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Críticas

Crítica | Roma (2018)

O filme de Alfonso Cuarón, disponível na Netflix, já venceu como melhor filme em Veneza, Nova York e chega como favorito ao Oscar

Foto: Divulgação/Netflix

Coincidentemente – ou não – duas das maiores experiências da minha vida dentro de uma sala de cinema foram com filmes dirigidos por Alfonso Cuarón. A primeira, ao experimentar o drama no espaço ultra realista em IMax e 3D com Gravidade (2013). A segunda, com Roma, uma obra-prima simples, delicada e poderosa.

Antes de mais nada, porém, antes de correr para a Netflix com a expectativa lá em cima é importante saber algumas coisas sobre o filme do mexicano. Primeiro e mais importante é, inclusive, uma regra básica para o cinema em qualquer gênero ou estilo: esteja aberto a sentir. Tenho visto o quanto as pessoas hoje parecem fazer questão de avaliar profundamente qualquer coisa que pertença ao seu universo cotidiano, seja um filme, uma novela, uma música, uma série, um livro, uma animação e por aí vai. Talvez, com a grande quantidade de informação adquirida na internet, há uma grande contemplação pelo conhecimento superficial e um retalho de opiniões aleatórias que tentam formar a opinião de quem precisa ter sempre uma opinião contundente (com o perdão da frase repetitiva). Esse é o mundo atual e temos que conviver em harmonia assim mesmo. Então, mesmo que seja possível fazer comparações claras de Roma com obras clássicas do neo-realismo italiano e até mesmo Federico Fellini, deixe isso para depois. Primeiro assista ao filme com as referências que você possui. E sinta o que lhe tocar. Simples assim.

Posto isso, Roma, além de ser belíssimo cinematograficamente, é um sentimento em forma de filme. É uma espécie de declaração de amor de Cuarón à empregada doméstica que trabalhava em sua casa quando criança e com quem tinha uma relação de carinho profundo. Chamada no filme de Cleo (Yalitza Aparicio), a moça é a figura central da obra autobiográfica que se passa no México, no bairro de Roma, no início dos anos 1970. E o período histórico é justamente a segunda coisa importante a se saber para que não haja o julgamento que possa considerar o filme exagerado e estereotipado. Roma se passa no início do governo de Luis Echeverría, que assume depois do México ter sido governado por muitos anos por um único partido, uma espécie de ditadura camuflada. Com todo esse clima começaram a surgir manifestações estudantis que demandavam várias reivindicações, dentre elas, a democratização da educação e a libertação de presos políticos. Nesse contexto, durante uma passeata, acontece uma passagem importante no filme que ficou conhecida historicamente como o Massacre de Corpus Christi ou “Halconazo”, quando morreram mais de 120 pessoas atacados por paramilitares – jovens, de bairros pobres – financiados pelo Estado. De acordo com versões de sobreviventes, os conhecidos como “Los Halcones” usaram, além de armas de fogo, bastões e varas de bambu empregadas na arte marcial japonesa kendo. Guarde toda essa informação, pois o acontecimento é retratado no filme de forma hiper-realista e aponta para uma das cenas mais comoventes (dentre várias), deixando evidente, mais uma vez, a pesada mensagem sobre desigualdade social que permeia toda a obra.

Por fim, vale entender a intenção do diretor com Roma. A produção acompanha não só Cleo, mas a mãe, Sofia e quatro irmãos de diferentes idades em uma casa grande, de classe média alta, a partir das memórias infantis do pequeno Cuarón. Deslumbrante visualmente (Cuarón também assina a direção de fotografia), o filme conduz o espectador por planos brilhantes, cheio de travellings (movimentos em que a câmera se desloca no espaço para descrever um ambiente) que funcionam como um mergulho na vida da família e de seus sofrimentos, especialmente nos de Cleo. E, justamente por trazer uma estética tão cuidadosa, há uma exigência maior, uma expectativa por parte do espectador em relação ao roteiro. Não que ele não traga uma boa condução da história, mas espera-se um algo a mais… um sentido maior para todo o drama e para onde ele conduz. Mas Cuarón, também um dos roteiristas, mantém a intenção de deixar fluir a narrativa como uma crônica infantil, sem grandes pretensões, sem grandes interferências, sem lições de moral. Roma é uma experiência muito mais sensorial (algo bem oposto do que as grandes produções americanas do catálogo da Netflix fazem). Exatamente por isso o diretor não entregou roteiro ao elenco ou à equipe. Apenas explicou a história, as intenções e filmou em ordem cronológica, ou seja, na ordem dos fatos, o que não é comum em produções cinematográficas.

Recheado de simbologia (os aviões, o cinema dentro do cinema, os cachorros e os cocos etc.), Roma trata das diferenças sociais, do amadurecimento, da empatia e, principalmente, a violência e o amor nas relações humanas. Muito menos para compreender e resolver toda a problematização. Muito mais para refletir e sentir. Como olhar para uma fotografia no porta-retratos da casa dos avós e suspirar por uma nostalgia não vivida.

