aceite o incesto e desenvolva a teologia da exceção, onde apenas as pessoas dessa família tem certos direitos por terem sangue puro.

Imaginemos isso na Europa durante o século XX, e imaginemos isso em Game of Thrones.

Muito mais que os livros de Martin, a série de TV da HBO pinta uma das personagens como sendo de uma linhagem pura, materializando o que antes era apenas uma grande mentira da família dominante.

Quando Aerea Targaryen foge no dragão Balerion é encontrada mais de um ano depois com o corpo coberto por bolhas escaldantes e vermes percorrendo a parte interna da pele. Diz-se que até de suas partes íntimas saía uma fumaça escaldante. Preocupados com a mentira de que os Targaryen eram especiais e imunes a doenças, o Rei Jaehaerys escondeu de todos, povo e nobres, sobre a pestilência da menina.

Quando Meereen é assolada pela doença da égua desquarada, que nada mais é que disenteria, Daenerys não fica imune nos livros. Ela passa maus bocados no deserto com diarreia forte e sangramentos.

Mas há, na série, desde a primeira temporada uma linha narrativa que caracteriza Dany como especial, imune à doenças e imune ao fogo. Há, agora, em vias de ser concluída, a teoria de que Dany acordaria novamente dragões de pedra em Dragonstone, lar ancestral de sua família, e só ela poderia fazer isso, mesmo sem o poder do cometa, por ser uma “Targaryen de sangue puro”.

Game of Thrones não é sobre isso, não é sobre apoiar higienismo racial, mas sobre descortinar o preconceito contra culturas diferentes consideradas selvagens, sobre as mentiras da nobreza e sobre o jogo político para se perpetuar no poder custe o que custar. Sobre o mal que os homens fazem, sobre os espólios de sofrimento da guerra que atingem os mais pobres. Sobre dilemas comuns humanos, não sobre humanos especiais.

No mesmo tópico há os que torcem para que Dany passe fogo em Porto Real indiscriminadamente. Isso é genocídio, e não foi isso que Missandei quis dizer quando “Dracarys” foram suas últimas palavras, ela pediu pela morte dos opressores e não dos oprimidos. Essa Missandei com sede de sangue não está na série, ela é invenção de parte da audiência que, assim como os Targaryen, acreditam que existem pessoas melhores que outras e que pobre tem mais é que ser extinto.

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GoT Com Elas | Por que menosprezamos as Sansas?

Um passeio na História, mitologia e Game of Thrones sobre as donzelas subestimadas

Sansa Stark talvez seja a personagem de fantasia mais odiada e subestimada de todos os tempos. Arwen não salvou Frodo nos livros de O Senhor dos Anéis, mas jamais enfrentou tamanho ódio cego como a personagem de Sophie Turner em Game of Thrones. Sansa é um produto de ficção inspirado, entre outras coisas, em uma ideia de Idade Média, mas é possível medir a recepção à ela em posts enfurecidos em redes sociais contemporâneas.

Há uma explicação muito simples para isso: misoginia; e sabemos que argumentos racionais mostrando que o ódio e desprezo por Sansa Stark são um espelho do ódio e desprezo pelas mulheres que se arrastam há séculos, proveniente de uma sociedade dominada por um ideal de força e liderança masculino, pode soar como vitimismo para muitos.

Mas longe de ser uma vítima, Sansa Stark, e as mulheres que ela representa, são sobreviventes e possuem um tipo diferente de força. Nas palavras de Brienne de Tarth para Catelyn Stark, o primeiro modelo de Sansa, “talvez não uma força de batalha, mas uma força feminina”.

Mas quem é Sansa e onde a perdemos ou ignoramos em Game of Thrones para que a tomemos, mesmo nove anos depois, como a ingênua e birrenta garotinha que sonhava em casar com um príncipe encantado e viver seus dias cuidado dos filhos e servindo como ideal para o povo?

Sansa Stark nem sendo abusada despertou empatia

É preciso antes ressaltar que odiar garotinhas que sonham em ser felizes no casamento, em ser mães e inspirarem amor maternal, por si só é errado e sintoma de aversão por características consideradas femininas.

Para entendermos quem é Sansa em um contexto maior, precisamos entender quem é esta personagem no imaginário humano. Ela é apresentada como donzela em perigo, mas ela também é uma deusa que distribuía maçãs sem as quais não existiriam deuses, e a mulher que acabou com a Guerra das Rosas, tomando como base duas das mais recorrentes inspirações para George R.R. Martin escrever as Crônicas de Gelo e Fogo: a mitologia Nórdica e a História e lendas da Inglaterra.

Sansa é a deusa nórdica Iduna

A deusa nórdica da casa dos Aesir Iduna, uma das poucas deidades que sobrevive ao Ragnarok, é sequestrada por Loki (Mindinho) e dada em casamento pra uma águia, que na verdade era o perverso gigante Thiazi (Ramsay).

