Força do Snyder Cut é resultado de crise mal gerida pela Warner

Companhia fez anúncios, criou expectativa e desistiu do DCEU no meio do caminho. Foi quando a fanbase entrou em ação.

Era maio de 2017, quando a substituição de Zack Snyder por Joss Whedon (“Os Vingadores” e “Vingadores: Era de Ultron”) na direção de Liga da Justiça começava a levantar debates entre fãs da DC a respeito da identidade criativa do projeto. Na época com o DCEU marcado pela frieza no tom, coube a Whedon, por pressão da Warner, aproveitar a saída do então mentor do universo DC para tornar a produção mais agradável aos olhos dos público que recebera tão bem o colorido do Universo Cinematográfico Marvel. Literalmente, esses foram momentos antes da desgraça acontecer.

Em 16 de novembro de 2017, entrava em cartaz uma Liga da Justiça bem diferente do que se esperava e não empolgou tanto — mesmo com o alerta que a troca de diretores já tinha ligado. Com a fanbase insatisfeita, logo surgiu o desejo de que a Warner lançasse a versão planejada por originalmente por Zack Snyder, que, diferente do filme exibido, tinha como diferenças:

  • A presença de Darkseid como o grande vilão
  • Cyborg guiaria a trama em busca das Caixas Maternas
  • Superman com uniforma preto, em referência à HQ “A Morte do Superman”
  • Mulher-Maravilha mataria o Lobo da Estepe
  • Participação de novos heróis como Caçador de Marte, Ryan Choi (Eléktron) e, segundo rumores, algum membro da Tropa dos Lanternas
  • Amazonas teriam mais tempo de tela
  • Elenco de apoio de Aquaman e Flash também teriam mais espaço
  • Ganchos no final do filme para linkar com uma trilogia

Passados dois anos e meio da campanha pelo Snyder Cut, a Warner, interessada em bombar o novo serviço de streaming, HBO Max, resolveu aproveitar a repercussão como um “click bait” da plataforma para obter assinantes e aprovou a tão comentada versão do diretor, com estreia previsa já para 2021. A versão, que recebeu um investimento adicional de US$ 30 milhões, por enquanto, não é tratada como um grande lançamento da casa, mas para os fãs trata-se de um verdadeiro marco. Vamos lá.

Ben Affleck agradece aos fãs pela Snyder Cut de Justice League ...

Reparação e riscos futuros

Quando o assunto são os heróis no cinema, tudo depende de como as histórias envelhecem. O que foi bem avaliado logo de cara, tende a virar um grande ícone no futuro. Quem tem uma recepção ruim, não demora muito para ser tratado como um grande lixo. Dentro dessa lógica leviana, os fãs não mentem ao tratar o Snyder Cut como um grande marco. Afinal, dentro dessa novela existe uma mágoa do público com a Warner, pelo fato da companhia ter negado a versão de Snyder aos fãs, por mais questionável que fosse. A liberação soa, então, também como um pedido de desculpas. Uma reparação histórica com o público, talvez.

A violência com que a Warner geriu essa crise em 2017, reforçou tanto o status de Snyder como o grande líder incompreendido do universo DC, quanto desmanchou, de maneira pouco cuidadosa, o laço que a companhia criava com o público que tanto abraçou a tentativa de construção de universo compartilhado, tão desejado desde Homem de Aço (2013).

Há quem diga que o Snyder Cut é um desrespeito com os demais diretores, como Patty Jenkins, David F. Sandberg, Cathy Yan e James Wan, que dificilmente receberiam esse tratamento. Há, ainda, quem diga que isso abre um precedente perigoso na Warner. Diretores insatisfeitos vão querer um Snyder Cut para chamar de seu. De fato. Mas o contexto, nesse caso, também pode apontar uma outra leitura.

This is why the Justice League trailer gives us hope that the ...

Ignorando completamente os bastidores que não temos acesso e tendo na mesa apenas a ideia acima, podemos refutar o argumento lembrando: Zack Snyder, presente há muito mais tempo que os outros, foi desrespeitado publicamente primeiro. Em seguida, a descontinuidade do DCEU só inflamou ainda mais as coisas. Outra decisão apressada de uma gestão de crise cheia de equivocos. E a gente colhe o que planta. A liberação do Snyder Cut, nesse sentido, também pode servir para que a companhia seja menos insensível ao clamor de diretores por liberdade criativa. Já serviu, na verdade.

No ano seguinte, o diretor James Wan gritava para quem quisesse ouvir que teve toda liberdade do mundo para criar Aquaman. “É muito louco. Com um filme tão grande quanto Aquaman, eu tive o máximo de liberdade possível. Eu tive à minha disposição todas as ferramentas e orçamento para pintar em uma tela enorme”, disse ao The New York Times, em 2018.

A própria Patty Jenkins, de Mulher-Maravilha, já comemorou o fato de poder criar um universo próprio para a personagem. “Acho que foi essa independência que contribuiu com o sucesso de Coringa, Aquaman e Mulher-Maravilha. Apesar de todos serem adaptações da DC, eles não se relacionam em nada e foi por isso que deram certo”, disse a diretora para a revista Total Film, em 2020.

Claro que em entrevistas de divulgação os diretores não reclamarão dos patrões, mas, como dizem, onde há fumaça, há fogo. De 2017 até a liberação do Snyder Cut, então, temos, independente das intenções de ambos os lados, o fechamento de um parêntese importante na história da DC nos cinemas. Talvez, a maior preocupação seja do Snyder Cut para frente. Se a fanbase barulhenta, aparentemente, tornou a versão do diretor uma realidade, imagina se ela cai no gosto popular… Espero que Matt Reeves e Robert Pattinson estejam preparados.

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