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Histórias interativas e o futuro da narrativa

Imersivo e revolucionário, o novo formato pode ganhar ainda mais espaço entre os meios de comunicação.

Foto: Divulgação/Square Enix

Consegue imaginar uma história que está inteiramente em suas mãos? Onde os desdobramentos da trama, o destino dos personagens e desfechos ficam sob sua responsabilidade?

Caso não, imaginem a seguinte situação: Após um longo dia de trabalho, você senta-se no seu confortável sofá, ao lado de seu carinhoso e folgado gato. Ligando a TV, você decide analisar o catálogo da Netflix e após 55 minutos procurando aquele filme (quem nunca?), você escolhe um sobre apocalipse de zumbis.

Após frequentes cenas de ação e suspense, chega um momento em que a protagonista do longa, Sue, corre para um estacionamento repleto de zumbis. A sua melhor amiga, que está próxima dela, de repente cai e tenta, em seguida, levantar em desespero. Portanto, ela é pega por uma das aberrações e imediatamente mordida no braço. Desesperada pelo ocorrido, Sue corre até a amiga, mas o zumbi não a larga. Com um machado em mãos, a protagonista deve decidir o que fazer para ajudá-la. Sem pensar muito, Sue encontra três saídas: fugir e deixar a sua amiga para trás; cortar o braço dela, o que pode, posteriormente, precaver a transformação e a morte da garota; ou matar o zumbi para que ambas corram e fujam, com o ferimento da mordida sendo um problema para ser resolvido posteriormente.

Estando confortáveis no sofá de casa, nós apenas esperaríamos ansiosamente pelo desfecho da cena. Mas, caso de repente, a cena fosse congelada e uma mensagem surgisse na tela pedindo para VOCÊ decidir o que fazer. O que você faria?

Uma escolha difícil, certo? Mas deveras impactante.

O que faz desta experiência tão singular é o seu fator interativo, que transforma o telespectador em uma espécie de coautor da trama. Dessa forma, ele é capaz de intervir em seus desfechos e, consequentemente, nos personagens que o integram. No caso acima, o telespectador definiria o destino da melhor amiga de Sue, de acordo com a sua decisão tomada.

Caso desconheça, uma situação similar ocorre em The Walking Dead: Season 2. Todo o peso dessa escolha é transferido para o jogador, que deve lidar com a situação rapidamente para encarar, adiante, as árduas consequências de seus atos.

O jogo The Walking Dead, da Telltale Games, é caraterizado por ser uma trama construída continuamente pelos jogadores por meio de escolhas e consequências. 

DRAMAS INTERATIVOS EM JOGOS DIGITAIS

Com o exemplo acima, é notável como os jogos são um dos meios eficazes para construírem narrativas neste formato. Aqui, a interatividade é um recurso comum entre todos os gêneros (FPS, Ação, Terror, etc), mas é manifestada com mais sofisticação naqueles que são essencialmente focados na narrativa, como os jogos de RPG e Dramas Interativos.

Nesses últimos, os jogadores possuem uma liberdade maior de intervenção sobre os desdobramentos do enredo, acontecimentos e eventos gerados em um ambiente digital. Ao contrário do cinema e da literatura, em que seus caminhos comumente se direcionam a um final único, os jogos possibilitam uma gama de possibilidades e variantes, que podem ou não divergirem em graus rasos ou elevados, como cenas, diálogos, diferentes destino de personagens secundários e finais diversificados.

As decisões dos jogos variam entre questões simples e complexas. 

Em outras palavras, a narrativa interativa trata-se um espaço navegável, na qual o jogador transita quase que livremente. Isto graças ao seu caráter não linear, que acarreta em uma gama de possibilidades e escolhas dentro dos jogos digitais, o que contribui para uma experiência rica, imersiva e, que acima de tudo, consegue integrar o espectador com a trama.

E o principal efeito desses atos é a construção de um enredo singular e exclusivo para cada um que interaja com ele.

NARRATIVAS INTERATIVAS EM OUTRAS MÍDIAS

Os jogos de drama interativo reúnem características de tudo àquilo que integram o cinema, a TV, os quadrinhos, a literatura, a música e até a conversa. Por isso são mais suscetíveis a modelarem esse formato de narrativa entre os seus produtos.

