Especial Senhor dos Anéis | A Queda de Númenor

Especial Senhor dos Anéis | A Queda de Númenor

Esta e a segunda parte de um especial sobre a história da Terra Média que será contada na série do Prime . Para ler a primeira, clique AQUI.

Conforme prometido, na segunda entrada deste especial vamos falar sobre a ascensão e queda dos homens de Númenor, os que ainda resistiam à tentação do Senhor do Escuro, mas que também vacilaram a um custo muito alto.

Os Homens do Oeste, habitantes da ilha de Númenor, são de extrema importância na escalada de poder do maia Sauron e, muitos séculos depois um de seus descendentes, Aragorn, será peça fundamental na sua destruição completa. A ascensão e queda desses homens é contada no Silmarillion, o Antigo Testamento de J.R.R. Tolkien, que (provavelmente) servirá de base para a série do Amazon Prime, Lord of the Rings.

Quando se pensa em um dos temas centrais de Silmarillion, aliás, afora a repetição de Tolkien de que homens são falhos e facilmente corruptíveis, é possível delinear sua crítica à tirania, materializada nas figuras dos Senhores do Escuro. Seres medíocres, invejosos e gananciosos, déspotas com uma obsessão em serem adorados.

Silmarillion, em grande parte, é um tratado sobre autoritarismo e sobre o perigo de todo um mundo esquecer seu passado e não ficar de olhos abertos para lobos em pele de cordeiro.

Toda a última parte do livro, copilado por Christopher Tolkien usando os papéis que o pai não conseguiu finalizar em vida, trata do Pós Grande Guerra, quando o vácuo de poder nas forças do mal, deixado pela derrubada de Morgoth, e a falta de atenção de Elfos, Anões e Homens (de ambas as linhagens) permitiu que um segundo Senhor do Escuro se levantasse em Arda, uma figura já conhecida por seus séculos de serviços prestados como braço direito do antigo ditador.

Vamos agora entender o fado dos numenorianos, um povo escolhido e amado pelos Valar, que se deixou corromper com a mancha de Sauron e recebeu a ira de ninguém menos que Eru Illuvatar, o Deus Supremo do universo.

A Ilha do Ponente

Aqueles que são chamados de Homens do Oeste, viviam em uma ilha chamada Númenor, que significa “Ponente”, “Terra Ocidental”. Númenor foi a “a grande ilha preparada pelos Valar como morada para os edain após o final da Primeira Era”. Edain são os primeiros homens a nascer em Arda, antepassados dos númenor.

Os nomes extras que Tolkien deu a Númenor dão uma ideia clara do que ele estava visualizando como uma civilização praticamente utópica. Ele a chamou, entre outros nomes, de Elenna quando ainda firme, e de Atalantë, após sua queda. Podemos perceber um ideal de helenismo e também um destino trágico como o guardado para a mitológica Atlântida, que ficava, veja só, no Oeste referencial dos Gregos Antigos.

Os Homens do Oeste

Ora, haviam em Arda duas linhagens humanas, ou mesmo três, se considerarmos os Hobbits como um braço humano. Os Reis de Númenor, especialmente, descendem do amor mais poderoso que Tolkien compôs, entre o humano Beren e a elfa Lúthien. É contado no capítulo 17 do Silmarillion que descendem de Elwing, a neta de Beren e Lúthien.

Elwing teve com o marido Eärendil dois filhos, Elrond e e Elros, a esses foi pedido que escolhessem andar entre os elfos ou os homens. Elrond (ele mesmo) escolheu congregar com os primeiros filhos e Elros com os segundos. Elros se tornou o primeiro Rei de Númenor sob o nome de Tar-Minyatur. É assim que esses homens conseguem viver muito mais anos que os outros, por conta de seu sangue de elfo.

Portanto, Arwin e Aragorn são como primos, com a diferença que ele está afastado umas dezenas de gerações. Se seu amor não apareceu, ele pode nem ter nascido ainda, princesa!

Da Queda dos Numenorianos

Quando Sauron abre guerra contra homens e elfos durante a Segunda Era por conta dos Anéis de Poder e do Um Anel, ele percebe que suas forças não seriam suficientes para tomar o poder sem um estratagema. É baixada uma trégua, pois “tão imensos eram o poder e o esplendor dos númenorianos no apogeu de seu reinado, que os servos de Sauron não se dispuseram a lhes oferecer resistência” (uma prova de que minions são barulhentos, mas não aguentam a pressão).

“Esperando realizar pela astúcia o que não havia conseguido pela força”, Sauron se faz de doido e se entrega para o rei Ar-Pharazôn ou Tar-Calion (faraó demais, só que otário). Ele fica de boas em Númenor, dando uma de conselheiro, muito parecido com que Gríma ‘Língua de Cobra’ faria séculos depois com Théoden, rei de Rohan.

Não teve um Gandalf para aparecer e exorcizar os númenorianos, então eles, sob influência de Sauron, entraram em guerra contra os Valar, os deuses. Al-Pharaôn passou nove anos reunindo sua Grande Armada. Sentou em seu trono e rumou para os mares proibidos do Oeste, para as terras dos Deuses. Diz-se que ao chegar na costa de Valinor, o Rei temeu e quase deu ordem de retirada, mas seu orgulho falou mais alto e ele teve a audácia de proclamar que a cidade de Tirion era sua.

Desta vez os Valar chamaram a Eru, o Deus Supremo da mitologia de Tolkien. Tão bravo ficou Eru, que tornou o mundo redondo e fez as águas engolirem a ilha de Númenor. Os humanos não deveriam jamais navegar para Valinor novamente. Séculos mais tarde apenas uns poucos como Bilbo, um Hobbit, puderam fazer a travessia para descansar nas terras imortais.

Essa é uma das passagens mais tristes do Legendarium, pois com os homens corruptos também foi destruída toda uma civilização dita brilhante. Para os fãs de Martin, é o equivalente à Perdição de Valyria. Mas Tolkien, assim como no Antigo Testamento, usou da água para destruir a soberba dos homens.

Os Sobreviventes

Mas se o mar afundou Númenor, como Aragorn existe? Bom, nem todos os númenorianos morreram, alguns foram salvos da destruição de sua terra ancestral. Seu líder era Elendil, parente do rei caído – uma versão de Noé – que levou os fiéis em naus – aos trancos e barrancos – até as terras de Lindon, sendo acolhido pelo rei Gil-galad, último rei dos Noldor (o segundo clã de elfos).

Os filhos de Elendil, Isilur e Anárion fundaram o reino do Sul, Gondor, enquanto ele governou sobre o Reino do Norte, Arnor. Isuldor é o responsável pela muda da Árvore Branca foi replantada em Minas Arnor, mais tarde chamada Minas Tirith.

É Isildur que corta o dedo de Sauron no prólogo de O Senhor dos Anéis narrado por Galadriel no cinema, durante a – vejamos – segunda, ou terceira, depende de como você conta isso – Guerra do Anel. Mais tarde ele se torna afetado pelo poder do Um Anel. É dele a espada que Aragorn relutava em reforjar e é por conta da história da perdição de Númenor que ele parecia sempre com um peso nas costas.

Tudo isso, esperamos, será dramatizado na série do Prime Video, que, segundo Tom Shippey, consultor da série e acadêmico de Tolkien, terá 20 episódios em sua primeira temporada. Bom, assunto não falta.

Fonte: TOLKIEN, JRR. O Silmarillion. Org. Christopher Tolkien. Trad. Waldéa Barcellos. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

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