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Crítica | Democracia em Vertigem

Um documentário sobre lembrança e reavaliação no país da memória-curta

Uma impressão arriscada sobre esse doc: embora Democracia em Vertigem (2019) responda a uma perspectiva igualitária e progressista, não se trata de um documentário “de esquerda”. Dependendo das convicções políticas de quem assiste, ele pode soar como uma ode ao triunfo ou um canto triste de derrota. E é justamente aí que mora a beleza desse trabalho dirigido, roteirizado e narrado pela cineasta Petra Costa e disponível agora na Netflix para mais de 190 países. Vai vendo.

Ao longo de seus 120 minutos, o filme vai desfiando os últimos anos da política brasileira a fim de entender como a nação da cordialidade e da hospitalidade se transformou no irreconciliável Fla x Flu ideológico que não se via há tempos. E a Esplanada dos Ministérios dividida em barricadas na decisão sobre o impeachment de Dilma Rousseff é o quadro que Pedro Américo pintaria nesses tempos loucos.

E tome lá o sinuoso dessa retrospectiva, catalogada com esmero pela montagem que recorre a imagens ainda muito frescas na lembrança dos brasileiros. A cadência dá espaço suficiente a cada evento, respira entre o alvoroço, passeia pelos salões vazios do Palácio da Alvorada numa quase-poesia que permite um tempinho para refletir (o tom de voz de Petra também contribui para esse efeito). E envolve toda essa linha do tempo com um ponto de vista muito particular: a relação pessoal da cineasta com a política e como sua família fez parte desse processo.

Ao misturar as esferas pública e privada na narrativa, Democracia em Vertigem abre o precedente para que o próprio espectador também o faça. E é só lembrar os núcleos familiares que começaram a ruir nas eleições de 2014 e vieram abismo abaixo na última visita às urnas – a identificação é imediata, afinal, em maior ou menor escala, todo mundo viu rachaduras nas paredes de casa.

Além disso, ao arrastar o discurso para a prerrogativa pessoal, Petra Costa evita o veredito, deixando as conclusões para o público. E o material é abundante entre entrevistas e discursos históricos . No país da memória-curta, Democracia em Vertigem surge como um documento poderoso de lembrança e reavaliação. Um tratado que tenta entender as polaridades que, vá lá, sempre existiram. Ao final, o texto aponta para o futuro sem fazer ideia do que vem de lá. Alguém faz?

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Crítica | X-Men: Fênix Negra

Ainda que abordasse um dos arcos mais grandiosos do universo de super-heróis, X-Men: Fênix Negra consegue a proeza de ser superficial.

Um desfecho à altura do carinho que os fãs têm pela franquia X-Men era tudo que o público esperava. Não importa quantos filmes dividam opiniões, sempre houve uma multidão a espera de um impacto de verdade quando o assunto era um novo filme dos mutantes. Logan (2017) até deu esperanças e tudo que X-Men: Fênix Negra não podia fazer era decepcionar. E decepcionou.

Veja bem, toda impressão é relativa. A palavra decepção é forte e nós sabemos, até evito usar, mas em relação a esse arco tão marcante da história dos alunos de Xavier, já tivemos outras experiências bem-sucedidas em animações e quadrinhos. Agora, com todo suporte tecnológico, de mídia e com a Disney na cola, a Fox parecia estar com a faca e o queijo na mão para entregar um filme com uma linha de raciocínio muito mais poderosa.

X-Men: Fênix Negra é ambientado em 1992, os mutantes já eram considerados heróis nacionais e, durante uma missão espacial, Jean Grey (Sophie Turner) é atingida por uma poderosa força cósmica, que acaba absorvida em seu corpo. Após ser resgatada e retornar à Terra, aos poucos ela percebe que há algo bem estranho dentro de si, o que desperta lembranças de um passado sombrio e, também, o interesse de seres extra-terrestres.

A estética e a técnica de efeitos do filme estão impressionantes, questionável, mesmo, só as decisões de Simon Kinberg em – sem querer, acredito – acabar diluindo a força do arco da Fênix em cenas menos intensas do que o pretendido e com a inserção desnecessária de Jessica Chastain no elenco. O drama de Jean Grey não precisava dividir atenção com mais ninguém e tinha potência o suficiente para ser muito mais ameaçadora.

Ao tentar ser original, Kinberg desperdiça o argumento da força cósmica que habita Jean, que nos quadrinhos até funcionou como uma metáfora ao abuso de drogas. O poder Fênix, que se torna parte da intimidade da personagem, faz com que ela perca a noção de poder e acabe machucando todos ao redor. Esse sub-texto não consegue se desenvolver porque há uma alienígena desviando o rumo da trama, reduzindo ao argumento aos traumas da infância de Jean. Xavier, e até Magneto, poderiam ter sido melhor aproveitados neste conflito, visto que ambos lidam com poder, vaidade e raiva.

Essa despedida dos X-Men da Fox, depois de 11 filmes, não foi das piores, claro, mas falhou no objetivo de ser grande e de dar argumentos que dessem sentido proporcional ao surto da protagonista. A partir de agora, o bastão está com a Disney e o futuro dos mutantes a ela pertence. X-Men: Fênix Negra ficará no passado como uma relíquia. Só nos resta esperar.

