Crítica | Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha





07/12/2017 - Atualizado às 20:42


Vamos começar o texto divagando: tem alguma coisa nesse Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha (Victoria & Abdul, 2017) que, desde o cartaz, lembra o tom de contos de fada presente nos filmes de Michael Ocelot. Ok, mas a premissa da amizade improvável entre duas pessoas tão diferentes e socialmente distantes é um prato cheio para o Cinema que já rendeu filmes como aquele Conduzindo Miss Daisy (1989) com Jessica Tandy e Morgan Freeman ou Ninguém é Perfeito (1999) com Robert De Niro e Phillip Seymour Hoffman, só pra ficarmos em dois exemplos. Até aí, tudo certo.

O que acontece é que se sabe muito pouco sobre o envolvimento entre a Rainha Victoria (Judi Dench de volta ao papel que já foi seu em Sua Majestade, Mrs. Brown, de 1997) e seu fiel conselheiro indiano, Abdul Karim (Ali Fazal). Quando a soberana, do alto de seus 50 anos de reinado, decide promover Abdul, um mero personagem na suntuosa cerimônia de Jubileu de Ouro, a seu professor particular (munchi) a Corte inteira se sente ultrajada.

E nesse sentido o filme de Stephen Frears é muito eficiente ao desenhar o quadro de isolamento, alta pompa e bajulação em que a rainha se encontrava. Auxiliada por um batalhão de gente até mesmo para se levantar da cama, a mulher mais poderosa do mundo decidia muito pouco em relação a si mesma e encontrava no prazer da comilança uma válvula de escape altamente calórica, mas recompensadora.

Em meio a tanto protocolo, é fácil compreender que o olhar maroto do indiano o tenha feito cair nas graças de D. Victoria. E aí os passeios pelos jardins e altos papos entre os dois faz o roteiro deslizar suave, porque de certa forma despe a figura tão imponente da soberana e a transforma numa senhorinha com a qual qualquer um gostaria de tomar um chá com biscoitinhos. Ao evidenciar o aspecto humano, o filme diminui a escala de personagem histórico a figura comum e o processo de identificação é facilitado – mérito também da competência de Judi Dench que vai da graciosidade às lágrimas, infalível.

Do ponto de vista estético, o banquete visual comum a filmes de época se faz presente. A opulência dos salões do Palácio de Buckingham, o preciosismo dos figurinos, além de lindas tomadas externas, tá tudo lá. Destaque para a sequencia do chá ao ar livre que, interrompido pela tempestade, metaforiza a aparente intransigência da rainha em manter um estranho no ninho, contrariando todos a seu redor.

E justamente quando fala das carregadas camadas políticas que a amizade atropela, o filme recua. A prerrogativa da colonização fica em segundo plano na discussão subentendida entre “civilização” e “barbárie”. O elo de cumplicidade estabelecido entre a “realeza” e a “plebe” joga para baixo do tapete as diferenças todas – a perspectiva do racismo, a exploração, a guerra, tudo vira subtexto. Assim, a partir do olhar contrito e amoroso de Abdul em relação a Rainha, a nefasta lógica da colonização é pormenorizada.

Portanto, Victoria e Abdul, a despeito do arsenal de estereótipos e licenças poéticas (terror dos professores de História) decide manter o foco na doçura e improbabilidade de uma relação de amizade que, por sabermos tão pouco sobre, abre espaço para a imaginação dos realizadores – e para as leves pitadas de fábula que divagamos lá no começo do texto. Não por acaso, o filme termina deixando a história da construção do Taj Mahal no rodapé.