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Críticas

Crítica | Warcraft

Nada, ou quase nada, em Warcraft: O primeiro encontro de dois mundos é real. E não estou falando dos seres fantásticos não serem reais, ou de todo o filme ser em Computação Gráfica, mas de uma trama sem sustentação que chega a ser infantil. A introdução do filme, antes dos créditos iniciais, traz de cara outro grande problema de Warcraft: ele nem de longe parece um filme, mas um vídeo game, mídia original da história.

A magia está em tudo, pessoas têm magia e a usam toda hora — pena que não se usou magia para deixar a trama do filme interessante. Warcraft é ingênuo, e, mesmo com seres enormes e uma guerra à espreita, chega a ser doce.

Bom, nunca joguei Word of Warcraft, e isso atrapalha um pouquinho na hora de entender as coisas que estão acontecendo. O contato desde muito tempo com histórias de fantasia, no entanto, me permitiu entender (e mesmo a assimilar) o que não conhecia de cara, mas o mesmo não aconteceria com alguém que nunca tivesse visto, digamos, Senhor dos Anéis, por exemplo. Não entraremos nesse mérito, mas falando em Tolkien, o pai da Fantasia, a história de Warcraft, que, diga-se de passagem é classificado como Alta Fantasia (se passa em um mundo que não a Terra) consegue ser tão ou mais infantil que O Hobbit (o livro).

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Pois bem. A história se desenrola no primeiro encontro de Orcs, criaturas gigantes, dadas à contendas, têm de abandonar o seu mundo, Draenor, que está morrendo, e invadem, através do Portal Negro, o mundo de Azeroth, o mundo dos humanos, que a despeito de voarem em Grifos, nunca viram um Orc.  Anduin Lothar  (Travis Fimmel), cujo nome é uma clara referência ao rio Anduin de Senhor dos Anéis, aquele com os Argonath), general dos humanos, e Durotan (Toby Kebbell), líder dos Orcs, estão em lados opostos e da contenda sairá o destino do povo invasor. Os dois questionam a máxima que para um dos povos ficar bem o outro tem de padecer. O rei dos humanos, Llane, é interpretado por Dominic Cooper, e a rainha Ruth Negga (irmã de Lothar). Há ainda a meio orc meio humana Garona (Paula Patton) que faz a ligação entre os mundos.

Warcraft junta dois tipos clássicos de histórias que Hollywood adora adaptar: fantasia e vídeo game. Se no primeiro pilar a indústria ia muito bem, obrigada, no segundo ela nunca acertou uma bola dentro. Como fantasia, Warcraft é exagerado, é colorido demais, é dicotômico demais. Como vídeo game está ótimo, não parece mesmo um filme, mas um jogo de duas horas que os jogadores não podem tomar decisões.

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O material que o diretor Ducan Jones tenta trabalhar se resume a atores em um enorme fundo verde,  que na pós-produção ganha pinceladas e mais pinceladas, e de um verniz brilhante. O filme não entretém, não faz sonhar. E sonhar é o mínimo que se espera de uma fantasia. Dá náuseas ver tantas cores. A ideia de ser tudo tão colorido não condiz com um mundo que está morrendo. Talvez o mundo dos homens, próspero e cheio de magia (há guardas com runas mágicas tatuadas nos braços). Os personagens não têm nenhuma profundidade, são um guerreiro, um herói, um líder, a cota de uma mulher guerreira.

Podemos apenas agradecer que Travis Fimmel não se ateve ao seu personagem mais famoso, o sanguinário Ragnar Lothbrok da série ‘Vikings’, e nos dá um cara diferente. Ou talvez seja aí que não tenha graça. Em um mundo onde ferozes guerreiros-bestas de dois metros de largura enfrentam homens armados com espadas o que parece impossível acontece: falta sangue.

Talvez seja culpa das Crônicas de Gelo e Fogo, talvez só Tolkien tenha essa liberdade, mas sangue em batalha faz falta. Personagens com camadas fazem falta.

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5 Comments

5 Comments

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Críticas

Crítica | Democracia em Vertigem

Um documentário sobre lembrança e reavaliação no país da memória-curta

Uma impressão arriscada sobre esse doc: embora Democracia em Vertigem (2019) responda a uma perspectiva igualitária e progressista, não se trata de um documentário “de esquerda”. Dependendo das convicções políticas de quem assiste, ele pode soar como uma ode ao triunfo ou um canto triste de derrota. E é justamente aí que mora a beleza desse trabalho dirigido, roteirizado e narrado pela cineasta Petra Costa e disponível agora na Netflix para mais de 190 países. Vai vendo.