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Crítica | Toy Story 4

Quase uma década depois, Toy Story retorna e já é avaliado pelo público como o melhor filme da franquia.

Desde Up, Altas Aventuras, a Pixar deve ter uma pessoa por lá cujo cargo seria algo como “editor analista de roteiro especialista em fazer a audiência chorar”. E esse profissional fez um ótimo trabalho em Toy Story 3, Divertidamente, Viva (nesse ele estava muito empenhado) e agora Toy Story 4. Brincadeiras à parte, fato é que a nova animação da franquia de Woody e seus amigos é, talvez, a melhor da série.

É verdade que há o carinho pela surpreendente criatividade do primeiro, a profundidade narrativa do segundo e o sentimentalismo adorável do terceiro. Mas Toy Story 4 alcança uma maturidade diferente, com todos esses elementos dos anteriores e que construíram a força da franquia, somados a recursos técnicos bem impressionantes. A própria reação do público, inclusive, tem demonstrado o quanto o longa é especial. Até agora, Toy Story 4 possui 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e uma surpreendente nota 9,1 no IMBD.

Mas, calma. Mantenha sim as boas expectativas, embora não se esqueça que estamos tratando aqui de uma fórmula já vista outras vezes, ou seja, uma história doce, recheada de bom-humor e com um nível de sensibilidade intenso. Por isso, não espere grandes surpresas e desconstruções maravilhosamente inventivas. Espere por momentos simpáticos e com mensagens contemporâneas valiosas – como o empoderamento feminino, respeito às diferenças e a coragem em aceitar o tempo das coisas, sejam despedidas ou chegadas.

São nove anos desde o último filme da série e, por isso, logo nos créditos iniciais de Toy Story 4 há uma espécie de recorte rápido em retrospectiva para nos lembrar em que momento da história os bonecos estão agora, já que Andy cresceu e doou seus amigos à pequena Bonnie. Ela agora é a dona e quem decide os brinquedos que farão parte da brincadeira e os que ficarão no armário, a um passo do esquecimento. Quando a menina vai para o seu primeiro dia de jardim de infância, Woody se infiltra em sua mochila para ver como ela se sairá.

De volta ao quarto, Woody sai da mochila de Bonnie e apresenta um novo colega: Garfinho – fanfact: o personagem foi desenvolvido por Cláudio de Oliveira, brasileiro que faz parte do time da Pixar. Por não ter conseguido interagir com outras crianças, a menina encontra no lixo uma forma de fazer sua própria brincadeira e constrói um boneco feito de garfo plástico, pés de palito, olhos de boneca e braços de arame. Responsável pelos momentos mais engraçados do filme, Garfinho não entende que é um brinquedo e tampouco enxerga sua importância para a garota como o responsável pela sua fase de adaptação e o impulso para sua potencial criatividade.

Mas Woody sabe e tenta, de todas as formas, fazê-lo compreender os motivos para ficar próximo a Boonie. A aventura começa quando a família vai viajar e Garfinho se atira do motor home para buscar a felicidade em algum lixo, enquanto Woody parte para o salvamento. A situação se complica quando o talher desengonçado se torna refém de uma boneca dos anos 1950 em um antiquário. Quem ajudará a turma na missão é a Betty, cuja aparição é surpreendente e importante. A boneca pastoreira, ex par romântico de Woody, reaparece, alguns anos depois de ter sido doada, como uma personagem feminina forte, empoderada e que toma a frente do plano de resgate.

Em Toy Story 4 os personagens humanos tem participação secundária, assim como nos longas anteriores (exceção ao primeiro filme), mas não funcionam apenas como escadas para o andamento da trama. É a humanidade da pequena Bonnie e o seu desenvolvimento infantil que ajudam a convencer o público e a justificar os objetivos a serem cumpridos por Woody e os demais. Todo o ponto de vista do enredo, porém, se desenrola nas ações e sentimentos dos brinquedos – óbvio – e são tão autênticos, que deixam uma série de produções Hollywoodianas atuais parecendo pequenezas dispensáveis. 

A paixão pela qual o longa foi feito passa também pelo cuidado estético da animação. As luzes, sombras, profundidade (prestem atenção nos takes de câmera quando um boneco está em primeiro plano e olhando à distância para algo, como a cena do salto de Duke Caboom no parque de diversões), expressões e tantos detalhes técnicos são o ápice da perfeição alcançado pela Pixar.

Há, então, quem achará que o desfecho foi criado propositalmente para impactar os corações moles (como o meu), já que o caminho escolhido por um dos personagens (sem spoiler), de certa maneira, contraria uma bela lição que ele próprio usa como lema de vida. Mas, se você não for do tipo crítico chato e problematizador de emoções, prepare o lenço e deixe que o tom de despedida de Toy Story 4 lhe faça derramar umas lagriminhas piegas. Afinal, foi para isso que a Pixar contratou aquele profissional incrível especialista em causar choro em adulto.

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