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Especial The Witcher | Entendendo o universo de Geralt de Rívia nos livros

Foto: Divulgação/Netflix

The Witcher, a nova série de Fantasy da Netflix, adaptará os livros que deram origem à famosa franquia de videogames com o mesmo nome, o que tem causado confusão nos fãs que conhecem Geralt de Rívia, Yennefer e Ciri apenas pelo console e não pelas páginas de Andrzej Sapkowski.

Para os desavisados, o trailer liberado durante a San Diego Comic-Con e as fotos oficiais alguns dias antes deixaram tudo ainda pior. Mas o Volts está aqui pra ajudar os fãs dos jogos e quem está chegando apenas para ver Henry Cavill em sua volta à TV após anos vivendo o Superman no cinema.

Contos e romances

Para começar, é preciso entender a ordem de publicação na Polônia, terra natal de Sapkowski, dos primeiros contos de The Witcher, que por lá se chama Wiedźmin. A saga começou a ser publicada de forma seriada, com os contos aparecendo na revista polonesa Fantastyka, especializada em Fantasy e SciFi, nos anos 1980. O primeiro conto se chamou Wiedźmin, o equivalente em polonês ao masculino de bruxa, bruxo.

Miecz Przeznaczenia (A Espada do Destino) foi o primeiro volume a reunir os contos, em 1992; seguiu-se de Ostatnie życzenie (O Último Desejo) em 1993. É preciso notar que os contos publicados nesta segunda coleção se passam em um tempo anterior aos da primeira coleção.

A saga se expandiu com os romances, publicados na Polônia entre 1994 e 1999: Krew elfów (Sangue dos Elfos), Czas pogardy (Tempo de Desprezo), Chrzest ognia (Batismo de Fogo), Wieża Jaskółki (A Torre da Andorinha) e Pani Jeziora (A Senhora do Lago).

Aqui no Brasil os livros foram publicados pela Martins Fontes, com tradução direta do polonês (e não do inglês) feita por Tomasz Barcinski. Para ajudar o leitor, os livros estão ordenados seguindo a cronologia da narrativa e sem a diferenciação de contos e romances, começando com O Último Desejo (2011) e encerrando com A Senhora do Lago (2017), este dividido em duas partes.

Este ano foi publicado o prelúdio, Tempo de Tempestade, cuja história se passa entre os contos de O Último Desejo.

O Mundo do Bruxo

Com sua narrativa situada no nicho das fantasias épicas, o mundo do Bruxo é um continente sem nome, povoado primeiro por gnomos e anões, mais tarde colonizado por elfos, depois invadido por humanos. Houve guerras entre esses povos conforme as invasões iam se sucedendo, com os anões se recolhendo nas montanhas e deixando que os elfos povoassem vales e florestas.

Quando da chegada dos humanos, 500 anos antes dos acontecimentos narrados na saga, mais guerras aconteceram e os homens dominaram a terra, massacrando e quase levando os elfos à extinção. Entre as raças que habitam este mundo há ainda metadílios (hobbits), dríades (espíritos das florestas). Os elfos se recolheram ao seu universo paralelo para sobreviver.

Após um evento cósmico/mágico de enormes proporções o mundo foi invadido por monstros, dos mais conhecidos como vampiros e lobisomens, até suas sub-espécies e outros, como leshys, lâmias, ondinas, carpideiras, estriges, quiquimoras…O evento é conhecido como Conjunção das Esferas.

Para combater esses monstros foi criada, através de engenharia genética, magia e treinamento, uma classe de guerreiros chamados de Bruxos, ordem à qual pertence o protagonista Geralt de Rívia. Eles detém força sobre-humana e conseguem canalizar magia através de sinais desenhados no ar. Há ainda feiticeiros e bruxas, mais parecidos com a ideia comum que se tem de um mago, como Merlin, e de uma bruxa, uma sacerdotiza que manipule energia mágica.

Politicamente falando, a parte sul do continente é quase toda dominada pelo Império de Nifgaard, e a norte está fragmentada nos Reinos do Norte. Como toda boa história de fantasia, as duas potências começam a travar uma segunda grande guerra quando a saga de Sapkowski se inicia.

Contos de Fadas

Uma característica inusitada nas histórias curtas é a presença dos contos de fadas conhecidos do nosso mundo, como Rapunzel, Bela Adormecida, A Bela e a Fera e Branca de Neve e os Sete Anões, mas todos com versões expandidas, mais sombrias, e que em muito se diferenciam da difundida no mundo real.

Todas elas, com excessão da Bela e a Fera, estão ligadas por uma conspiração de magos/feiticeiros que raptaram princesas para evitar que uma maldição ocorresse no mundo. Se conta que boa parte delas foi presa em torres de magos, e daí se iniciaram as invasões de torres por príncipes e cavaleiros para resgatar essas jovens.

Carniceiro de Blaviken

Branca de Neve, por outro lado, está intimamente ligada com uma das alcunhas mais problemáticas do protagonista Geralt, Carniceiro de Blaviken. Ele massacrou os capangas da princesa, reunidos por ela após ser largada na floresta como parte do impedimento da profecia dos magos e da inveja de sua madrastra que, com um filho mais novo que a princesa, quis tirar a princesa de cena após a morte do rei.

Branca de Neve se chama Renfri, aparece no conto O Mal Menor, e tem em seu serviço o bando de anões e um meio-elfo. É também chamada de picança, por ter o costume de empalar suas vítimas.

Na cidade de Blaviken, Geralt combate o grupo e mata a todos, protegendo habitantes e o mago local, Stregobor, responsável por todos os infortúnios da vida da princesa. O Bruxo passa a ser conhecido como o Carniceiro por aqueles que não sabiam o que os mortos no combate planejavam.

Sem mapa

A Saga do Bruxo é talvez uma das únicas obras de fantasia épica sem um mapa do mundo em que se passa. Pelo menos nenhum oficial. O que se tem ideia, na verdade, é a clássica Europa medieval germana e eslava, dada a história ter nascido na Polônia.

A versão quase oficial do continente é a criada pelo tradutor tcheco Stanislav Komárek, onde estão destacadas as quatro grandes divisões do continente. A Sul, com o Império Nilfgaard; o Norte com os reinos de Aedirn, Cidaris, Cintra, Aliança de Hengfors, Kaedwen, Kerack, Kovir e Poviss, Lyria e Rívia, Redânia, Teméria e Verden, além de ducados e principados como os de Bremervoord e Ellander; no Leste estão Korath, Zerrikânia, Hakland e as Montanhas do Fier; há ainda países do Oeste, Zangwebar, Ofir, Hannu e Barsa.

Uma língua fictícia, porém, não foi esquecida por Andrzej Sapkowski, criando a sua Linguagem Ancestral, onde ele usou inglês, francês, galês, irlandês e latim para compor a base. Os nomes de pessoas com forte influência do irlandês são talvez os mais ressonantes. Há até mesmo um rei Bran na história, um eco claro das lendas irlandesas e do ciclo arturiano.