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Crítica de TV

Crítica – The Boys S1 (Amazon Prime Video)

Série é um conto sangrento de ficção científica que retrata os super-heróis como a escória da sociedade

Se o cinema é o lugar para amar heróis incondicional e cegamente, a TV é o lugar para odiá-los. A prova disso são as novas produções na tela pequena que desconstroem – na base da porrada – os mitos sobre os super-humanos.

A mais recente estreou no Prime Video e chegou bem perto de ter uma temporada perfeita, mas como prega a própria narrativa de The Boys, não existe isso de perfeição.

Feita por Eric Kripke e estrelada por Karl Urban, muitas coisas podem ser ditas sobre o que The Boys está criticando, mas o que flui em toda a primeira temporada é um comentário brutal sobre os Estados Unidos contemporâneo.

A série é baseada na graphic novel de mesmo nome, escrita por Garth Ennis com arte de Darick Robertson, e conta a história de um grupo patrocinado pela CIA, cujo trabalho é colocar super-heróis de volta nos trilhos, matando-os, se necessário.

A história pega super-heróis e os coloca em uma corporação que produz filmes, comerciais e capitaliza sua força de trabalho nos EUA, uma espécie de Marvel Entertainment que também lida com engenharia genética. A joia da coroa da corporação é conhecida como The Seven, e cada um dos Sete originais emula um personagem da Liga da Justiça, mas, um em especial é uma combinação entre o Super-Homem e o Capitão América: Homelander, o líder deles e a pior pessoa da Terra, perfeitamente interpretado por Antony Starr.

Os outros seis são Queen Maeve (Dominique McElligott), The Deep (Chase Crawford), translúcido (Alex Hassell), A-Train (Flash), Starlight (Erin Moriarty) e Black Noir (Nathan Mitchell).

Os ~mocinhos~ são liderados por Billy Butcher (Karl Urban), um ex-soldado britânico com uma vendeta pessoal contra Supers, Hughie (Jack Quaid), um técnico de informática cuja noiva foi morta por um Super em um acidente horrível, Mother’s Milk (Laz Alonso), um diretor de prisão, Frenchie (Tomer Capon, um francês especializado em tráfico de armas, e Female (Karen Fukuhara) cujo nome real é Kimiko.

A série desconstrói os super-heróis e os heróis da história, já que Homalander é um sádico, mas seu antagonista, Butcher, torna seu sobrenome muito apropriado. O desempenho de Kar Urban faz esse personagem muito parecido com Dean Winchester, de Supernatural, outra criação de Eric Kripke. Ambos são machões carismáticos, com uma tragédia familiar, e os dois são muito bons em derrubar monstros, mas Butcher é ainda mais brutal.

The Boys fala sobre a mercantilização dos super-heróis, a privatização da guerra, o culto às celebridades, o corporativismo, a deificação de super-heróis, o evangelismo fundamentalista nos Estados Unidos, a comercialização do corpo feminino e as mentiras que formam a base do dia a dia no Ocidente.

É um mundo como o nosso, quando a mulher é hiper sexualizada, assediada e controlada por colegas de trabalho homens; um mundo onde o nacionalismo branco e a corrupção religiosa andam de mãos dadas. Mas neste mundo um super-herói é a personificação da nação e comparado a Jesus em uma convenção religiosa onde ele revela sua verdadeira e aterradora face.

Homelander é um show de aberrações sozinho. Fala como Trump, é a imagem do Capitão América, tem os poderes de Superman, é um estuprador, assassino, e não tem nenhum senso de justiça ou moral. Ele é, de fato, um verdadeiro super-herói moderno.

The Boys tem bastante violência e nudez masculina frontal, além de uma cena onde estupro e A Forma da Água convergem. Nada agradável essa parte. As cenas de luta são boas, mas nada de espetacular. A melhor é a primeira, quando Butcher enfrenta um homem que não pode ser visto, e ele derrama sangue de sua própria boca apenas para ver seu oponente. A luta termina com uma bunda sendo eletrocutada.

Em suma, The Boys é um conto sangrento de ficção científica que retrata os super-heróis como a escória da sociedade, a fossa onde a moral é decomposta em excremento. The Boys é gore, satírico, violento, com um realismo ácido, e mesmo assim consegue ser uma peça de entretenimento que não exaure o expectador. É um absurdo caótico, muito bem roteirizado e com algumas ótimas atuações. Como o próprio Bily Butcher diria, é diabólico!