Contudo, nada impede que outros meios de comunicação invistam na interatividade para suas narrativas. A Netflix, por exemplo, já visualizou este potencial e criou as Histórias Interativas, que também oferece aos espectadores a responsabilidade sobre a trama e os seus personagens.

Apesar do programa ser destinado ao público infantil, isso não o impediu de abrir ainda mais as portas para o gênero e o surgimento de novas possibilidades de narratividade no meio televisivo.

Em Histórias Interativas acompanhamos a jornada do popular Gato de Botas. 

Após o seu lançamento, a Netflix revelou que daria continuidade nas produções deste gênero, porém, explorando, dessa vez, o público adulto.

Dito e feito.

Em outubro foi divulgado que Black Mirror, uma das séries originais da companhia, possuiria um episódio inteiramente interativo em sua quinta temporada. Segundo o jornal Independent, o diretor David Slade filmou cinco horas de cenas para que o espectador possa decidir e encarar as diferentes rotas ao longo da trama.

Isto torna a adesão deste formato ainda mais interessante para a série, visto a sua proposta em explorar as consequências de tecnologias futuras na sociedade. A narrativa interativa propriamente dita, e a manipulação do usuário envolto das tecnologias, acabam sendo pautas no episódio.

Uma sacada genial Black Mirror!

Mas as coisas não param por aí, além dos casos referentes a Netflix, a Sony anunciou a produção de Erica, um filme interativo que será lançado exclusivamente no Playlink, um dos serviços oferecidos para o Playstation 4.

Em sua trama, encontraremos a jovem de mesmo nome, que deve lidar com uma experiência traumática do passado que ainda a assombra. A sua vida fica ainda mais agitada, quando um antigo amigo da família faz contato e diz acreditar que as memórias de Erica são a chave para identificar um assassino.

Neste contexto, junto de Erica, iremos traçar a sua história, decidir as suas principais ações, em quem confiar e o que fazer com o caso em mãos. As nossas decisões irão ditar o rumo da narrativa e consequentemente o destino da protagonista.

Segundo a Sony, a intenção em prosseguir com este formato é explorar as nuances de uma performance em live-action, que será decisiva para as escolhas dos espectadores. Através delas,  será possível notar os mínimos e sutis detalhes em gestos e articulações o que nos levará a interpretação de mentiras e verdades, que podem ou não estarem sendo ditas. Assim, a atuação e a nossa percepção acima delas, será primordial para a construção da trama de Erica.

VANTAGENS E DESVANTAGENS

Apesar de sutil, é notável que há um crescente investimento nesse segmento narrativo. Aliás, as vantagens e qualidades dessa modalidade são muitas.

Nos dramas interativos, os espectadores são expostos a uma experiência mais vívida, na qual são capazes de interagir com outros personagens e até simpatizar com os mesmos. Sem contar que são suscetíveis a criarem laços com o ambiente e a própria trama do jogo. Além disso, com esses elementos imersivos, os espectadores são estimulados com uma sensação de pertencimento neste ambiente virtual, o que, consequentemente, torna a experiência narrativa mais pessoal e emotiva. Aliás, como um ser componente dessa história ele também anseia por descobrir onde as suas ações, interações e intervenções o levarão.

Por outro lado, há algumas adversidades. Na perspectiva de produção, deve-se preocupar com a criação e a gravação de diferentes cenas para cada situação; construir diálogos convincentes e condizentes para cada uma delas; e gerenciar um enredo que se desdobra em múltiplos desfechos e que, mesmo que apresente uma pluralidade de eventos, não possua furos de roteiro, ao mesmo tempo que seja capaz de exteriorizar todas as informações primordiais aos telespectadores.

Para exemplificar, o jogo de drama interativo Detroit: Become Human possui um roteiro com mais de 2 mil páginas, que necessitou de 250 atores interpretarem 513 papéis diferentes para ser contemplado. Tudo isso em cerca de 74 mil animações únicas, gravadas em 324 dias, em meio aos 4 anos de produção. (Quase nada, tsc)

Detroit: Become Human é um jogo de narrativa interativa produzido pela Quantic Dream. 

Ou seja, trata-se de um formato de produção que requer um gerenciamento e detalhamento de roteiro e produção mais cauteloso, o que consequentemente eleva os custos da produção.

São termos que pesarão na balança nas construções dessas histórias. Mas vale salientar o seu caráter inovador e revolucionário paras as mídias atuais. Aliás, é um formato que muda a forma como nós consumimos a narrativa, que sempre esteve presente na história da humanidade.