Iduna já era casada com Bragi, o deus da poesia. Sendo descrita como doce, gentil e boa ela era responsável por renovar a imortalidade dos deuses. Sempre que estes sentiam o peso dos anos batendo, ela lhes dava uma única maçã. “Sem as maçãs de Iduna os deuses mal seriam deuses”, diz Neil Gaiman em sua livro Mitologia Nórdica, reforçando a importância da deusa na permanência dos Aesir no comando de Asgard.

Iduna e as maçãs da imortalidade

Loki engana Iduna a levando para comparar suas maçãs mágicas com supostas maçãs comuns que ele teria encontrado. Quando os deuses dão por falta de Iduna e temem morrer, Loki acaba sendo descoberto e em troca de não ser executado vai atrás da deusa. Encontra ela chorando no cárcere do gigante. Ela acusa o deus trapaceiro de ser a fonte de todos os seus tormentos. Loki termina por resgatar Iduna da prisão onde ele mesmo a colocou..

Iduna é uma das deidades que sobrevive ao Ragnarok, apesar de ser sempre descrita como alguém passivo, tal qual Sansa, e de muito pouco sobre ela ter sido relatado. Na segunda temporada de Game of Thrones Tyrion pontua: “você talvez sobreviva a todos nós, minha Senhora de Stark”. As semelhanças com Sansa e sua relação com Mindinho e o casamento com Ramsay também são enormes.

Sansa é Elizabeth of York

Elizabeth de York era a filha mais velha de Eduardo IV e Elizabeth Woodville. Reza a lenda que ela foi a inspiração para a ilustração da Rainha de Copas nas cartas de baralho e que teria tido um caso romântico/sexual com seu tio Richard III.

Segundo a biógrafa Nancy Lenz Harvey, Elizabeth desde o nascimento foi tomada como uma princesa para ser casada com alguém e cimentar alianças políticas para a casa de seu pai, os York. Suas opções de casamento flutuavam como flutuavam as alianças que Eduardo IV ia fazendo durante a Guerra para se manter no trono.

Elizabeth de York jovem e depois de casada usando um colar Tudor

Nos anos finais das Guerras das Rosas o poder havia sido tomado por seu tio, Ricardo III e o peso de barganha por casamento da princesa estava limitado.

A roda da fortuna girou novamente em seu “favor” quando Henry Tudor, um nobre galês pretendente ao trono da Inglaterra pelo ramo materno dos York, venceu a batalha contra Richard III e tomou o trono unificando as rosas e restaurando a paz.

Elizabeth foi parte essencial para que os Tudor consolidassem seu poder, sem ela, uma Tudor de linhagem masculina e filha do antigo rei os nobres poderiam vacilar em apoiar Henry VII. Foi também responsável em grande parte pela negociação do casamento entre a princesa de Isabel de Aragão com Arthur, o príncipe de Gales, uma união que seguraria o apoio da Espanha às causas inglesas.

Sansa Stark deliberadamente se parece com Elizabeth de York

Até fisicamente a personagem da Sansa Stark se parece com a descrição e retratos de Elizabeth de York, descrita como tendo longos cabelos ruivos ou loiro-ruivos; além disso, a Casa Stark recebeu este nome por ser semelhante à York, enquanto so Lannister seriam so Lancaster, a outra facção das Rosas. Elizabeth era a chave para a Inglaterra como Sansa era a chave para o Norte.

Sansa Stark em Game of Thrones

A Sansa dos livros é odiada, a da série de TV é a sua herdeira, mesmo que o desenvolvimento das duas tenha diferenças muito importantes até agora. É possível mostrar temporada por temporada como a personagem tem sido subestimada dentro e fora da série, como se um surto de ignorância coletiva tivesse sido espalhado através do chiado da HBO.

Odiamos em Sansa tudo que é feminino, e tudo nela o é. Amamos em Arya e Brienne tudo que nelas que é masculino. Para as mulheres que lutam com espadas, um símbolo de poder fálico masculino, como ‘elegantemente’ sublinhado por Walder Frey no Casamento Vermelho. Elas parecem fortes, obstinadas, corajosas, homens de saia.

Brienne, o corpo híbrido

Um ótimo contraponto é Cersei Lannister, que também personifica a imagem da Rainha perfeita, seus longos cabelos dourados, seus vestidos carmesim, seu amor pelos filhos mesmo quando um deles é um psicopata. Para ser amada é preciso ser perfeita, porém fria, amar os filhos e sofrer não por você, mas por eles.

Mas Cersei é também a extensão de Jaime, seu complemento masculino, ela chega a dizer que só se sente completa quando penetrada pelo irmão. Ela passa a usar roupas como as de Tywin, seu pai, ela diz a ele que é seu “filho”, o filho que ouvia as lições, e se recente em ter sido vendida em casamento à um homem que não amava.

