Crítica | Sete Homens e Um Destino





16/09/2016 - Atualizado às 20:07


Certamente o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) assumiu a responsabilidade por este remake imbuído da consciência de que a obra merece reverência por sua importância no cânone do Cinema. Sete Homens e Um Destino (1960) de John Sturges é um western clássico por excelência e que repousa na sombra de outro clássico: Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa.

A estrutura dos três roteiros é a mesma: vilarejo pobre saqueado por exploradores precisa de ajuda para se defender. Em 1954, os sete ronin (samurais sem mestre), em 1960 sete cowboys e hoje, um grupo etnicamente variado, com a mesma missão. São justamente essas alterações de densidade e cenários que mostram a universalidade da composição concebida por Kurosawa.

Aqui, a exposição que antecede os créditos é muito eficiente ao apresentar a premissa pelas mãos do inescrupuloso Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard, ótimo) cheio de trejeitos e olhares cínicos que o tornam detestável desde o primeiro momento em cena.  Repare como Sarsgaard usa algumas inflexões na voz expondo sutilmente a natureza covarde de seu personagem. Brota ali também o subtexto religioso que atravessa toda a narrativa, tendo a igreja como um espaço de rima temática para o desenvolvimento da trama.

sete homens 2

Boa parte da diversão em Sete Samurais/Sete Homens é a estrutura de preparação: o bando vai se agrupando aos poucos, mais tarde treina os despreparados habitantes do vilarejo, enquanto desenvolvem estratégias de combate. Os roteiristas Nic Pizzolatto e Richard Wenk não apenas criaram ótimas molduras para os anti-heróis desenvolvendo satisfatoriamente cada um deles, como também alcançaram uma plausível sensação de gravidade e ameaça diante do problema enfrentado ali.  Destaque inevitável para a personagem de Haley Bennett que, norteada por ideais de justiça e vingança, é uma ilha de #GirlPower num cenário onde o imperativo da macheza e da ausência de leis dita as regras.

O roteiro, no entanto, apresenta falhas pontuais de fôlego, como na noite que antecede o clímax, ao investir em piadas ineficazes na sequência do saloon. Um desperdício de feel good scene que poderia ter sido transferido em tempo para a ótima e curtíssima conversa entre os personagens de Denzel Washington e Ethan Hawke (parceiros em Um Dia de Treinamento) antes de uma importante decisão deste último.

Mais tarde, o sino da igreja sendo posto de volta é um belo simbolismo de reconstrução, fechando a arco deste filme que atende muito bem a proposta de entreter, sem com isso envergonhar seus imponentes antecessores – com o tom levemente melancólico do desfecho servindo de ponto de interseção entre as três obras: “O que perdemos no fogo, iremos encontrar nas cinzas”.