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Crítica

Crítica | Sintonia

Tentando fazer um carinho para os mais de 10 milhões de brasileiros assinantes plataforma, a Netflix trouxe mais uma produção nacional para o catálogo nacional e de outros 189 países. Dessa vez, quem assina junto é o selo Kondzilla, já famoso na indústria de clipes musicais e um estreante cheio de personalidade na dramaturgia com “Sintonia“, que usa uma embalagem realista para falar de amizade e evolução pessoal. Pega a visão.

Doni, Nando e Rita são moradores da mesma favela em São Paulo. Crescendo juntos pelas ruas da comunidade, eles descobriram aos poucos o mundo do tráfico de drogas, da religião e também da música. No entanto, as experiências da infância os levaram a trilhar caminhos bem diferentes, e agora esse trio sabe que quem pode salvá-los dos problemas com os quais se envolveram são eles mesmos.

É clara a intenção de “Sintonia” de representar a rotina da comunidade sem tantos filtros. O palavrão é livre, os diálogos quase viram dialetos pela quantidade de gírias, e recortes mais próximos mostram a crueldade do tráfico e da arte como esperança. Um cenário ainda pouco explorado pela televisão e cinema no Brasil, que já vale a audiência só por isso.

Argumento bacana, ambientação impecável, série iniciada e não dá para não reparar na estética Kondzilla, que imprime a fotografia típica dos famosos clipes nos diálogos da série. A sorte é que qualquer incômodo, com fotografia ou elenco, tende a melhorar com o passar dos episódios. Alguns dos atores são ex-detentos, formados num curso de teatro na penitenciária.

No entanto, a escolha de uma trama apressada sacrifica o íntimo dos protagonistas, que quase sempre estão em ação ou em diálogos expositivos, explicando o óbvio, num estilo novelesco totalmente dispensável. Não sobra tempo para falar sobre as motivações, desejos e conflitos dessa turma que tanto tem decisões difíceis para tomar.

O arco sobre o tráfico chama tanta atenção quanto o do sonho de Doni (Jottapê) em ser um MC reconhecido, ainda que esse último seja o principal. A igreja surge na pauta aos 45 do segundo tempo. E ainda que as decisões dos personagens não pareçam as melhores, a série é clara sobre aquele não ser um ambiente de fáceis ou de nenhuma escolha. Cada um tenta crescer ao seu modo e é isto.

E é justamente por fugir do esteriótipo favelado, reforçado por retratos tolhidos já feitos por outras mídias de massa, que Sintonia ganha pontos. Nada aqui é romantizado (exceto a amizade entre eles). O crime tem consequências, o preconceito é duro, o mundo da fama é pantanoso e até a máquina de dinheiro da igreja tem lá seus efeitos na cabeça de quem a enxerga. Mantendo essa legitimidade e com um roteiro mais engenhoso, Sintonia tem tudo para fazer um segundo ano ainda melhor.



Crítica

Crítica | Em Defesa de Jacob

A minissérie de suspense foge dos padrões que o gênero possui e entrega um enredo surpreendente e cheio de reviravoltas.

Dramas familiares sempre chamam a atenção e cativam o público, principalmente aqueles que envolvem todas as esferas familiares. Entretanto, essas produções podem se tornar bem mais interessantes quando novos elementos são inseridos na narrativa, como por exemplo, um assassinato. É exatamente isso – e um pouco mais – que a minissérie ‘Em Defesa de Jacob’, a nova produção original da Apple TV+ leva ao público.

O thriller de oito episódios é dirigido por Morten Tyldum (O jogo da Imitação), ganhou uma adaptação para TV feita por Mark Bomback (Planeta dos Macacos) baseada no livro de William Landay. O enredo conta a história de Jacob (Jaeden Martell), que tem a vida virada de cabeça para baixo após ser acusado de assassinar seu colega de classe. Ao lado dele, os pais Andy Barber (Chris Evans) e Laurie Barber (Michelle Dockery) vivem dias de aflição e tentam de todas as formas provar a inocência do filho.

A série acrescenta elementos interessantes, como o jeito antissocial de Jacob, as mensagens estranhas postadas por ele em uma rede social e o fato dele ter sofrido bullying por parte do colega que morreu, forçando a teoria de que ele pode estar envolvido com o crime. Além disso, a linha cronológica da história contada em duas versões: um tempo após o desfecho do caso e outra durante a investigação, prende a atenção do público que por várias vezes se pergunta: porque Andy está sendo interrogado? Jacob foi preso? Ele é culpado pelo crime?

