Descortinando o sangue feminino na ficção

Descortinando o sangue feminino na ficção

Ao contrário da crença popular, as mulheres primatas que nascem com útero são uma excessão no hall dos mamíferos que menstruam. Junto conosco apenas algumas elefantas e morcegas.

Todos os meses, mulheres férteis perdem de 30 a 90 mililitros de sangue em períodos que podem variar de 3 a 7 dias. Essas mesmas mulheres, em várias culturas são excluídas da vida social durante os dias em que estão menstruadas. Colocadas em tendas vermelhas, impedidas de participar de rituais religiosos simples como frequentar o templo.

Em outras culturas essas mulheres são obrigadas a testemunhar comerciais de produtos sanitários estrelados por exemplares esguios e vibrantes, andando esvoaçantes em meio ao júbilo de dois dedos se líquido azul despejados em um absorvente. Sempre & Livres.

The Spanish Princess (Starz) – Catarina de Aragão joga tolha absorvente na lareira

Em livros, peças de teatro, vídeo games, filmes e séries de TV o sangue feminino é praticamente inexistente. Quando o é, serve apenas para atestar sua pureza sendo deflorada por um homem, o sangue da mulher servindo para benefício da honra masculina.

Poucas vezes é dado o devido tratamento à uma situação constante na vida das mulheres: sangramentos. A mulher sangra todo mês, a maioria sangra quando tem a primeira relação sexual com penetração e sangra no parto. É muito sangue na vida real pra pouco na imaginada.

The Spanish Princess – Elizabeth de York pari sua última criança

Conte nos dedos quantas vezes, leitor, você se deparou com os sangramentos de mulheres em obras de ficção. Há, claro, sempre a falta dele para anunciar uma gravidez, mas ele é apenas pincelado, quase nunca mostrado, descrito, sentido e a razão disso é que quando homens dominam uma sociedade eles se recusam a reconhecer o sangue que desce por entre as pernas de uma mulher, seja por medo ou nojo.

Aqui queremos apontar um ponto completamente fora da curva: o universo de princesas inglesas do Starz, capitaneado por Emma Frost usando os livros de Philipa Gregory como base.

A mais recente das três, The Spanish Princess, é talvez a que menos se esconde do sangue de suas mulheres. Há sangue em toalhinhas anunciando que Catarina não está grávida, há sangue na cama de parto da rainha Elizabeth de York, há sangue no aborto espontâneo da aia Rosa. Não apenas falado, mas mostrado, sentido, grosso, presente e, por vezes, lúgubre.

The Spanish Princess, que mostra a determinação da jovem Catarina de Aragão em se tornar Rainha da Inglaterra, e suas antecessoras, é um exemplo de histórias de mulheres contadas por mulheres, que usam o sangue delas como afirmação da história que está contando. O aborto de Rosa é contado completamente sob o ponto de vista dela, sua dor, seu sangue, o feto embrulhado e a silenciosa elegia antes do funeral na água.

The Spanish Princess – Rosa sofre aborto espontâneo

Em outro tom, The Handmaid’s Tale, por exemplo, tem a faca e o queijo nas mãos para explorar os ciclos biológicos femininos, mas o faz com timidez impressionante dado o teor da história contada.

Salvo o momento em que June percebe que menstruou e há gotas de sangue em sua calcinha, o que corresponde à vida real de muitas mulheres no começo do período, o parto de Janine é impressionantemente alvo, todo o vermelho da maior parte da cena fica no uniforme das aias. O parto de June sozinha numa casa de campo também chega no “quase”, naquela quantidade mínima de sangue usada para dizer “olha só, tivemos um parto aqui”.

The Handmaid’s Tale – Janine pari na casa dos Putnam

Mas isso não deveria ter que ser assim. Homens e mulheres deveriam poder ter audácia de fazer suas páginas e telas sangrarem quando a história pedir. E se há uma mulher em idade fértil no núcleo principal da sua história, tenha certeza que em algum momento o sangue precisará entrar em cena.

