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‘Hannah inspira vontade de cuidar e lamento’, diz psicóloga

Ao lado da desumana brincadeira da Baleia Azul, a série 13 Reasons Why, da Netflix, tem despertado, para o bem ou para o mal, o diálogo sobre o suicídio de adolescentes. Enquanto o jogo sem sombra de dúvidas serve apenas como um mecanismo de autodestruição, a série tem levantado dois lados opostos na conversa: aqueles que a vêem como um manual de instruções para adolescentes se matarem, e os que vêem nela um relato duro mas realista do sofrimento de jovens que, no fim da linha, resolvem tirar a própria vida.

Para muitos, o suicídio é visto sob um olhar religioso de tabu, uma forma de aproximação de forças malignas, para outros, uma falta do que fazer. Mas o que diz a ciência? Adolescentes são mesmo pessoas mais influenciáveis? O que está por traz da atração por um desafio que pode ser mortal?

Como explica a especialista Artenira Silva, pós doutora em psicologia e pesquisadora em saúde pública, a suposta maior influência sobre os adolescentes é real, uma vez que que crianças são mais sugestionáveis por pessoas com quem mantenham maior vínculo afetivo e adolescentes buscam espelhos ou modelos predominantemente fora do ambiente doméstico, por estarem sedimentando sua identidade”. Mas, como ela ressalta, o ser humano como um todo é sugestionável, “em todas as suas etapas de desenvolvimento, em maior ou menor grau”.

Dra. Artenira Silva/Arquivo Pessoal

Na série, uma menina chamada Hanna deixa 13 fitas gravadas contando as razões que a levaram à tomar a decisão de findar a própria vida. O espectador acompanha por 13 episódios os amigos, pais e tutores serem apresentados, alguns omissos, outros ativamente crueis com a jovem.

Hannah, segundo alguns críticos da produção é mostrada como heroína, como alguém empoderada após a morte. Para outros, é uma menina como muitas, amigas de escola de tantas outras, que sofre vários abusos físicos e psicológicos até que chega ao ponto de não suportar mais estar viva. Mas de que lado está a verdade, questionou inclusive a Netflix em suas campanhas promocionais.

Para a doutora Artenira, antes de mais nada é preciso questionar o que todas as situações apresentadas, que contribuíram para o suicídio da personagem, e por extensão dos jogadores, possuem em comum.

“Todas as situações a remetem a contextos de humilhação, desvalorização, sofrimento, crueldade, ridicularizarão, menosprezo… Enfim, a prevenção doméstica e escolar no que diz respeito a evitar ideações suicida-se em adolescentes é cultivar valores de inclusão, valorização, solidariedade, atenção genuína e escuta ativa. O ser humano precisa de afeto e atenção para sua sobrevivência tanto quanto precisa do ar, de água e de alimentação”, apontou a especialista.

Para Artenira, as afirmações de empoderamento, de romantização não podem ser feitas de forma tão simples. “Observe o completo contrassenso de rotular de modo simplista situações de máxima complexidade. Não é possível afirmar que o suicidar-me tem ou não poder, é ou não corajoso, é ou não covarde. São rótulos cruéis e preconceituosos. O que é fato é que o suicida é alguém que se encontra em sofrimento extremo e portanto, no mínimo, requer respeito e ajuda profissional”, explicou.

A doutora explicou ainda que, “a personagem não inspira a vontade de imitá- la, salvo se a pessoa estiver vivenciando sofrimento semelhante, mas inspira vontade de cuidar, inspira lamento”. Para ela, a conversa sobre o jogo e sobre a série não deve ser pelo viés de crítica pura aos personagens, mas pelo contexto social e de saúde que levantam. Para ela, a mídia sobre o jogo, os casos e a série deveriam servir para que as pessoas procurassem oferecer ajuda à quem precisa.

“Um ponto que me chama a atenção na discussão das pessoas é que focam na crítica aos jogadores ou à personagem da série com expressões de desprezo ou raiva, quando deveriam, em um contexto de saúde mental, sentirem o impulso para ajudar, acolher, apoiar, rever seus próprios comportamentos no cotidiano”, disse.

O jogo da baleia azul e a série 13 resons why deixam um convite para uma auto avaliação sincera e profunda: eu critico mais que elogio? Sinto prazer em difamar alguém? Acolho e ouço aqueles que digo amar quando precisam de atenção? Tenho tempo para tomar um café com um amigo que precisa de atenção? Eu, de fato, favoreço à vontade de viver ou reforço a desmotivação pela vida daqueles com quem convivo? Muitos seres ditos humanos criticam, excluem, difamam, agridem, atacam e julgam seus semelhantes muito mais do que acolhem, apoiam, valorizam, elogiam e incluem. Este é o terreno fértil para o sucesso de jogos como a baleia azul”, finalizou.

13 Reasons Why teve sua segunda temporada confirmada pela Netflix e o showrunner Brian Yorker afirmou que a personagem Hannah Baker continuará a série.

 

Matéria publicada originalmente em O Imparcial, em 21 de abril de 2017