Com isso em mente, você considera que a narrativa interativa o próximo passo das histórias que nos rodeiam? Ou apenas uma alternativa para os mais famintos de uma narrativa imersiva? Já experimentou jogar ou assistir algum dos exemplos citados? Conte-nos!

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Por que ninguém mais leva a sério os jogos multiplayer de Resident Evil?

A história da franquia pode ajudar a responder essa pergunta.

Foto: Divulgação/Capcom

Resident Evil é uma das principais marcas da Capcom, se não a principal. Os primeiros jogos da franquia, além de serem sucessos de críticas e vendas, entregaram personagens memoráveis e um universo rico e distinto. Tendo essa riqueza em mãos, era de se esperar que a Capcom buscasse novas formas de explorar a saga. Não tardou e derivados começaram a surgir. Uns interessantes. Outros nem tanto.

Inicialmente, a visão da empresa condizia com o intuito natural dos spin-offs: expandir um universo com novos formatos e gêneros. E uma das primeiras experimentações de Resident Evil foi Dead Aim, lançado em 2003. O jogo nos apresentou um novo protagonista, ao mesmo tempo que apresentava o primeiro game com visão de primeira pessoa da safa e um dos poucos jogos da franquia que permite que o personagem ande e atire ao mesmo tempo. Além disso, o enredo explorava um pouco as consequências dos eventos de Raccoon City e o paradeiro da Umbrella.

Apesar de não ser exatamente um jogo memorável como o Resident Evil 2 ou Resident Evil 3: Nemesis, é evidente que o Dead Aim cumpre o seu papel como derivado. O título alimenta o universo, sem interferir nos trilhos da saga principal.

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O mesmo pode-se falar de Outbreak, o primeiro jogo multiplayer de Resident Evil, também lançado em 2003. Com 8 personagens, jogo nos apresentava uma nova perspectiva do caos de Raccoon City. Aqui, a cooperação com os demais jogadores é essencial para a sobrevivência e a progressão da história. Um arquétipo não muito comum para os jogos da época, ainda mais em um período que o co-op online ainda não era tão popular e de fácil acesso.

Após ser reconhecido com boas vendas, o jogo ganhou uma sequência, lançada um ano depois, com melhorias e novas opções de jogabilidade. Infelizmente, o segundo não foi tão rentável quanto o primeiro.

Anos mais tarde, em 2007 e 2009, a desenvolvedora decidiu revisitar alguns eventos da franquia com dois novos derivados: Resident Evil: The Umbrella Chronicles e Resident Evil: The Darkside Chronicles. Os jogos também apresentavam multiplayer, em uma perspectiva de primeira pessoa, enquanto davam mais detalhes das histórias revisitadas. Alguns eventos inéditos também foram adicionados para expandir a lore da franquia. Apesar de serem exclusivos do Wii, os títulos, juntos venderem aproximadamente 2.35 milhões de cópias. Em suma, mais dois cases de sucesso.

O último passo “bem” sucedido da Capcom no caminho do multiplayer foi Resident Evil: The Mercenaries. O derivado, lançado para o Nintendo 3DS em 2011, abusava do 3D e expandia o popular modo Mercenários da franquia, que era inicialmente um modo extra de Resident Evil 3. Com diversos personagens clássicos, como Chris Redfield, Claire Redfield, Jill Valentine e Albert Wesker, jogo nos colocava em um simples, mas efetivo jogo de ação, onde o objetivo era conquistar a maior pontuação possível na partida.

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Infelizmente, a partir daqui as coisas começaram a dar errado para os spin-offs multiplayer da franquia.

Sem a grande visão que possuía anteriormente, como nos casos anteriores, Capcom lançou o Operation Raccoon City em 2012. Talvez com o objetivo de obter lucro fácil, a companhia tenha decidido fazer algo voltado para a grande massa de shooters, bem simplório, sem muitas alegorias ou inovações. Por um lado deu certo, visto que o jogo vendeu aproximadamente 2.5 milhões de cópias. Por outro, o título foi bombardeado de críticas negativas pela imprensa e pelos fãs.

