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Críticas de Séries

Crítica | Sharp Objects (HBO)

Série limitada foi exibida em oito episódios.

No último final de semana foi exibido na HBO o episódio final da série limitada Sharp Objects, baseada da obra homônima de Gillian Flynn e dirigida por Jean-Marc Vallée. 

Com oito episódios, fomos apresentados a pacata cidade de Wind Gap, Missouri, onde duas garotas foram assassinadas em um curto espaço de tempo. Camille Preaker (Amy Adams), é uma jornalista que não reside em Wind Gap, mas volta a sua cidade natal a pedido do chefe para investigar os casos e lhe fazer textos.

O reencontro de Camille com sua mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson) é um dos primeiros pontos a se destacar na série. O passado obscuro que a relação das duas tem é muito bem explicado, porém não em um ou dois episódios. Sharp Objects escolheu o tom frio, vintage, lento e detalhista, cheio de flashbacks e silêncios para contar a história criada do Flynn – o que foi uma boa opção. Os personagens desse enredo, diga-se as protagonistas Camille, Adore e Amma (Eliza Scanlen), filha mais nova de Adora, precisam de um bom tempo para serem completamente entendidas devido as suas profundidades.

A nossa protagonista é uma mulher que teve diversos traumas durante sua adolescência. Uma mulher quebrada, que passou pela grande necessidade da auto-mutilação e hoje bebe vodca como água. De comportamento sério, poucas palavras e sem sorrisos, Amy assume uma postura totalmente diferente dos seus personagens anteriores. Sua atuação se torna um dos pontos mais fortes da série, que, por sinal, foi sua estreia como protagonista na televisão. E que estreia!

Patricia Clarkson e Eliza Scanlen não deixam de brilhar com suas personagens também problemáticas. Adora, a mãe da cidade, que sofre do que é conhecido como Síndrome de Munchausen por proximidade, sente a extrema necessidade de ser a grande salvadora da pátria para as pessoas, principalmente suas filhas. E isso para ela vale tudo, até mesmo adoecer (e matar) para poder “cuidar” do que é seu.

Amma, por sua vez, se considerava a própria deusa Perséfone, esposa de Hades, mais conhecida como a rainha do mundo infernal. Ela ficava vigiando as almas e sabia os segredos das trevas. Amma é de uma bipolaridade gigantesca. Ela é a típica personagem de dar medo, ao qual algumas pessoas são totalmente reféns de sua presença por temer o que ela seria capaz de fazer caso a contrariassem. E Scanlen soube carregar as várias nuances de sua (também quebrada) personagem com maestria e sem, em nenhum momento, ser ofuscada por estrear nas telinhas ao lado de duas atrizes de carreira já consagrada.

Ao iniciarmos Sharp Objects podemos pensar que o foco realmente será acompanhar uma investigação policial em uma pequena cidade. Isso se concretiza, mas fica de escanteio com o desenrolar das descobertas e aprofundamentos em cada um dos personagens, que se tornam o verdadeiro trunfo da série. Com seu ritmo mais lento, se levado em comparação a adaptação de Gone Girl (2014), baseado em outra obra de Flynn, ou em Big Little Lies (2017), dirigida por Valleé, o roteiro se dispõe a diferenciar do típico jogo de gato e rato e prefere mostrar os motivos por trás das ações de cada personagem.

Ah, o fato da série manter tanto silêncio é algo saudoso, visto que a produção resolveu apresentar em forma de flashbacks sem muitos diálogos todos os diversos monólogos de Camille presentes na obra literária. Não foi opção incluir a narração de pensamentos, e sim imagens do que Camille pensa e repensa a todo instante. Vale ressaltar que muitos dos flashbacks foram cenas ensaiadas entre Adams e Sophia Lillis, que interpreta Camille em sua versão mais jovem.

Resumidamente, Sharp Objects é a representação em tela do que muitas relações são capazes de se tornar por conta da falta de hombridade em assumir que problemas psicológicos devem e merecem ser cuidados. Adora teve uma infância triste e traumatizante, e isso a tornou o terror da vida de suas filhas. A história passada nos oito episódios nos mostra isso. O cenário pouco empolgante e os personagens problemáticos nos dão a certeza de que toda a história que virá pela frente será cheia de imprevisibilidade, no mínimo. São essas dúvidas do que pode acontecer que nos mantém ainda assistindo até o fim.

Sem chances de uma continuação, a história desses personagens super interessantes foi definitivamente encerrada no episódio oito. Ah, se você realmente quer saber quem é o verdadeiro assassino, você só vai descobrir isso na última fala da série. E, por favor, “não conte para a mamãe”.

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