A mulher para ser amada pelo público tem que ser um objeto lasciva, pecadora e sublinhar seu complemento masculino. O momento de maior glória de Cersei foi explodir do Septo de Baelor, cometendo genocídio, extirpando toda a nobreza e clero de Porto Real.

Cersei Lannister, a pecadora sem escrúpulos

Catelyn Stark é a personificação da mater dolorosa. Gostamos e simpatizamos com ela por sua dor pelos filhos e pelo marido. Catelyn Stark se torna a Senhora Coração de Pedra nos livros, arrebatando amor dos leitores que não a admiravam apenas enquanto mãe. Para ser amada é preciso se despir de toda a humanidade, se tornar um demônio vingativo e deformado.

Cat Stark, a mater dolorosa

Daeneys Targaryen, por sua vez, é amada por seu caráter mítico, mágico. Ela vem de uma linhagem de pessoas excepcionais, descendente do Conquistador, nasceu em meio à uma tempestade, quebra correntes, não se queima, ela choca ovos em piras funerárias e doma dragões. Ela executa sumariamente seus adversários. A mulher só é amada quando é mítica e inacessível.

Daenerys, a mulher mítica e inacessível

Sansa é apresentada como inocente, doce, sonhadora, mas também mimada. Mas há que se questionar se quando ela mente sobre a briga entre Arya e Mycar não foi uma jogada que lhe garantiu seguir com o que queria? Não recompensamos mulheres mentirosas?

Quando Joffrey leva Sansa para ver a cabeça de seu pai na estaca a reação da ainda inocente garota é pensar, e quase conseguir, empurrar Joffrey da ponte que liga a Fortaleza de Maegor à Fortaleza Vermelha.

Quando questionada por Tyrion se queria voltar para casa após ser despida e espancada na sala do trono ela responde “Porto Real é minha casa”, ao que o homem mais inteligente dos Sete Reinos responde “você talvez sobreviva a todos nós”.

Quando oferecida aliança com o maior enganador do continente ela se agarra com unhas e dentes. Quando precisa sobreviver aos senhores do Vale após ser cúmplice no assassinato da própria tia ela mente sem piscar.

Quando se liberta de Ramsay ela confronta Mindinho sobre sua conivência com todo o sofrimento que lhe foi infligido. Quando percebe que Jon não a ouviu sobre os preparativos para a Batalha dos Bastardos ela chama os cavaleiros do Vale e mais tarde lembra a todos que “Jon perdeu a Batalha dos Bastardos” quem ganhou foi ela. Sansa dá Ramsay de comer para seus próprios cachorros como vingança.

Sansa, a chave para o Norte

Sansa usa Mindinho para continuar com o apoio dos Senhores do Vale até que encontra uma oportunidade de se livrar de suas investidas de uma vez por todas. Ela coloca Arya para o executar após servir como juíza e acusadora dos crimes de Petyr Baelish.

E seguimos a odiando muito em razão de estarmos constantemente sendo expostos ao meme “você está estragando tudo”, mas em grande parte pela forma como fomos apresentados à personagem. Mas o principal de tudo é a forma como Sansa segue se apresentando.

Sansa fingiu, mentiu, matou, tramou, ganhou batalhas, mas seguiu se portando como sempre se portou: como uma Lady. Ela é fiel aos que a ajudam, elas não os humilha, ela ama sua família como um todo, ela suporta o desdém de Jon Snow, a desconfiança de Arya e a bizarrice de Bran. Ela segue como a Senhora de Winterfell, feminina e altiva, mas bondosa e por isso mesmo submestimada. Ela é hoje a personagem mais bem preparada para governar, ela recolhe suprimentos e se atenta a detalhes como forro de placas de peito, mas ainda é odiada.

Lyanna Mormont não é muito diferente da Sansa de hoje. Ela teve que aprender mais rápido, estava segura em casa, tomou toda a Ilha dos Ursos nas mãos, mas ainda assim é subestimada no Salão de Winterfell. Os senhores sorriem quando ela começa a falar por ser ainda uma criança e, que Deus tenha piedade, ser menina.  Jon sorri sempre que Lyanna abre a boca, assim como não dá ouvidos à irmã e não reconhece sua inteligência.

Olenna Tyrell, a idosa sábia

Olenna Tyrell, por sua vez, é a Sansa idosa, e é quase impossível achar alguém que não goste dela. Olenna era uma princesa, foi dada em casamento arranjado, é mãe e avó, cuidou do legado Tyrell, mas tem a língua afiada que os anos e a experiência lhe trouxeram, assim como os anos, ainda que poucos, e a experiência, ainda que sofrida, ensinaram à Sansa questionar na cara de Jon se ele dobrou o joelho por amor ao Norte ou por amor à Dany.