Entre esses dois lados, a desenvolvedora decidiu dá atenção ao que mais importava para si: as vendas. E fruto dessa decisão, nasceu o péssimo Umbrella Corps. O título, lançado em 2016, foi vendido à base da nostalgia, oferecendo diversos mapas clássicos da franquia, como a vila de Resident Evil 4 e a base da Antártida de Code Veronica. Também fornecia pequenas dicas da nova fase da história da franquia, mas eram tão desinteressantes que ninguém se importava. No fim, o jogo passou batido, não vendeu bem e foi logo esquecido pelos fãs, pela mídia e pela própria Capcom.

E, então, chegamos à 2019. Em agosto, a companhia surpreendeu a todos com um teaser de um novo jogo, até então chamado Project Resistance. O vídeo não oferecia muitos detalhes, o que fez os fãs especularem que tratava-se do Outbreak 3. Aliás, além de ser querido pelos fãs, o auge dos jogos online seria uma bela oportunidade da empresa voltar a investir em um jogo tão singular e único. Certo? Errado.

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Em 9 de setembro, foi revelado que o projeto é apenas mais um derivado, inédito, sem rostos conhecidos (com exceção dos inimigos), desvinculado de qualquer outro jogo anterior. Suas mecânicas são essencialmente colaborativas e funcionam de maneira similar à Friday 13th The Game e Dead By Deadlight, mas possuindo propriedades únicas, vindas da própria franquia. Contudo, apesar disso, apesar de não investir mais na ação frenética de Umbrella Corps e Operation, o público não comprou a ideia.

Por quê? Os cases acima ajudam a explicar.

Como visto, existe uma demanda, sim, para spin-offs multiplayer, tanto para os fãs da franquia, como para a indústria atual, que cada vez mais consome jogos do gênero. Contudo, os passos em falsos de Resident Evil ainda são recentes, os traumas ainda estão frescos. Os investimentos pesados na ação deixaram os fãs amargurados. Além disso, os incessantes gritos desse público pelas redes sociais deixam claro que eles desejam algo muito mais expansivo e criativo, como a Capcom fazia inicialmente, principalmente com o Outbreak, que aliava história inédita, personagens novos e uma mecânica cooperativa de sobrevivência, que abusava do raciocínio lógico e do bom racionamento dos recursos.

Também devemos atentar ao fato de que já existem muitos spin-offs do gênero dentro da franquia, o que pode ter saturado a ideia, possivelmente. Além do mais, há uma grande expectativa, por parte dos fãs, de um novo remake, de um terceiro Revelations (outro spin-off da franquia) e de uma sequência de Resident Evil 7. Em outras palavras, há um forte anseio de ver a lore da franquia ser expandida criativamente e personagens esquecidos retornando.

Dito isso, a companhia precisa de mais de um jogo simples de colaboração para conquistar os fãs. Por isso, talvez o Outbreak 3 fosse bem mais aceito. Ele não sofreria com o impacto da saturação e poderia apresentar novos detalhes do universo de Resident Evil. Mas se a Capcom deseja persistir na ação, um novo Mercenaries também não cairia mal pela sua popularidade e por poder reunir clássicos rostos da franquia em um mesmo jogo.

O que vocês acham?

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Artigo Otaku

Artigo Otaku |O que esperar de Saint Seiya (Parte 01)

Você está jogando o mobile game Saint Seiya Awakening: Knights of the Zodiac? Bom, se você é fã da franquia merece dar uma chance ao jogo apenas para experimentar um passatempo com bom design de personagens, cut scenes e trilha sonora referente à animação clássica de 1986.

Como pode ter percebido, eu estou jogando. Recém chegado ao Brasil tanto para Android quanto iOS, o mobile RPG reúne elementos da história principal com a jogabilidade do gênero de forma a proporcionar uma boa relação com o jogador.

Recentemente também a Netflix Brasil inseriu em seu catálogo a aclamada Saga de Hades completa com seus três capítulos (Santuário, Inferno e Elísios) realimentando o hype para a chegada da versão clássica e seus 114 episódios, que deveria ter ocorrido em agosto, mas já foi confirmado para 15 de outubro próximo. Isso sem falar do reboot feito pela própria Netflix que deve ter a segunda parte da primeira temporada disponibilizada até o final do ano (segundo rumores).

Tudo isso acaba que construindo um debate acerca da relevância de Saint Seiya para a indústria de entretenimento e perguntas sobre o que ainda se pode esperar.

