Há algo muito grave em como Hollywood lida com serial killers

Há algo muito grave em como Hollywood lida com serial killers

O texto a seguir contém spoilers de Once Upon a Time in Hollywood e Mindhunter

Segundo o historiador canadense Peter Vronsky uma explosão de assassinatos meticulosamente planejados e repetidos em serie, os cometidos pelos serial killers, ocorrem como uma das reações a mudanças sociais e econômicas significativas em um país, além da superexposição desses criminosos em mídias de massa, o que geraria admiração em outras pessoas e estas, por sua vez, se tornariam também assassinas em série.

Vronsky teoriza, por exemplo, que o aumento alarmante desse tipo de crime na América do Norte nos anos 1980 esteja relacionado diretamente com a Segunda Guerra Mundial. Em seu livro Sons of Cain: A History of Serial Killers, ele argumenta que os famosos assassinos do final do século XX são filhos dos soldados que lutaram a guerra na Europa entre 1939 e 1945.

O historiador ainda diz que houve um aumento desse tipo de crime no pós I Guerra, mas não tão significativo porque não existiam ainda mídias que expusessem as pessoas à romantização da violência. Ele afirma que a cultura pop do pós guerra, com as Pulp Fiction  em destaque (baratas e com muita nudez e violência), teria sido um catalizador para a onda de crimes.

“No centro disso estão o trauma, as famílias destruídas, e então um roteiro de uma fantasia violenta que depois vira realidade para esses homens”, afirma o historiador.

Criminologistas como o também canadense Michael Arntfield afirmam que há base para o que supõe Vronsky já que houve uma “grande desestabilização da sociedade” nas épocas relatadas.

Agora a cultura pop mais uma vez acende o holofote sobre figuras deploráveis, uma delas mais precisamente, Charles Manson, justamente em meio à um rio de sangue escavado pelas armas nas mãos dos terroristas domésticos americanos.

Em Once Upon a Time in Hollywood, de Quentin Tarantino (que estreia no Brasil nesta quinta-feira), acólitos do líder cultista falham em matar a atriz Sharon Tate e são derrotados em uma luta sangrenta – como é do perfil do cineasta – contra o personagem de Brad Pitt.

Já em MindHunter, série da Netflix que conta a criação da divisão do FBI que cuida de casos de assassinato em série, Manson é moeda de barganha com ares de autoridade mítica no trailer da segunda temporada. Ao que tudo indica, o estudo do perfil de Manson será um dos momentos chave da série em seu novo ano.

Há um problema aqui, nos dois casos, e nem é o fato de que Damon Herriman, fez Manson nas duas produções, em uma clara tentativa de afundar a carreira.

Se no primeiro caso, no longa de Tanratino, membros do grupo de assassinos chamado de Família Manson são derrotados em uma reescritura da história – Bastados Inglórios mandou lembranças – que zomba das vítimas na vida real, como se elas tivessem sido fracas em se deixarem matar, no segundo há a recolocação de um véu sobre uma figura execrada na sociedade cujos crimes foram perpetrados utilizando justamente isso, a criação de um mito.

Quero deixar claro que no caso de Mindhunter estamos julgando o trailer, um subproduto da produção, que serve para vender a ideia para o público. O trailer é uma publicidade, mas também é o pedaço de um produto artístico, podendo ser julgado como ambos.

Charles Manson era chefe de um culto no final dos anos 1960, e as mortes que ele e seus acólitos cometeram são creditadas como tendo matado ainda toda uma década de efervescência cultural americana, cujo ultimo suspiro foi dado uma semana depois no festival de Woodstock.

Netflix também foi a responsável por dramatizar a história de Ted Bundy, um outro serial killer, que atuou uma década antes de Manson e foi condenado pelo assassinato de 30 mulheres. Um dos teasers da nova temporada de American Horror Story, do FX, por sua vez, traz um serial killer não identificado correndo trás de uma moça. Aqui se aplica o mesmo princípio usado no trailer de Mindhunter e a já confirmada informação de que 1984 – a nova temporada – tratará de serial killers.

Somando-se 1+1 é possível observar que há ainda uma obsessão com a morte de mulheres nos casos que Hollywood busca dramatizar.

Hollywood acorda este monstro exatamente em um novo período de terror doméstico, desta vez com uma faceta própria: os massacres por arma de fogo perpetrados, em sua maioria, por homens brancos, jovens, inceis e com um profundo desejo de exterminar imigrantes, a quem culpam tanto por uma suposta falta de oportunidade no mercado de trabalho como lugar na cama de mulheres.

Tudo que a América do Norte não precisa é que esses chamados lobos solitários formem uma grande matilha à luz do dia, inspirados por seus heróis mortos em celas de prisões, mas renascidos nas telas da cultura pop.

Não é de hoje que há uma cultura de extermínio enraizada no país mais rico do mundo ocidental, que sob o comando de um extremista branco se tornou o ex-bastião da democracia, uma terra onde o leite e mel dão lugar a lágrimas e sangue.

Para Vronsky, a crise financeira de 2008 faria levantar a nova onda de serial killers, ouso dizer que ela levantou um mal ainda maior, o terror dos homens brancos que agora contam com romantizações minuciosas dos famosos e celebrizados assassinos do fim do século XX.

Qual será a modalidade de crimes que nascerá da romantização dos assassinatos em massa? Porque não nos enganemos, ela já está aqui, pergunte aos produtores de The Hunt e The Purge.

Por tudo isso, lembro que Oscar Wilde um dia disse que “nenhum artista é jamais mórbido”, “que nenhum artista tem simpatias éticas” e que “toda arte é bastante inútil”, infelizmente tenho que discordar.

Há limites no trato de temas sensíveis quando se quer reescrever a história usando a ficção. Matar Hitler, em um plano elaborado por uma sobrevivente de um de seus generais, já não é algo isento de críticas uma vez que abobalha uma das piores figuras da história humana, mas ainda assim é bem diferente de dizer que Sharon Tate só está morta porque seus amigos e ela não souberam dar conta de “hippies”, sendo já o equívoco em chamar a Família Manson de hippies um problema enorme.

Celebrização de um homem como Charles Manson, mesmo depois de morto, é um perigo, uma irresponsabilidade atlântica. O papel que ele exercerá na segunda temporada de Mindhunter ainda é fruto apenas de suposições, mas de antemão digo, usar Manson como uma espécie de consultor, como foi ventilado, uma versão de Hannibal Lecter é não apenas de péssimo gosto, como não tem valor algum para uma série que tenta recontar o importante trabalho do FBI em entender como funcionam serial killers. Os agentes ali deveriam ser célebres, não os criminosos.

Não estou dizendo que essas histórias não devam ser contadas. Parafraseando Oscar Wilde, não existem histórias morais ou imorais, existem apenas as mal e as bem escritas. Em se tratando de assassinos cruéis e sobre os quais já se tem provas de que a celebrização forma outros de mesmo nível, uma abordagem sempre mais crua e que lhe retire a aura de deidades é sempre a melhor forma. Hollywood, por tudo que significa, é essencialmente um lugar onde histórias são contadas, mas nem sempre da melhor forma.

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