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Artigo

Dramas interativos e o futuro da narrativa

Imersivo e revolucionário, o novo formato pode ganhar ainda mais espaço entre os meios de comunicação.

Foto: Divulgação/Square Enix

Consegue imaginar uma história que está inteiramente em suas mãos? Onde os desdobramentos da trama, o destino dos personagens e desfechos ficam sob sua responsabilidade?

Caso não, imaginem a seguinte situação: Após um longo dia de trabalho, você senta-se no seu confortável sofá, ao lado de seu carinhoso e folgado gato. Ligando a TV, você decide analisar o catálogo da Netflix e após 55 minutos procurando aquele filme (quem nunca?), você escolhe um sobre apocalipse de zumbis.

Após frequentes cenas de ação e suspense, chega um momento em que a protagonista do longa, Sue, corre para um estacionamento repleto de zumbis. A sua melhor amiga, que está próxima dela, de repente cai e tenta, em seguida, levantar em desespero. Portanto, ela é pega por uma das aberrações e imediatamente mordida no braço. Desesperada pelo ocorrido, Sue corre até a amiga, mas o zumbi não a larga. Com um machado em mãos, a protagonista deve decidir o que fazer para ajudá-la. Sem pensar muito, Sue encontra três saídas: fugir e deixar a sua amiga para trás; cortar o braço dela, o que pode, posteriormente, precaver a transformação e a morte da garota; ou matar o zumbi para que ambas corram e fujam, com o ferimento da mordida sendo um problema para ser resolvido posteriormente.

Estando confortáveis no sofá de casa, nós apenas esperaríamos ansiosamente pelo desfecho da cena. Mas, caso de repente, a cena fosse congelada e uma mensagem surgisse na tela pedindo para VOCÊ decidir o que fazer. O que você faria?

Uma escolha difícil, certo? Mas deveras impactante.

O que faz desta experiência tão singular é o seu fator interativo, que transforma o telespectador em uma espécie de coautor da trama. Dessa forma, ele é capaz de intervir em seus desfechos e, consequentemente, nos personagens que o integram. No caso acima, o telespectador definiria o destino da melhor amiga de Sue, de acordo com a sua decisão tomada.

Caso desconheça, uma situação similar ocorre em The Walking Dead: Season 2. Todo o peso dessa escolha é transferido para o jogador, que deve lidar com a situação rapidamente para encarar, adiante, as árduas consequências de seus atos.

O jogo The Walking Dead, da Telltale Games, é caraterizado por ser uma trama construída continuamente pelos jogadores por meio de escolhas e consequências. 

DRAMAS INTERATIVOS EM JOGOS DIGITAIS

Com o exemplo acima, é notável como os jogos são um dos meios eficazes para construírem narrativas neste formato. Aqui, a interatividade é um recurso comum entre todos os gêneros (FPS, Ação, Terror, etc), mas é manifestada com mais sofisticação naqueles que são essencialmente focados na narrativa, como os jogos de RPG e Dramas Interativos.

Nesses últimos, os jogadores possuem uma liberdade maior de intervenção sobre os desdobramentos do enredo, acontecimentos e eventos gerados em um ambiente digital. Ao contrário do cinema e da literatura, em que seus caminhos se direcionam a um final único, os jogos possibilitam uma gama de possibilidades e variantes, que podem ou não divergirem em graus rasos ou elevados, como cenas, diálogos, diferentes destino de personagens secundários e finais diversificados.

As decisões dos jogos variam entre questões simples e complexas. 

Em outras palavras, a narrativa interativa trata-se um espaço navegável, na qual o jogador transita quase que livremente. Isto graças ao seu caráter não linear, que acarreta em uma gama de possibilidades e escolhas dentro dos jogos digitais, o que contribui para uma experiência rica, imersiva e, que acima de tudo, consegue integrar o espectador com a trama.

E o principal efeito desses atos é a construção de um enredo singular e exclusivo para cada um que interaja com ele.

NARRATIVAS INTERATIVAS EM OUTRAS MÍDIAS

Os jogos de drama interativo reúnem características de tudo àquilo que integram o cinema, a TV, os quadrinhos, a literatura, a música e até a conversa. Por isso são mais suscetíveis a modelarem esse formato de narrativa entre os seus produtos.

Contudo, nada impede que outros meios de comunicação invistam na interatividade para suas narrativas. A Netflix, por exemplo, já visualizou este potencial e criou as Histórias Interativas, que também oferece aos espectadores a responsabilidade sobre a trama e os seus personagens.