(Teaser de pré-registro do mobile game Saint Seiya: Awakening)

Uma franquia tão longeva quanto essa certamente tem pontos fortes e fracos dividindo a opinião do público. Para Saint Seiya isso é muito notório quando se fala na composição desse público, que conta com fãs na média dos 40 e 30 anos (os mais antigos) e outros com 20 a 10 anos (incluindo os mais recentes). Ainda nessa composição há aqueles que se encaixam no fandom otaku e há aqueles que não se consideram/fazem parte deste nicho.

Assim, temos quem considere Saint Seiya – que por aqui ficou conhecido como Os Cavaleiros do Zodíaco – algo que chega ao ponto de ser tosco devido a problemas no roteiro, psicologia das personagens, estética de traços etc. Temos também quem tome a trama como uma obra-prima da mídia mangá/quadrinhos e que isso se repete em seus desdobramentos midiáticos.

Reconheço (correndo o risco de ter minha carteirinha de otaku confiscada) que faço parte do segundo grupo e amo a obra com muita paixão. Só que (em minha defesa) sou crítico o suficiente para observar o quão deficiente é a narrativa criada por Masami Kurumada em 1985 (data do mangá original). É nesse raciocínio que entramos na seara a respeito do que esperar. Antes recapitulemos o que já feito.

Em 3DCG, Knights of the Zodiac é o reboot mais recente que a franquia recebeu. (Fonte: Netflix)

Os desdobramentos de Saint Seiya e o público

Desde 2008, quando do lançamento da última parte do OVA (Original Video Animation) da Saga de Hades, os fãs se perguntavam qual seria o destino da franquia. Já existiam possibilidades. Em 2004, o longa-metragem Prólogo do Céu abriu as porteiras para uma possível batalha contra os Olimpianos. Desenvolvido a partir dos rascunhos do que viria a se tornar dois anos depois na prequel-sequel do mangá original denominada “Next Dimension”, o filme quase colocou em risco a conclusão da Saga de Hades, que só rolou quatro anos depois com qualidade inferior ao que havia sido feito nos seus treze primeiros episódios (Capítulo – Santuário).

O que se sabe é que o resultado final do filme não teria agradado algumas pessoas – entre elas o próprio Masami Kurumada -, mas a mensagem que ficou era de que para a Toei Animation já não havia mais prioridade para a franquia no estúdio, o que seria algo natural dado o passar do tempo. Saint Seiya era bem sucedido, mas nunca foi o maior campeão de vendas na indústria (num contexto local e mundial com exceções como França, Brasil e México, por exemplo).

Entre os fãs, muito se especulou que o Episode G pudesse ganhar sua versão em animê. Spin-off publicado desde 2002 (em 20 volumes no momento), o mangá desenhado por Megumi Okada tem traço destoante demais do que havia feito Masami Kurumada e Shingo Araki (na versão animê) com a história principal.

Arte com os design andrógino de Saint Seiya: Episode G e os Cavaleiros de Ouro do séc. XX. Narrativa mais densa e proposta de traço alternativo cativa os fãs, mas nunca foi adaptada em outras mídias (Arte: Megumi Okada / Revista Champion Red Ichigo)

Mesmo não virando animê, o Episode G tornou-se um material muito particular aos fãs mais aficionados pelos Cavaleiros de Ouro e rendeu mais duas publicações: Episode G- Volume 0: Aiolos, uma prequel; e Episode G ~Assassin~, que é uma sequel alternativa aos eventos do mangá original pós-Hades. Esse último foi iniciado em 2014 e terminou recentemente em agosto de 2019 confirmando o retorno de seu antecessor à publicação.

Os fãs dos Cavaleiros de Ouro, que ficarão ainda por algum tempo sem poder ver como ficaria a batalha dos Santos Dourados contra os Doze Titãs, tiveram suas esperanças maltratadas em 2015 quando da estreia do ONA (Original Net Animation) Saint Seiya: Soul of Gold, que veio como um spin-off da Saga de Hades onde os Cavaleiros de Ouro mortos no Muro das Lamentações vão para nas terras gélidas de Asgard (numa clara referência ao emblemático filler Saga de Asgard da série clássica) e combatem as intenções malignas do deus nórdico Loki.