Chris Evans vive Andy Barber, Jaeden Martell interpreta Jacob Barber e Michelle Dockery é Laurie Barber

Até o terceiro episódio, o enredo foge um pouco do que a série quer propor ao público – a dúvida se Jacob matou não o colega – e explora o passado um tanto conturbado de Andy e a relação ambígua de Laurie com seu filho. Mas tudo isso é proposital, afinal a partir daí, a série aposta no jogo psicológico, já que a inocência de Jacob é uma dúvida não só para o júri, mas para os pais do adolescente e agora para o público.

As revelações do passado obscuro de Andy com seu pai Billy Barber (J.K Simmons), preso há mais de 20 anos por homicídio, voltam a causar dúvidas e naturalmente, a novidade ajuda a criar uma ligação homicida entre o avô e o neto. Do outro lado, a fragilidade de Laurie em relação a descoberta sobre o passado do marido traz uma mudança no relacionamento dos dois como casal e com o filho, deixando os personagens centrais instáveis. Essa aspecto ajuda reforçar no telespectador a seguinte premissa: ele é culpado pelo crime.

Uma das coisas mais bem arrojadas do roteiro é que com o passar dos episódios, a perspectiva de Andy sobre Jacob vai mudando e isso reflete diretamente na maneira como o público vê o garoto. Lembra do jogo psicológico que falei no início da crítica? Pois então. Com isso, não se torna tão cruel aceitar que os próprios pais do garoto acreditam que ele é o verdadeiro responsável pelo crime.

O mix de sentimentos que ‘Em Defesa de Jacob’ proporciona é surpreendente, assim como o desfecho da série. As reviravoltas em relação ao crime – principalmente no último episódio – a viagem da família para o México e a revelação de novo segredo por Andy fazem você literalmente voltar à estaca zero. O suspense volta à tona e te faz pensar e repensar por várias vezes o que pode estar nas entrelinhas da história e qual é a verdadeira relação de Jacob com o crime.

As atuações acertadas de Evans, Dockery e Martell deram um diferencial acertado na produção. Com interpretações intensas, em alguns pontos bem frias e duvidosas, os personagens ajudaram a criar um clima de incerteza e reflexão, abrindo espaço, talvez, para uma segunda temporada. E com isso, teremos a chance de responder algumas dúvidas que a série deixou no ar, característica digna de uma boa trama de suspense.

Em Defesa de Jacob‘ está disponível na Apple TV+ e a assinatura pode ser feita por usuários no Brasil. Veja o trailer abaixo:

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Crítica

Crítica | Control Z – 1ª temporada

A produção fisga o público e garante boa recepção a uma próxima temporada, sem manchas na estreia.

A protagonista da série é a adolescente Sofia Herrena, vivida por Ana Valeria Becerril. (Foto: reprodução)

O enredo das produções mexicanas, de um modo geral, costuma pegar emprestado o tempero apimentado da culinária do país para incrementar narrativas. Com a série Control Z não foi diferente. O drama teen possui em sua receita escândalos picantes, traumas do passado e segredos sobre a vida dos adolescentes de ensino médio que formam seu elenco central.

Produzida pela Lemon Studios para a Netflix, Control Z traz em oito episódios uma reviravolta na vida de estudantes, pais e funcionários da escola, causada pela ação de um hacker que começa a revelar publicamente os segredos de alguns alunos e até do diretor da instituição. Chantageados, eles precisam contribuir para a revelação de algo pessoal de outra pessoa para protegerem o próprio segredo das mãos do hacker.

Para sustentar a premissa de forma mais convincente, a série mostra uma escola bem estruturada, com cobertura de vidro, acesso liberado à internet e, consequentemente, alunos de famílias que têm absoluta condição de manter seus filhos matriculados nela. Isso contribui para que hajam subornos, festas, casas e carros luxuosos que movimentam as cenas em torno do eixo de ação principal: descobrir quem é o hacker.

Elementos secundários à parte, temos a protagonista Sofia Herrera (Ana Valeria Becerril), que antes de retornar às aulas naquele ano passou o verão na ala psiquiátrica de um hospital. Como é de se esperar, tendo em vista as últimas produções do gênero na Netflix, a personagem assume a figura de uma adolescente solitária, com aspectos depressivos e ansiosos que, durante crises, faz com que ela recorra a fazer cortes no prórprio corpo.

Para absorver as mensagens que a produção pretende passar, porém, o público precisa se voltar apenas à característica marcante da protagonista: a aguçada capacidade de observação. Já que, apesar de abordar temas pertinentes, Control Z não prende muito pelo diálogo e sim pelas suposições que desperta sobre a menina mais bonita da escola, que na verdade é um menino, pelo “malvadinho” que usa a valentia para encobrir aquilo que ele entende como uma fragilidade sua e pela menina boazinha que esconde a prática de fazer roubos.

