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Crítica de Game

Crítica | Shadow of the Tomb Raider

Lara Croft reencontra-se como caçadora de tumbas em novo jogo da franquia.

A aclamação do reboot de Tomb Raider foi condigna com o material entregue pela Square Enix em 2013. O resquício de uma Lara Croft fetichizada foi extinto, em vez disso, recebemos uma heroína com um caráter complexo e mais humano, com defeitos e qualidades. Contudo, ainda que as mecânicas modernas tenham garantido o sucesso da renovação da franquia, muitos fãs sentiram-se órfãos com a falta de alguns elementos clássicos, como as duas pistolas (que apenas fizeram uma breve aparição no reboot), certos movimentos de escalada da Lara, que foram removidos, exploração e puzzles mais complexos.

A promessa era que Shadow of the Tomb Raider retornasse com alguns destes elementos, como a possibilidade de se balançar pela parede ao estar pendurada, o que foi devidamente cumprido (como prévias já haviam exibido) além do retorno de tumbas com armadilhas mortais e puzzles mais elaborados, que segundo a Square Enix, era certo. Contudo, será que essa missão foi cumprida em meio das 20 horas de jogo? Senta aí que agora iremos por partes.

ENREDO

O jogo se passa dois meses após os eventos de Rise of the Tomb Raider (2015). A protagonista Lara Croft segue caçando a Trinity, uma organização paramilitar dedicada a investigar o sobrenatural. No meio de sua jornada, a heroína, junto de seu fiel amigo, Jonah, deve lidar com árduas consequências de suas escolhas e impedir que um Apocalipse Maia se concretize.

É nesse contexto que Lara Croft irá finalmente explorar todo o seu potencial que, outrora, fez dela a mais renomada arqueóloga existente. Aqui, acompanharemos a sua evolução e compreenderemos todas as suas complexas faces entre as crises existenciais da heroína, que aos poucos compreende melhor as consequências de seus atos e o mundo além dos seus problemas familiares.

Por outro lado, Jonah não apresenta ser um companheiro à altura de Lara.  A insistência da Square Enix em mantê-lo nas sequências parece uma tentativa falha de criar uma dupla memorável. O que soa estranho, pois eles parecem ignorar a química singular existente entre Lara e Sam, trabalhada no primeiro reboot e que, ao contrário de Jonah, possui potencial em protagonizar de forma esplêndida qualquer jogo da franquia.

O mesmo vale para o antagonista Dr. Dominguez, líder da Trinity, que fada ao genérico e é tudo menos uma ameaça convincente. Por sinal, isto é um defeito frequente no reboot, que até aqui não foi capaz de apresentar qualquer antagonista à altura de Natla (dos jogos clássicos) ou que chegasse, ao menos, próximo dela.

De modo geral, o contexto dramático do jogo parece uma desculpa para explorar as nuances da personalidade de Lara Croft. Se for este o caso, a missão foi concluída perfeitamente. Mas isolando a trama por si só, não há muitas novidades do que vimos anteriormente e ela apenas segue o padrão visto até então.

AMBIENTAÇÃO E GRÁFICOS

A riqueza da ambientação é clara e inestimável. Os detalhes, as texturas e os seres vivos que compõe as densas florestas tropicais e vilas paradisíacas tornam a experiência de Shadow em algo belo e único.

Os cenários do jogo estão mais amplos, quase alcançando o aspecto de mundo-aberto dos RPGs. As tumbas tornaram-se mais macabras e agourentas. Já os templos representam fielmente as peculiaridades da arquitetura asteca e maia. Para os atenciosos e curiosos, uma verdadeira aula de história.

Os gráficos representam bem a pluralidade das ambientações vistas em jogo. Junto a eles, Lara Croft, Jonah e os personagens secundários são bem apresentados, ainda que não tenha ocorrido uma grande evolução gráfica do Rise of the Tomb Raider para cá.

Por outro lado, o mesmo não pode ser dito sobre alguns NPCs encontrados em jogo, que demonstram poucas expressões e são reduzidos a uma imagem simplória e genérica. Dialogar com eles é um exercício de paciência. E nem todos são capazes de aturar um personagem tagarelar com tão pouca empolgação sobre assuntos que, para nós, deveriam ser bastante interessantes.

JOGABILIDADE

Ao contrário do que os murmurinhos sussurravam pela internet, Shadow of the Tomb Raider, quanto à jogabilidade, é excepcionalmente distinto de seus antecessores.