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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Crítica

Crítica | Watchmen (piloto da série)

Derivado da famosa HQ, o piloto de Watchmen vai na onda de Coringa e entrega uma obra intensa e realista

Watchmen

O piloto de Watchmen termina e você entende exatamente qual é a proposta de Damon Lindelof: a fidelidade pelo conceito criado no universo da clássica HQ de Alan Moore e Dave Gibbons e promover uma trama envolta no mistério característico, marca registrada do diretor e roteirista, criador de Lost e The Leftovers.

De cara, vai chamar a atenção também o visual arrojado e a edição ousada, mas será na atualização relevante da narrativa – com comentários políticos e sociais diretos que podem ser lidos como críticas ao ultaconservadorismo atual – e a abordagem bastante realista a chave que atingirá mentes e corações. E, mesmo que a série se passe em uma realidade alternativa, assim como no filme de Zack Snyder, ela é muito mais semelhante à nossa.

Trinta anos após os eventos finais da HQ (e do filme), os vigilantes mascarados ainda estão nas ruas e ajudam a polícia. Eles são heróis anônimos, mas agora são pessoas comuns, que tem vidas normais, sem o culto de personalidade que outrora tinham Coruja, Comediante e Spectral. Os fãs certamente irão vibrar com a precisão dos detalhes e as referências – um tanto diferente da opção pela estilização do longa assinado por Snyder – onde está explícita a paixão de Lindelof pela obra de Alan Moore. Porém, aos não iniciados no universo da HQ, Watchmen também funciona muito bem como uma série derivada e independe, ainda que possam se sentir interessados a entender certas excentricidades.

Em um momento em que, as obras baseadas em quadrinhos podem entreter a partir de um novo conceito, embaladas pela visceralidade real de Coringa, Watchmen é brilhante na medida em que entrega uma experiência nessa mesma intensidade. Com momentos impactantes, ótimas atuações (Regina King, Jeremy Irons e Don Johnson excelentes) e elementos técnicos irrepreensíveis, a série da HBO sustenta uma história promissora cujo caminho ninguém faz ideia onde vai dar mas, de forma inteligente, instiga a pensar, mantendo a audiência interessada e atenta. 

Expectativa altíssima para os próximos 8 episódios.


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Crítica de TV

Crítica | (Des)encanto – 2ª temporada

Quando a primeira temporada de (Des)encanto chegou à Netflix, o hype e a ansiedade atingiram níveis gigantescos. Primeiro, porque se tratava da nova animação de Matt Groening – o criador de Os Simpsons e Futurama – segundo porque o novo universo, um reino místico cuja protagonista era uma princesa má educada e beberrona, parecia promissor para os que adoram um humor ácido e adulto. Dito e feito. A primeira temporada, apesar de alguma inconsistência na narrativa, conseguiu entregar exatamente o que os fãs queriam: irreverência e boas piadas. 

Com a chegada da segunda temporada, era preciso reconectar o público depois de um final curioso, porém um pouco mais dramático do que aquele tom de descaso inicial dos primeiros episódios. Mais do que isso: como retomar aquela maravilhosa química entre o trio de protagonistas? Sem muita surpresa, os primeiros episódios já respondem as pontas soltas e amarra tudo já logo nos dois primeiros capítulos. E a química volta lindamente. É visível, inclusive, que prevalecerá no desenrolar da história uma condução mais confortável e pé no chão, porém não menos descontraída. 

No decorrer da série é possível notar que, nessa temporada, há uma menor predisposição de dialogar apenas com a fantasia. Apesar de ainda beber nessa fonte, há boas referências de outros gêneros que intensificam novas boas ideias como, por exemplo, alguns óbvios paralelos com Game of Thrones. Embora isso não signifique que mantenha-se engajada naquele discurso (interessantíssimo) de como a sociedade medieval se assemelha ao nosso atual modelo de política – democrática, porém cruel para os que não se encaixam nos padrões de normalidade. 

O visual continua sendo uma delícia. Tanto a iluminação quanto o sombreamento distribuem bem a atenção, seja nos momentos de ação ou nos de mais calmaria. E o toque de mestre são as sutilezas digitais que se somam ao estilo tradicional das animações de Matt Groening. 