Cena em Soul of Gold que fez a animação alvo de muitas críticas pelo péssimo trabalho de finalização no character design. Abaixo a mesma cena foi refeita em um review do episódio seguinte e traz algumas melhorias, mas ainda deixa desejar. (Fonte: cavzodiaco.com.br)

Embalada pela vontade de vender action figures (bonecos!), a Bandai Tamashii Nations – que detém os direito de imagens da franquia para linha de colecionáveis – lançou em 2014 (durante a CCXP) a linha de action figure com as 12 Armaduras de Ouro em sua forma divina e ainda fez apresentação do primeiro episódio do animê, que seria a peça de publicidade dos bonecos. Sem dúvida uma linha de colecionáveis que mexe com o coração dos mais apaixonados pela franquia.

Já não se pode dizer o mesmo do animê, onde a Toei Animation trouxe uma animação muito aquém do que vinha sendo aplicado nas demais produções da franquia, como é o caso de Saint Seiya: Ômega (falaremos dele na parte 02!). Com design de personagem questionável, erros de proporção e finalização, a série, que poderia ficar para a posteridade como algo memorável, veio a se tornar uma das chacotas do mundo otaku.

Muito outras chacotas ainda existem na franquia, que nesse período apresentou potenciais produtos de sucesso que por alguma razão não deslancham na aceitação do público geral ou do fandom especializado. O que não quer dizer que não haja coisas boas e valor simbólico entre os tantos desmembramentos já realizados e aqueles que poderão vir a existir. Assunto para a segunda parte deste artigo especial.

E você: já sentiu o cosmo?

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Destaque

Relação entre Margaret Atwood e série The Handmaid’s Tale é pura simbiose

Ao ler The Testaments, o novo livro de Margaret Atowood, onde a escritora volta a explorar o regime fundamentalista totalitário protestante de Gilead, após ter visto toda a terceira temporada de The Handmaid’s Tale, série do Hulu que adapta o romance homônimo publicado em 1985, torna-se perceptível que a mão da canadense ainda é tão presente na narrativa derivada já tão distante do original, quanto era na primeira temporada, com cenas retiradas do livro.

Mas Atwood e sua relação com The Handmaid’s Tale é algo de fresco na dança entre romancistas e as dramatizações de seus livros, precisamente quando se trata de ficção especulativa, indo muito além da ocasional participação especial. A escritora da liberdade e se inspira na obra derivada. É um ciclo completo como raras vezes se vê.

Em sua mais recente edição, a revista The Gentlewoman traz uma extensa entrevista com Margaret Atwood, que estampa a capa, onde são abordados inúmeros temas concernentes à vida e carreira da escritora octogenária. Em dois parágrafos há um isight sobre como se dá a relação simbiotica entre criador e criatura: Atwood orientou Bruce Miller,showrunner e principal roteirista de The Handmaid’s Tale, enquanto escrevia seu novo livro, e levou aspectos da série para dentro de seu novo testamento.

Diferente de quando uma obra derivada expande o texto, ou o surpassa, o trabalho foi simultâneo. Mas diferente de escritores mão de ferrro, Miller teve liberdade em explorar as linhas gerais que lhe foram dadas. Pelo menos na maior parte.

O nome de Nicole, segunda filha de June foi uma exigência inegociável de Atwood, assim como também a salvaguarda da vida de alguns personagens, não expecificados na entrevista. “Eu disse que tinha que ser Nicole”, certificou a escritora.

Atwood para The Gentlewoman, por Alasdair McLellan

Das telas, Atwood tomou grande inspiração na performace de Ann Dowd como Aunt Lydia para dar mais profundidade à personagem. É em grande parte pelo excelente trabalho de Dowd como a matriarca das Tias que Lydia ganhou um episódio com seu passado na tv e o poder de narradora em The Testaments. Para os leitores dos dois livros e expectadores da série, é possível perceber exatamente até onde vai a mão de Atwood e onde começa a liberdade de Miller. Um balanço perfeito, mesmo quem não concorda com interferências de autores em projetos derivados, como eu, deve concordar.

“Fui inspirada pela performace de Ann Dowd, que deu à Aunt Lydia mais dimensões que ela tinha no livro original”, contou Atwood. Dowd inclusive foi chamada para reprisar a personaem no  audiobook do novo romance profético. 

The Testaments foi lançado – com toda pompa de um prestigiado romance literário encontrando o frisson de uma saga popular – no último dia 10 de setembro, após um ferrenho esquema de segurança e confidencialidade para manter a surpresa, é um dos favoritos para ganhar o Booker Prize 2019 e já best-seller em todo o mundo.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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