O jogo, claro, ainda utiliza várias mecânicas que eles apresentavam, como o sistema de craftar itens, de batalha e evolução de habilidades. Houve algumas mudanças sutis, com aprimoramentos e a inclusão de alguns novos e bem-vindos recursos. Por exemplo, Lara Croft é capaz de cobrir-se de lama para se misturar entre os arbustos; caçar animais para utilizar suas peles como tecido de vestimentas raras e especiais; e até matar inimigos diretamente de galhos elevados, com direito a incríveis animações e recompensas.

Portanto, o que realmente mudará será a maneira e a frequência com que utilizaremos estas mecânicas de jogabilidade. E acreditem, isso faz toda a diferença em Shadow of the Tomb Raider.

No quesito ação, por exemplo, o número de batalhas contra inimigos armados diminui drasticamente. Em troca, somos atacados por piranhas, jaguares, lobos, moreias, e também criaturas sobrenaturais que, assim como nos jogos anteriores, fazem uma ponta na aventura de Lara Croft.

Mas, ainda que haja essa variedade, comparado aos dois jogos anteriores, o número de batalhas é escasso e limitado. A ação frenética, aqui, dá espaço à exploração, à descoberta e à arqueologia propriamente dita. Muito do nosso tempo será investido na busca por tesouros, criptas, templos e tumbas escondidas. E também com o descobrimento de histórias e segredos dos antepassados, assim como a resolução de enigmas, que, diga-se logo de passagem, cumpriram a promessas e estão mais interessantes, árduos e fatais.

Mas isso não quer dizer que não haverá ameaças nesta jornada. Elas continuam, mas em maneiras diferentes. A doce frustração de não saber para onde prosseguir, ou escalar, retornam (Quem aí não sentia saudade de pular em uma parede, descobrir que não era o caminho correto e cair de cara no chão?!). Além disso, as diversas armadilhas espalhadas entre os lugares obscuros e secretos de Peru são mortais e as passagens abaixo d’água, que estão em abundância no jogo, farão muitos se afogarem ou se perderem com facilidade.

Dito isso, para quem ansiava pelo retorno do “clássico”, com a vasta exploração do ambiente, o retorno, em maior escala, de inimigos naturais da selva e escaladas mais perigosas, Shadow of the Tomb Raider é uma evolução. Para os amantes da ação frenética, batalhas incessantes e explosões a lá Michael Bay, o jogo pode ser um retrocesso.

ÁUDIO E TRILHA SONORA

A composição de Brian D’Oliveira é eficiente e consegue traduzir adequadamente as turvas dramáticas e sombrias de Shadow of The Tomb Raider. Além disso, a incorporação de instrumentos tribais e sul-americanos, junto com a cooperação de nativos locais, deram ainda mais vivacidade às locações exploradas em Peru.

Em termos de dublagem, a atuação de Camilla Luddington (Grey’s Anatomy) como Lara Croft continua impecável e fornecendo ainda mais profundidade a uma personagem com mais de 20 anos de história. O que não é um trabalho fácil, mas ela o cumpre devidamente.

Portanto, os NPCs que compõem as vilas e cidades do jogo sofrem em suas dublagens originais (nas línguas nativas), que mais parecem vozes importadas do Google Tradutor. A solução? Colocá-los para falarem em português ou inglês (há essas opções no menu). Mas ao tornear este problema, estaremos nos afastando da proposta de imersão cultural. Ou seja, cada um deve decidir qual das opções pesam mais.

As adversidades não param por aí , a dublagem brasileira também deixa a desejar, mas em outros aspectos. Aqui, o áudio ora está alto demais, ora baixo. Esta inconsistência constante acaba por atrapalhar os ouvintes, que imediatamente soltam um “quê?” quando Lara sussurra para ela mesma os segredos de uma tumba que nunca mais serão escutados e, consequentemente, esquecidos pelos jogadores que tentavam prestar atenção.

Contudo e felizmente, com a vasta opção de customização de áudio, estes problemas podem ser contornados. Caso o deseje, você pode simplesmente trocar o idioma no menu. Lá, há uma extensa variedade de idiomas e customizações que podem ser manipulados à vontade pelos jogadores.

MÉRITO

Ainda que apresente alguns defeitos, como alguns tropeços na história e nos gráficos de alguns NPCs, o jogo é um prato cheio de segredos a serem revelados e descobertos. A jogabilidade é divertida e a ampla gama de mecânicas garantirão várias formas de surpreender os inimigos.

No quesito sonoro, o áudio é extremamente imersivo e a trilha sonora acompanha a árdua jornada da heroína que caminha entre os momentos mais decisivos de sua jornada. E apesar de haver problemas com algumas dublagens, elas podem ser facilmente contornadas com as opções de áudio presentes no menu.

Shadow of the Tomb Raider é a jornada em que Lara Croft reconcilia-se com o seu passado e torna-se definitivamente a caçadora de tumbas que conhecemos.

 

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