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A parte não tão legal é uma menor inserção de memes nos diálogos da versão dublada, coisa que a primeira temporada deitou e abusou de forma criativa e inteligente. Mesmo assim, o humor nessa segunda temporada parece se encaixar de uma maneira mais natural, até porque as características dos personagens já foram exploradas e a graça agora é, justamente, ver como eles reagem em situações que exigem uma maior intimidade entre si. 

E como a terceira temporada já está confirmada, a tendência é que (Des)encanto siga com sua faceta insana, mas bem mais espontânea e que, assim como em Os Simpsons e Futurama, nesse ritmo, possam ter episódios que funcionem bem de forma isolada. 


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Crítica de TV

Crítica | Carnival Row – S1 (Prime Video)

Série é uma admoestação sobre imperialismo recorrendo mais à didática que à arte de contar histórias.

A nova série de Fantasy do Amazon Prime, Carnival Row, e uma empreitada dos produtores Travis Beacham e René Echevarria, através da Lionsgate, convergindo em oito episódios uma combinação de Romance Vitoriano – de terror e de exploração -, Police Noir e Fantasy.

Em sua premissa, as consequências da invasão de uma terra recém descoberta por duas nações imperialistas, a República de Burgue e o Pact. Com a tomada das terras do reino feérico de Anoun, criaturas antes tidas apenas como fruto da imaginação humana se tornam refugiados na capital de Burgue, uma mímica da Londres Vitoriana.

As tensões entre as populações humanas e feéricas se acirram quando um – segundo – assassino em série deixa um rastro de sangue de homens e fada. Amarrando tudo, o romance entre um investigador de polícia, Philo, (Orlando Bloom) e uma fada, Vignette (Cara Delevigne) interrompido pela guerra.

É inevitável não comparar Carnival Row com Penny Dreadful, ambas fantasias neo-vitorianas, que flertam com o steampunk. Mas enquanto a série do Starz bebia apenas dos clássicos romances de terror do século XIX, Carnival Row traz um escopo muito mais variado de referências, tais como Shakespeare e a mitologia judaica.

Um ponto a se considerar sobre a série do Prime é a completa falta de sutileza, seja em repetir um foreshadowing à exaustão seja em como trabalha seu subtexto, se é que se pode chamar de subtexto a forma como fala sobre temas do mundo real.

A produção é digna, nada espetacular, mas não se envergonha do que tem a oferecer. Suas cenas mais no escuro são as que menos demandam efeitos especiais, estranhamente. Fadas voam à luz do dia e kobolds atuam no equivalente daquele mundo à um teatro de marionetes de rua. Mais especificamente pode-se apontar as asas das fadas (que certamente não aguentariam seu peso na vida real) e os pucks (uma espécie de Minotauro retirada de Sonho de uma Noite de Verão) como os pontos fortes na caracterização do povo feérico.

É preciso notar o excelente, e diversificado, elenco de Carnival Row. São ótimas as atuações das estrelas Orlando Bloom, Tamzine Merchant, Jared Harris e Indira Varma. É apenas uma pena que, tomando novamente Penny Dreadful como norte, Cara Delevigne ande longe de ser uma Eva Green.

O romance policial é o gênero que leva as coisas para frente, e de uma forma muito acertada, apesar dos foreshadowings excessivos. Os plot twists são até bem amarrados, deixando ainda um bom espaço para um segundo ato – com cara de nazismo -, que esperamos seja confirmado em breve.

No quesito bizarrice, notamos Philo (Bloom) sendo ordenhado por uma bruxa idosa. É só isso mesmo.

Carnival Row é, em resumo, uma admoestação sobre imperialismo, colonialismo, racismo, fundamentalismo religioso e imigração que usa uma miríade de personagens feéricos como metáfora. O faz de uma forma extremamente didática, mesmo em detrimento de qualquer poética, não perdendo apenas a capacidade de entreter.

No entanto, longe de ser uma mancha na série, isso nos faz questionar se em um mundo onde fã de Star Wars e Pink Floyd é também acólito de figuras totalitaristas, a subjetividade artística seja algo superestimado quando se precisa de discursos efetivos.

Tayna Abreu é jornalista de entretenimento e também fala sobre ficção especulativa em seu IGTV @oftay_ 

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