Apesar do programa ser destinado ao público infantil, isso não o impediu de abrir ainda mais as portas para o gênero e o surgimento de novas possibilidades de narratividade no meio televisivo.

Em Histórias Interativas acompanhamos a jornada do popular Gato de Botas. 

Após o seu lançamento, a Netflix revelou que daria continuidade nas produções deste gênero, porém, explorando, dessa vez, o público adulto.

Dito e feito.

Hoje (01/10) foi anunciado que Black Mirror, uma das séries originais da companhia, possuirá um episódio inteiramente interativo em sua quinta temporada, prevista para o final do ano. Ainda não há informações sobre o projeto e como será efetuado essa interação, mas pode-se esperar que os moldes do gênero interativo permaneçam. Além disso, um enredo emblemático, polêmico e conturbado, como a série continuamente propõe, é esperado.

Isto torna a adesão deste formato ainda mais interessante para Black Mirror, visto a sua proposta em explorar as consequências de tecnologias futuras na sociedade. Quem sabe a narrativa propriamente dita não seja pauta no episódio?

Dando sequência, além dos casos referentes a Netflix, a Sony anunciou a produção de Erica, um filme interativo que será lançado exclusivamente no Playlink, um dos serviços oferecidos para o Playstation 4.

Em sua trama, encontraremos a jovem de mesmo nome, que deve lidar com uma experiência traumática do passado que ainda a assombra. A sua vida fica ainda mais agitada, quando um antigo amigo da família faz contato e diz acreditar que as memórias de Erica são a chave para identificar um assassino.

Neste contexto, junto de Erica, iremos trilhar a sua trama, decidir as suas principais ações, em quem confiar e o que fazer com o caso em mãos. As nossas decisões irão ditar o rumo da narrativa e consequentemente o destino da protagonista.

Segundo a Sony, a intenção em prosseguir com este formato é explorar as nuances de uma performance em live-action, que será decisiva para as escolhas dos espectadores. Através delas,  será possível notar os mínimos e sutis detalhes em gestos e articulações o que nos levará a interpretação de mentiras e verdades, que podem ou não estarem sendo ditas. Assim, a atuação e a nossa percepção acima delas, será primordial para a construção da trama de Erica.

VANTAGENS E DESVANTAGENS

Apesar de sutil, é notável que há um crescente investimento nesse segmento narrativo. Aliás, as vantagens e qualidades dessa modalidade são muitas.

Nos dramas interativos, os espectadores são expostos a uma experiência mais vívida, na qual são capazes de interagir com outros personagens e até simpatizar com os mesmos. Sem contar que são suscetíveis a criarem laços com o ambiente e a própria trama do jogo. Além disso, com esses elementos imersivos, os espectadores são estimulados com uma sensação de pertencimento neste ambiente virtual, o que, consequentemente, torna a experiência narrativa mais pessoal e emotiva, pois como um ser componente dessa história ele também anseia por descobrir onde as suas ações, interações e intervenções o levarão.

Por outro lado, há algumas adversidades. Na perspectiva de produção, deve-se preocupar com a criação e a gravação de diferentes cenas para cada situação; construir diálogos convincentes e condizentes para cada uma delas; e gerenciar um enredo que se desdobra em múltiplos desfechos e que, mesmo que apresente uma pluralidade de eventos, não possua furos no roteiro, ao mesmo tempo que seja capaz de exteriorizar todas as informações primordiais aos telespectadores.

Para exemplificar, o jogo interativo Detroit: Become Human possui um roteiro com mais de 2 mil páginas, que necessitou de 250 atores interpretarem 513 papéis diferentes para ser contemplado. Tudo isso em cerca de 74 mil animações únicas, gravadas em 324 dias, em meio aos 4 anos de produção.

Detroit: Become Human é um jogo de narrativa interativa produzido pela Quantic Dream. 

Ou seja, trata-se de um formato de produção que requer um gerenciamento e detalhamento de roteiro e produção mais cauteloso, o que consequentemente eleva os custos da produção.

São termos que pesarão na balança nas construções dessas histórias. Mas vale salientar o seu caráter inovador e revolucionário paras as mídias atuais. Aliás, é um formato que muda a forma como nós consumimos a narrativa, que sempre esteve presente na história da humanidade.

Com isso em mente, você considera que a narrativa interativa o próximo passo das histórias que nos rodeiam? Ou apenas uma alternativa para os mais famintos de uma narrativa imersiva? Já experimentou jogar ou assistir algum dos exemplos citados? Conte-nos!

 

 

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