O assunto me chamou atenção ao ler um dos volumes de ficção histórica de Bernard Cornwell, onde uma personagem anda por semanas na floresta de uma região a outra da França durante a Guerra dos Cem Anos e seu sangramento mensal não é nem ao menos citado.

Outlander, a série de TV, se preocupa muito mais em colocar sua cota de estupros e tentativas de estupros por temporada do que com o realismo sobre o sangue das mulheres em cena, não apenas de Claire, a POV de tudo.

Game of Thrones – Lyanna Stark na “cama de sangue”

George R.R. Martin, por exemplo, é um dos poucos escritores homens que lembra que mulheres sangram, mas ele o faz na maioria das vezes sob o véu do tabu e usando eufemismos. Há expressões como “sangue da lua” para menstruação e “cama de sangue” para parto, aceitáveis na história pseudo-medieval que está contando.

Onde ele chega mais perto é quando uma Daenerys está no meio do nada há semanas, defecando sangue e ela já não sabe se está com disenteria ou menstruada & com disenteria, ou quando Sansa Stark, na série Game of Thrones, percebe sua menarca ao acordar pela manhã e realmente há uma quantidade realística de sangue no colchão.

Game of Thrones – Sansa tenta esconder sua menarca

Claro que há inúmeras histórias onde se a mulher menstrua ou não é de pouca importância, histórias modernas de mulheres de classe média alta em suas reuniões de negócios, por exemplo. Ainda que na vida real, mulheres de negócios tem a vida afetada por cólicas e sangramentos.

Ninguém quer ou precisa parar uma reunião pra trocar o absorvente. Mas recentemente, na segunda temporada de Fleabag, Claire, a irmã da protagonista, sofre um aborto espontâneo em um banheiro de restaurante onde TODO o sangue decorrente da perda do feto é parado com toalhas de papel para enxugar as mãos. Ao sentir a dor e se levantar para ir ao banheiro, Claire se levanta da mesa como se nada estivesse acontecendo, limpíssima, e volta da mesma forma.

Fleabag é uma comédia de humor ácido estrelada e escrita por Phoebe Waller-Bridge. No mesmo episódio ela se lembrou de colocar sangue nos narizes quebrados dela e de outro personagem quando trocam socos e cotoveladas. Há mais sangue no nariz quebrado que no aborto. Sobre a cena, Waller-Bridge declarou que “a triste verdade é que há muitos assuntos no mundo sobre os quais não se fala, a maioria deles é sobre experiências de mulheres”. Sim, Phoebe, não poderia concordar mais.

Fleabag – Claire sofrendo um limpíssimo aborto espontâneo

É possível argumentar que pela classificação educativa dos shows muito precisa ser omitido. Mas também é preciso apontar que quando o sangue advindo de narizes quebrados em violência física é mais aceitável que o advindo de uma situação trágica como uma mulher perdendo uma gravidez num banheiro de restaurante, há problemas com a classificação das coisas.

O problema não é sangue, veja só. O sangue derramado em assassinatos, batalhas, crimes, acidentes e o que o valha flui por páginas inteiras, descrições de vísceras caindo de corpos talhados ao meio, até o consumo de sangue humano faz parte de todo um sub-gênero de ficção. Cenas inteiras em que a câmera passeia por corpos ensanguentados, por campos de batalha encharcados, algumas vezes há a poética neve manchada de vermelho.

Não, o que assusta não é o sangue, mas de onde e de quem ele sai. Há até uma piada muito ridícula do repertório popular que diz “mulher é um bicho estranho, sangra todo mês e não morre”. Mas a falta de normalidade sobre o sangue feminino mata sim, mata pela falta de costume, pelo tabu, pela vergonha, por doenças advindas da falta de produtos sanitários para mulheres carentes, em situação de rua ou encarceradas.

Por mais sangue de menstruação e parto nas páginas e nas telas. Precisamos lavar o tabu embora em um jorro vermelho carmim, porque se para alguns sangue só significa morte, para mulheres também significa vida e renovação.

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