Crítica | Warcraft





15/06/2016 - Atualizado às 21:35


Nada, ou quase nada, em Warcraft: O primeiro encontro de dois mundos é real. E não estou falando dos seres fantásticos não serem reais, ou de todo o filme ser em Computação Gráfica, mas de uma trama sem sustentação que chega a ser infantil. A introdução do filme, antes dos créditos iniciais, traz de cara outro grande problema de Warcraft: ele nem de longe parece um filme, mas um vídeo game, mídia original da história.

A magia está em tudo, pessoas têm magia e a usam toda hora — pena que não se usou magia para deixar a trama do filme interessante. Warcraft é ingênuo, e, mesmo com seres enormes e uma guerra à espreita, chega a ser doce.

Bom, nunca joguei Word of Warcraft, e isso atrapalha um pouquinho na hora de entender as coisas que estão acontecendo. O contato desde muito tempo com histórias de fantasia, no entanto, me permitiu entender (e mesmo a assimilar) o que não conhecia de cara, mas o mesmo não aconteceria com alguém que nunca tivesse visto, digamos, Senhor dos Anéis, por exemplo. Não entraremos nesse mérito, mas falando em Tolkien, o pai da Fantasia, a história de Warcraft, que, diga-se de passagem é classificado como Alta Fantasia (se passa em um mundo que não a Terra) consegue ser tão ou mais infantil que O Hobbit (o livro).

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Pois bem. A história se desenrola no primeiro encontro de Orcs, criaturas gigantes, dadas à contendas, têm de abandonar o seu mundo, Draenor, que está morrendo, e invadem, através do Portal Negro, o mundo de Azeroth, o mundo dos humanos, que a despeito de voarem em Grifos, nunca viram um Orc.  Anduin Lothar  (Travis Fimmel), cujo nome é uma clara referência ao rio Anduin de Senhor dos Anéis, aquele com os Argonath), general dos humanos, e Durotan (Toby Kebbell), líder dos Orcs, estão em lados opostos e da contenda sairá o destino do povo invasor. Os dois questionam a máxima que para um dos povos ficar bem o outro tem de padecer. O rei dos humanos, Llane, é interpretado por Dominic Cooper, e a rainha Ruth Negga (irmã de Lothar). Há ainda a meio orc meio humana Garona (Paula Patton) que faz a ligação entre os mundos.

Warcraft junta dois tipos clássicos de histórias que Hollywood adora adaptar: fantasia e vídeo game. Se no primeiro pilar a indústria ia muito bem, obrigada, no segundo ela nunca acertou uma bola dentro. Como fantasia, Warcraft é exagerado, é colorido demais, é dicotômico demais. Como vídeo game está ótimo, não parece mesmo um filme, mas um jogo de duas horas que os jogadores não podem tomar decisões.

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O material que o diretor Ducan Jones tenta trabalhar se resume a atores em um enorme fundo verde,  que na pós-produção ganha pinceladas e mais pinceladas, e de um verniz brilhante. O filme não entretém, não faz sonhar. E sonhar é o mínimo que se espera de uma fantasia. Dá náuseas ver tantas cores. A ideia de ser tudo tão colorido não condiz com um mundo que está morrendo. Talvez o mundo dos homens, próspero e cheio de magia (há guardas com runas mágicas tatuadas nos braços). Os personagens não têm nenhuma profundidade, são um guerreiro, um herói, um líder, a cota de uma mulher guerreira.

Podemos apenas agradecer que Travis Fimmel não se ateve ao seu personagem mais famoso, o sanguinário Ragnar Lothbrok da série ‘Vikings’, e nos dá um cara diferente. Ou talvez seja aí que não tenha graça. Em um mundo onde ferozes guerreiros-bestas de dois metros de largura enfrentam homens armados com espadas o que parece impossível acontece: falta sangue.

Talvez seja culpa das Crônicas de Gelo e Fogo, talvez só Tolkien tenha essa liberdade, mas sangue em batalha faz falta. Personagens com camadas fazem falta.