Então por que não podemos gostar de Sansa? A resposta está na imagem e no imaginário do feminino, da mulher inocente, passiva e sonhadora, mesmo que seja, no fundo, detentora de um enorme poder. Sansa padece do mesmo fim que Elizabeth de York, que nunca é lembrada como peça essencial para que um reino destruído encontrasse paz e aliados, ou Iduna jamais creditada como real fonte de poder dos deuses através de suas maçãs especiais.

Elizabeth sobreviveu às Guerras das Rosas, como Sansa sobreviveu ao Conflito dos Cinco Reis, mas ainda nos falta saber se sobreviverá à Batalha da Aurora como Iduna sobreviveu ao Ragnarok.

A única forma de Sansa ser amada seria, então, se transformar em uma de suas companheiras de série: perder a sanidade, a humanidade, ser desfigurada, empunhar uma espada… Nem mesmo os sucessivos estupros e espancamentos serviram para abrandar os corações, porque no fundo somos um pouco como Joffrey e Ramsay, gostamos de apreciar um rostinho bonito e gostamos de odiar quem o tem.

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‘His Dark Materials’ ganha relevância com o pecado da Igreja

Saga destoa de seus pares ao confrontar o autoritarismo da Fé

Uma das mais repetidas anedotas da cultura pop é a de que Philip Pullman escreveu sua trilogia de aventura épica His Dark Materials (As Fronteiras do Universo) como uma provocação, ou resposta, às Crônicas de Nárnia, de C. S Lewis.

Pode ter sido, não há como negar que se em uma o poder celeste é a música que dá origem às coisas enquanto crianças lutam bravamente ao lado do Leão de Judá, na outra a Igreja e um anjo buscam controlar o cosmos com mão de ferro suprimindo todo direito de livre pensamento e práticas científicas consideras heréticas.

Mas para além da fé de seu compatriota, Pullman escreveu uma alegoria sobre o poder terrestre da Igreja (seja ela qual for) sobre as pessoas. Como bem aponta Andrew Liptak, do The Verge, As Fronteiras do Universo destoa das sagas mais recentes de histórias para jovens adultos, em se tratando de luta contra o autoritarismo, quando coloca a figura da Igreja, da Fé e, claro, do Deus da tradição judaico-cristã como esse assento de poder a ser derrubado.

Uma adaptação da saga já feita para o cinema deixou de lado apenas isso, o nervo central da trama do britânico, ao distanciar o Magisterium da Autoridade, da Igreja, por uma pressão de comunidades tradicionais cristãs nos Estados Unidos e no Reino Unido. Amargando em crítica e bilheteria, o que seria uma franquia cinematográfica jamais viu a luz do dia novamente.

BBC – Reprodução

Agora a empreitada da BBC e da HBO (que entra como produtora na segunda temporada) trará para a TV a saga de Lyra Belacqua contra o Magisterium, pontualmente em meio à uma litania de escândalos de violência sexual dentro da Igreja Católica e de várias congregações protestantes evangélicas por todo o Ocidente.

Enquanto inocentes sangram nas garras de padres e pastores que nada tem de santos, uma menina de 12 anos corre para impedir que seus amigos tenham a alma separada do corpo em um experimento traumático da Igreja com crianças, pelo menos na TV.

É pesaroso o quão relevante a obra de Philip Pullman se torna com o passar o tempo e com o aumento do escrutínio sobre os pecados em solo sagrado. Não é atoa que sua trilogia figura na lista dos 100 livros mais banidos nos Estados Unidos, segundo a The American Library Association, entre 2000 e 2009, junto com Harry Potter, por exemplo. Se serve de aviso, leia enquanto não é proibido no Brasil.

Tayna Abreu – Site Volts

His Dark Materials, a série de TV, ganhou, aliás, o seu primeiro teaser neste domingo, mostrando Dafne Keen como a protagonista Lyra, James McAvoy como seu tio Lord Asriel, Ruth Wilson como a Senhora Coulter, Lin-Manuel Miranda como o aeronalta Lee Scoresby e Clarke Peters como Dr Carne.

No teaser é possível ver um dos principais artifícios da história, o aletiômetro, enquanto outro igualmente importante ficou estranhamente de fora: não há um dæmon sequer nas imagens, o que só pode significar que os efeitos especiais não ficaram prontos, uma vez que seria impossível Lyra sem o seu Pam ou Coulter sem o macaco dourado.

His Dark Materials estreia ainda este ano, com oito episódios cobrindo o primeiro livro da trilogia, A Bússola de Ouro. Os demais volumes, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar servirão para as próximas temporadas, assim como os outros contos do autor no mesmo universo.

Não há, ainda, planos para inserção na adaptação televisiva do material da nova trilogia da mesma saga, The Book of Dust, cujo primeiro volume, La Belle Sauvage, foi publicado em 2018.

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