Todos esses pontos são expostos pela ação do hacker. Em pararelo, a chegada do novato Javier Willians (Michael Ronda), filho de um famoso jogador de futebol faz com que Sofia, que decidiu descobrir quem está por trás do hacker, tenha agora um aliado nessa busca. O que ela não sabia no início é que até mesmo Javier tem envolvimento num terrível assassinato que foi silenciado com a fortuna e fama do pai.

A riqueza também apresenta papel importante na vida de Raul (Yankel Stevan), personagem de aparição tímida nos primeiros episódios da série para posteriormente se tornar o pivô de todas as mazelas ocorridas até então. A partir daí, a série dispara para a possível resolução do conflito principal e manobra com excelência a necessidade de abriar clichês como o fato de dois garotos, Javier e Raul, estarem apaixonados por Sofia enquanto os demais fatos de desenrolam em volta deles.

De maneira muito perspicaz, o sétimo episódio de Control Z é formado por flashbacks para instigar o público a pensar: “então é isso”. Contudo, não deixa a dedução vir de maneira fácil pela posterior sequência de acontecimentos em timelapse mostrando a realidade por trás das ações de cada personagem.

Já a revelação sobre quem é o hacker, nesse ponto, não poderia ser feita de outra forma senão pela dedução fato por fato de Sofia, nada imprevisível. Ainda mais quando se soma o fato de que mais uma vez era alguém que estava ali o tempo todo. Embora seja mais do mesmo, temos aqui os questionamentos provocados pelo último episódio: apesar das perdas, os personagens de fato viverão melhor com os seus segredos expostos? Valeu a pena mesmo fazer tudo isso?

Deixando várias questões no ar como, por exemplo, o que de fato acontece com o pai de Sofia e também como ficará a situação dela, de Javier e de Raul, a primeira temporada de Control Z consegue fisgar o público de maneira que este seja muito bem receptivo à sua próxima temporada, sem marcar de forma negativa sua estreia. Vale a maratona!

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Crítica | A Vida e a História de Madam C.J. Walker

Minissérie mistura ficção e realidade sobre a brilhante trajetória da primeira negra milionária dos EUA.

A missão de interpretar Walker foi abraçada pela atriz Octavia Spencer.

Produções baseadas em fatos reais, principalmente quando trazem histórias inspiradoras, são sempre necessárias desde que preservem ao máximo o conceito briográfico da coisa, é claro. Aqui, temos uma minissérie com quatro episódios que passeia por situações de racismo, machismo, pobreza, abuso e a luta para vencer tudo isso.

A Vida e a História de Madam C.J. Walker conta a trajetória de uma mulher que não só se tornou a primeira negra milionária dos Estados Unidos como também tem seu nome registrado no livro dos recordes pelo feito, considerado algo inalcançável na época em que viveu (1867 – 1919).

Madam (em português ‘senhora’) é, na verdade, Sarah Bredlove, que decidiu abandonar sua vida de lavadeira para construir uma fábrica de cosméticos. A figura de Sarah foi alvo da obra biográfica da jornalista americana A’Lelia Bundles, que contribuiu significativamente para a construção da narrativa da minissérie original Netflix.

Contudo, a produção não conseguiu abrir mão da ficção para definir a espinha dorsal da narrativa, que evidencia uma rixa entre Sarah (Octavia Spencer) e Addie (Carmen Ejogo), sua concorrente no ramo da beleza. Addie, na vida real, foi Annie Malone. Ela empregou Sarah, assim como mostra a minissérie, mas não a perseguiu da mesma maneira abordada nas cenas.

A oscilação entre realidade e ficção, ainda assim, não tira o gosto de apreciar os episódios, que são bem marcados e divididos. O que, vai por mim, facilita bastante a maratona! A capacidade de identificação com vários públicos também é um ponto positivo que deve impulsionar a escolha de assistir à minissérie.

Sem falar que a grande vitória de Walker foi, sem dúvidas, alcançar o objetivo de construir sua fábrica. Não espere, portanto, nada menos que bons aprendizados para aplicar no empreendedorismo (e na vida!).

Mas, apesar dos pontos positivos, a ressalva vai para o desfecho confuso que foi adotado e que apresenta um contraste com a linearidade das cenas de embate entre Sarah (Octavia Spencer) e Addie (Carmem Ejogo). No desenrolar dos fatos, as lutas e preconceitos suportados por Sarah acabam ganhando mais brilho do que o momento que deveria ser de triunfo: sua conquista empreendedora.

Ao final, sobram incertezas acerca da integridade do trabalho desenvolvido por Walker que provavelmente não estavam na lista das boas intenções que a produção queria provocar diante de uma trajetória tão marcante como a de Sarah Bredlove.

A quebra de expectativas do final é minimamente compensada pela atuação da premiada Octavia Spencer. Indiscutivelmente, a entrega dela ao papel é feita não só pela Octavia atriz mas também pela Octavia pessoa, mulher e negra com postura mais que inspiradora e empoderada.

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