Crítica | Stranger Things 3


A primeira temporada de Stranger Things (2016 -) parecia ter sido só uma ótima cartada da Netflix, com sua tropa de crianças carismáticas e um aparato de referências que pegavam desavergonhada carona na indústria nostálgica dos anos 80. A Segunda Temporada, embora não tão redondinha quanto a primeira, alcança também um excelente resultado. Então a promessa para a Terceira dependia 1) da arriscadíssima megalomania de ameaças cada vez maiores vindas do Mundo Invertido – e 2) de uma corrida contra o tempo para que o crescimento do elenco não fosse tão gritante de uma temporada pra outra. Vai vendo.

O que se vê na Terceira Temporada é simplesmente o melhor resultado até aqui dessa receita que mistura o melhor da cultura pop dos anos 80 com o frescor dos novos tempos de streaming. As referências são um grande atrativo para o público mais maduro, mas é recompensador perceber como elas são justapostas de maneira orgânica na história, quase como se aqueles elementos fantásticos dos filmes oitentistas pertencessem à esfera do ‘mundo real’. Mesmo os letreiros e pôsteres dispostos pelos episódios apenas para fins de contextualização são uma diversão extra e não surgem de maneira gratuita.

Mas o grande lance é conseguir replicar a atmosfera daquelas produções, algo que Stranger Things parece ter carta-branca pra usar como homenagem, citação ou apenas cópia mesmo. Como a incursão de um T-800 de Exterminador do Futuro (1984) ou os argumentos de Vampiros de Almas (1956), o flerte com o gore empacotado nos filmes de John Carpenter e aquele verniz de terror-pra-criança-ver que Spielberg produzia bem. Sem falar, óbvio, na paranoia da espionagem russa, uma herança da Guerra Fria que acabou criando raiz.

Juntar tudo isso pra chegar a um resultado estranhamente original é um mérito e tanto, sobretudo quando a série ainda é capaz de produzir uma iconografia instantaneamente pop como o desenho e as cores do “Starcourt Mall” e os figurinos icônicos como os marinheirinhos Steve e Robin (o cenário de cores saturadaças) a Erica toda trabalhada nos EPIs e, óbvio, a Eleven na vibe girls-just-wanna-have-fun.

E aí, vamos lá. O roteiro organizou o elenco em pequenos blocos que, aos poucos, se envolviam numa subtrama investigativa que fatalmente foi se revelando em peças de um quebra-cabeças enorme que levaria todos os personagens a se encontrarem no desfecho. UFA! A forma como a narrativa vai se afunilando ao longo dos episódios é brilhante, uma vez que cada uma dessas subtramas tem interesse próprio não apenas pelo mistério que imprimem, mas do ponto de vista do desenvolvimento dos personagens.

E a temporada investe pesado nisso. Desde o rocambole de emoções do universo adolescente (e é um acerto abraçar a idade do elenco ao invés de forçar uma infância que já tá partindo) passando pelo relacionamento entre pais e filhos e o cerco da falta de maturidade da qual nem mesmo adultos estão imunes. Entre o corre de ação e mistério, o texto ainda encontra tempo para umas pausas em forma de conversas muito boas, como aquela entre Steve e Robin no banheiro.

Por fim, a série é bem hábil em encontrar espaço para momentos de muita doçura, super bem localizados depois do sufoco – e deixar lacunas com a dose certa de ambiguidade para a próxima temporada. A gente sabe que parte do charme, para o bem ou para o mal, é não responder a todas as perguntas e não fazer sentido sempre. Seja como for, os irmãos Duffer parecem saber o tempo de parar. Confiemos.