Crítica | Yesterday





29/08/2019 - Atualizado às 23:19


Yesterday (Yesterday, 2019) é uma saída muito criativa do diretor Danny Boyle (Quem Quer Ser um Milionário?) de participar da fase musical que o cinemão vem vivendo ultimamente. Em vez de investir no que poderia ser mais uma cinebiografia de astros da música, Boyle promove um exercício de imaginação que busca saber: como seria o mundo se os Beatles nunca tivessem existido? E mais: como seriam os Beatles se eles surgissem hoje? Vai vendo.

Parte da graça dessa viagem é justamente perceber, conhecendo a premissa, como o roteiro vai justificando a não-existência dos garotos de Liverpool neste plano – e pra você que não viu o filme ainda, vamos respeitar sua experiência. O que dá pra saber sem susto é que o protagonista Jack Malik (Himesh Patel) é um músico de estrada que há dez anos peleja por um lugarzinho ao sol sem jamais conseguir agremiar mais que dois ou três pelados em sua plateia. Até que – você vai ver como – ele descobre que as icônicas canções dos Beatles simplesmente existem apenas na mente dele. Daí ao estrelato é coisa de dois tempos.

Enquanto Jack apresenta as composições de Paul e John como se fossem dele, quem assiste ao filme meio que pega um respingo dessa invenção de “novidade” e redescobre a beleza de “Hey Jude”, “Let it Be”, “Yesterday” e mais tantos 14 outros licenciamentos milionários providenciados em nome desta distinta película. Além disso, outro exercício instigante é imaginar como o público atual receberia a obra dos Beatles – é possível que se repita aquele impacto hoje em dia? A sequência do brainstorm no salão da gravadora brinca com essa possibilidade e Boyle investe em algumas citações a “beatlemania” como na cena em que Jack e seu roadie Rocky (Joel Fry, de Game of Thrones, sdds) fogem dos fãs no aeroporto.

A trajetória do músico sonhador virando fenômeno por mérito alheio desperta interesse uma vez que o público tende a querer conhecer o desfecho dessa farsa. Mas corre por fora um romance mal resolvido entre Jack e sua brother de infância e apoiadora desde sempre: Ellie (a queridíssima Lily James, de Mamma Mia e Baby Driver). O problema é que sempre que a retranca surge, a narrativa dá uma brecada – e o que deveria ser um momento ternurinha acaba virando um pequeno atrapalho, como uma criança que estaciona na frente da TV no momento decisivo daquele filme que você tá vendo.

De todo modo, é bem curiosa a maneira como Yesterday aborda a indústria da música, contrastando a criatividade artística com o monstro de 7 cabeças afoito por grana, muito bem simbolizado pela empresária de Ed Sheeran, Debra (Kate McKinnon, de Caça-Fantasmas). O próprio Ed ganha um verniz meio ególatra através de falas ressentidas como “você é Mozart e eu sou Saliere”…. e um detalhe muito sutil: o toque do celular do cara é “Shape of You”.

Embora tão irregular quanto aquele Across The Universe, de 2007, Yesterday é um passeio que vale a pena pela originalidade do argumento e pela oportunidade, sempre bem vinda, de revisitar os clássicos de Paul, John, George e Ringo. É pra sair do Cinema castigando a primeira playlist dos Beatles que encontrar 😉