Ao longo de seus 120 minutos, o filme vai desfiando os últimos anos da política brasileira a fim de entender como a nação da cordialidade e da hospitalidade se transformou no irreconciliável Fla x Flu ideológico que não se via há tempos. E a Esplanada dos Ministérios dividida em barricadas na decisão sobre o impeachment de Dilma Rousseff é o quadro que Pedro Américo pintaria nesses tempos loucos.

E tome lá o sinuoso dessa retrospectiva, catalogada com esmero pela montagem que recorre a imagens ainda muito frescas na lembrança dos brasileiros. A cadência dá espaço suficiente a cada evento, respira entre o alvoroço, passeia pelos salões vazios do Palácio da Alvorada numa quase-poesia que permite um tempinho para refletir (o tom de voz de Petra também contribui para esse efeito). E envolve toda essa linha do tempo com um ponto de vista muito particular: a relação pessoal da cineasta com a política e como sua família fez parte desse processo.

Ao misturar as esferas pública e privada na narrativa, Democracia em Vertigem abre o precedente para que o próprio espectador também o faça. E é só lembrar os núcleos familiares que começaram a ruir nas eleições de 2014 e vieram abismo abaixo na última visita às urnas – a identificação é imediata, afinal, em maior ou menor escala, todo mundo viu rachaduras nas paredes de casa.

Além disso, ao arrastar o discurso para a prerrogativa pessoal, Petra Costa evita o veredito, deixando as conclusões para o público. E o material é abundante entre entrevistas e discursos históricos . No país da memória-curta, Democracia em Vertigem surge como um documento poderoso de lembrança e reavaliação. Um tratado que tenta entender as polaridades que, vá lá, sempre existiram. Ao final, o texto aponta para o futuro sem fazer ideia do que vem de lá. Alguém faz?

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Crítica | X-Men: Fênix Negra

Ainda que abordasse um dos arcos mais grandiosos do universo de super-heróis, X-Men: Fênix Negra consegue a proeza de ser superficial.

Um desfecho à altura do carinho que os fãs têm pela franquia X-Men era tudo que o público esperava. Não importa quantos filmes dividam opiniões, sempre houve uma multidão a espera de um impacto de verdade quando o assunto era um novo filme dos mutantes. Logan (2017) até deu esperanças e tudo que X-Men: Fênix Negra não podia fazer era decepcionar. E decepcionou.

Veja bem, toda impressão é relativa. A palavra decepção é forte e nós sabemos, até evito usar, mas em relação a esse arco tão marcante da história dos alunos de Xavier, já tivemos outras experiências bem-sucedidas em animações e quadrinhos. Agora, com todo suporte tecnológico, de mídia e com a Disney na cola, a Fox parecia estar com a faca e o queijo na mão para entregar um filme com uma linha de raciocínio muito mais poderosa.

X-Men: Fênix Negra é ambientado em 1992, os mutantes já eram considerados heróis nacionais e, durante uma missão espacial, Jean Grey (Sophie Turner) é atingida por uma poderosa força cósmica, que acaba absorvida em seu corpo. Após ser resgatada e retornar à Terra, aos poucos ela percebe que há algo bem estranho dentro de si, o que desperta lembranças de um passado sombrio e, também, o interesse de seres extra-terrestres.

A estética e a técnica de efeitos do filme estão impressionantes, questionável, mesmo, só as decisões de Simon Kinberg em – sem querer, acredito – acabar diluindo a força do arco da Fênix em cenas menos intensas do que o pretendido e com a inserção desnecessária de Jessica Chastain no elenco. O drama de Jean Grey não precisava dividir atenção com mais ninguém e tinha potência o suficiente para ser muito mais ameaçadora.

Ao tentar ser original, Kinberg desperdiça o argumento da força cósmica que habita Jean, que nos quadrinhos até funcionou como uma metáfora ao abuso de drogas. O poder Fênix, que se torna parte da intimidade da personagem, faz com que ela perca a noção de poder e acabe machucando todos ao redor. Esse sub-texto não consegue se desenvolver porque há uma alienígena desviando o rumo da trama, reduzindo ao argumento aos traumas da infância de Jean. Xavier, e até Magneto, poderiam ter sido melhor aproveitados neste conflito, visto que ambos lidam com poder, vaidade e raiva.

Essa despedida dos X-Men da Fox, depois de 11 filmes, não foi das piores, claro, mas falhou no objetivo de ser grande e de dar argumentos que dessem sentido proporcional ao surto da protagonista. A partir de agora, o bastão está com a Disney e o futuro dos mutantes a ela pertence. X-Men: Fênix Negra ficará no passado como uma relíquia. Só nos resta esperar.

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Crítica | Toy Story 4

Quase uma década depois, Toy Story retorna e já é avaliado pelo público como o melhor filme da franquia.

