Crítica | Roda Gigante





03/01/2018 - Atualizado às 21:19


À primeira vista, a história que Woody Allen quer contar em Roda Gigante (Wonder Wheel, 2017) é muito familiar para outros de seus filmes: outra vez os temas de traição, sonhos frustrados, flerte com a máfia, menções a era do rádio, alguma criança fascinada por filmes como era o próprio Allen na infância. O que traz um relevo diferente é o que descola esses argumentos da monotonia da vida privada: temos aqui uma família vivendo num parque de diversões, num bangalô instalado acima da barraca de tiro ao alvo (!), em plena Coney Island dos anos 50. Some-se a isso o desempenho do elenco. Mas a gente chega lá.

Quando Mickey (Justin Timberlake), um salva-vidas e aspirante a escritor, abre o filme encarando a câmera e explicando a importância do melodrama naquela história, o roteiro tem a licença necessária pra levar seus personagens aonde quiser. E daí, nós brasileiros, conhecemos bem a cartilha. Não há mídia que aplique melhor o melodrama que as telenovelas – e o plot de Roda Gigante provavelmente vai te levar direto pra alguma coisa que Manoel Carlos já escreveu (não disse qual).

A maior habilidade do filme é conjugar esses ingredientes um tanto quanto gastos num crescendo que exige, a cada evolução, mais de seu elenco. E é claro que Kate Winslet tem o que é preciso. Ela consegue desenhar Ginny, essa mulher de quase 40 anos, torturada por escolhas erradas e oportunidades perdidas, presa num casamento que só existe por conveniência e que encontra um feixe de esperança no caos. Todas as amarguras estão lá, em cada mexida pra ajeitar o cabelo, cada respiro profundo e mesmo quando ela bate acidentalmente a cabeça no lustre da mesa e, com cuidado, o faz parar de balançar.

Visualmente, Roda Gigante também é um primor – como era de se esperar vindo de um cineasta com tanto tempo de estrada, certo? O parque de diversões é praticamente um personagem dentro da história, as luzes de seus brinquedos banham as cenas com um colorido saturado cujos tons parecem acompanhar o clima dos diálogos, variando entre o quente e o frio. E depois, é interessante pensar no contraste entre aquele ambiente de tanta felicidade e, logo ali, no bangalozinho, os dilemas enfrentados por aquelas pessoas.

Embora o resultado não traga o frescor de Café Society ou Magia ao Luar (só pra citar trabalhos mais recentes) é sempre bom ver Woody Allen, agora da altura dos seus 81 anos, arrancando graça da loucura que é viver – e se tiver tanta beleza e Kate Winslet dando show, só dá pra torcer pra a aposentadoria do cineasta não vir tão cedo.