Crítica | Vai que Cola 2 – O Começo





13/09/2019 - Atualizado às 00:01


Uma coisa não dá pra negar: o argumento que justifica a existência de Vai Que Cola 2 – O Começo (2019) é bem melhor que o do filme original de 2015, que era basicamente uma versão superfaturada do mesmíssimo produto exibido no Multishow. Ao longo de suas seis temporadas, o super sucesso televisivo criou várias ‘internas’ sem respostas que aqui o roteiro vai atrás de esclarecer. O prequel do Vai que Cola tem seus méritos. Vai vendo.

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No território da baixa comédia, o estereótipo é o rei. E aqui os tipos comuns nos subúrbios brasileiros, sobretudo cariocas, atendem a todos os gostos. Desde a periguete incorrigível de Samanta Schmütz, passando pelo gostosão burraldo de Emiliano D’Ávila, estacionando na farofeira esgoelenta de Cacau Protásio, na dona de casa batalhadora de Catarina Abdalla e aterrissando na gay sonhadora vinda do interior – destaque maior do elenco, o magnético Ferdinando de Marcus Majella. Aliás, na ausência de Paulo Gustavo (o Valdomiro, que por sua vez corresponde ao estereótipo do trambiqueiro boa praça), Majela brilha soberano no campo da afetação, um selo acertadíssimo tanto na TV quanto aqui.

Essa abordagem explica a popularidade do Vai Que Cola ao mesmo tempo em que transita num campo arriscado de reducionismos e flertes com um humor cuja validade já prescreveu há uns 30 anos. As piadas de gordo e de bicha seguem firmes, mas não são iguais aos ultrapassados textos de Ari Toledo. A diferença crucial é que aqui os personagens são bem resolvidos com o sobrepeso e com a bichice – então acabam rindo junto das ofensivas ou até se defendem se necessário. Daí o grito de “Vamo ser viado pra sempre! Eu adoro ser viadooo!”. Ainda assim, em tempos de patrulha do cancelamento, a linha que divide o humor A Praça é Nossa desse novo, filtrado, é tênue. E o humor, no fim das contas, é sempre muito relativo.

O que dá pra dizer é que do ponto de vista da fluidez, esse roteiro funciona. E funciona muito mais em comparação ao filme de 2015 que basicamente reunia vários esquetes de TV num formato truncado de longa metragem. Aqui a trama vai apresentando cada personagem individualmente até que uma treta genérica de caça ao “tesouro” reúne todos eles sob o signo da empatia e da amizade. A ‘ousadia’ fica por conta mesmo da autoafirmação, do uso regular de palavrões e até mesmo de um muito bem encaixado beijo entre homens – uma demonstração de que o filme não passou por um processo de pasteurização para a família-tradicional-brasileira aplaudir.

O texto é muito esperto também ao valorizar o patrimônio da cultura pop nacional com referências bem aplicadas ao mega-sucesso “Avenida Brasil” e ao icônico “Lua de Cristal” de Xuxa.  Sendo uma comédia de pretensões modestas que procura funcionar como um mimo aos fãs do seriado, Vai que Cola 2 cumpre a tabela no carisma. E dependendo da resposta da bilheteria, vai continuar cumprindo.