Desde Up, Altas Aventuras, a Pixar deve ter uma pessoa por lá cujo cargo seria algo como “editor analista de roteiro especialista em fazer a audiência chorar”. E esse profissional fez um ótimo trabalho em Toy Story 3, Divertidamente, Viva (nesse ele estava muito empenhado) e agora Toy Story 4. Brincadeiras à parte, fato é que a nova animação da franquia de Woody e seus amigos é, talvez, a melhor da série.

É verdade que há o carinho pela surpreendente criatividade do primeiro, a profundidade narrativa do segundo e o sentimentalismo adorável do terceiro. Mas Toy Story 4 alcança uma maturidade diferente, com todos esses elementos dos anteriores e que construíram a força da franquia, somados a recursos técnicos bem impressionantes. A própria reação do público, inclusive, tem demonstrado o quanto o longa é especial. Até agora, Toy Story 4 possui 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e uma surpreendente nota 9,1 no IMBD.

Mas, calma. Mantenha sim as boas expectativas, embora não se esqueça que estamos tratando aqui de uma fórmula já vista outras vezes, ou seja, uma história doce, recheada de bom-humor e com um nível de sensibilidade intenso. Por isso, não espere grandes surpresas e desconstruções maravilhosamente inventivas. Espere por momentos simpáticos e com mensagens contemporâneas valiosas – como o empoderamento feminino, respeito às diferenças e a coragem em aceitar o tempo das coisas, sejam despedidas ou chegadas.

São nove anos desde o último filme da série e, por isso, logo nos créditos iniciais de Toy Story 4 há uma espécie de recorte rápido em retrospectiva para nos lembrar em que momento da história os bonecos estão agora, já que Andy cresceu e doou seus amigos à pequena Bonnie. Ela agora é a dona e quem decide os brinquedos que farão parte da brincadeira e os que ficarão no armário, a um passo do esquecimento. Quando a menina vai para o seu primeiro dia de jardim de infância, Woody se infiltra em sua mochila para ver como ela se sairá.

De volta ao quarto, Woody sai da mochila de Bonnie e apresenta um novo colega: Garfinho – fanfact: o personagem foi desenvolvido por Cláudio de Oliveira, brasileiro que faz parte do time da Pixar. Por não ter conseguido interagir com outras crianças, a menina encontra no lixo uma forma de fazer sua própria brincadeira e constrói um boneco feito de garfo plástico, pés de palito, olhos de boneca e braços de arame. Responsável pelos momentos mais engraçados do filme, Garfinho não entende que é um brinquedo e tampouco enxerga sua importância para a garota como o responsável pela sua fase de adaptação e o impulso para sua potencial criatividade.

Mas Woody sabe e tenta, de todas as formas, fazê-lo compreender os motivos para ficar próximo a Boonie. A aventura começa quando a família vai viajar e Garfinho se atira do motor home para buscar a felicidade em algum lixo, enquanto Woody parte para o salvamento. A situação se complica quando o talher desengonçado se torna refém de uma boneca dos anos 1950 em um antiquário. Quem ajudará a turma na missão é a Betty, cuja aparição é surpreendente e importante. A boneca pastoreira, ex par romântico de Woody, reaparece, alguns anos depois de ter sido doada, como uma personagem feminina forte, empoderada e que toma a frente do plano de resgate.

Em Toy Story 4 os personagens humanos tem participação secundária, assim como nos longas anteriores (exceção ao primeiro filme), mas não funcionam apenas como escadas para o andamento da trama. É a humanidade da pequena Bonnie e o seu desenvolvimento infantil que ajudam a convencer o público e a justificar os objetivos a serem cumpridos por Woody e os demais. Todo o ponto de vista do enredo, porém, se desenrola nas ações e sentimentos dos brinquedos – óbvio – e são tão autênticos, que deixam uma série de produções Hollywoodianas atuais parecendo pequenezas dispensáveis. 

A paixão pela qual o longa foi feito passa também pelo cuidado estético da animação. As luzes, sombras, profundidade (prestem atenção nos takes de câmera quando um boneco está em primeiro plano e olhando à distância para algo, como a cena do salto de Duke Caboom no parque de diversões), expressões e tantos detalhes técnicos são o ápice da perfeição alcançado pela Pixar.

Há, então, quem achará que o desfecho foi criado propositalmente para impactar os corações moles (como o meu), já que o caminho escolhido por um dos personagens (sem spoiler), de certa maneira, contraria uma bela lição que ele próprio usa como lema de vida. Mas, se você não for do tipo crítico chato e problematizador de emoções, prepare o lenço e deixe que o tom de despedida de Toy Story 4 lhe faça derramar umas lagriminhas piegas. Afinal, foi para isso que a Pixar contratou aquele profissional incrível especialista em causar choro em adulto.

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