Crítica | Resident Evil 2 (Remake)

Crítica | Resident Evil 2 (Remake)

A onda dos remakes parece não findar, e a razão não poderia ser outra: LUCRO FÁCIL. Aliás, o resgate da nostalgia, reformulada para a nova geração, soam como parte da fórmula ideal para garantir a atenção dos jogadores. E muitos destes casos cumprem a sua básica missão: ser um jogo equivalente ao clássico, redefinido para os gráficos e outros recursos audiovisuais da atualidade. Mas vamos à sinceridade, muitos não vão muito adiante desta base ou de seu aparato financeiro e acabam sendo o mesmo… do mesmo.

Portanto e felizmente, esta prática pode estar com os dias contados após Resident Evil 2.

Não há para onde correr: um clássico é um clássico e como dito, como parte do costume, quando se trata de um remake, esperamos o equivalente ao original, sem muitas mudanças ou muito menos adições. Com isso, muitos devem ter imaginado que este seria o caso do aguardado remake de Resident Evil 2, lançado à pouco tempo para PC, Xbox One e PS4? Bem, pensaram errado.

REINVENTANDO O CLÁSSICO

Para começar, um jogo de terror, não seria aterrorizante se tudo fosse previsível para os jogadores. Neste caso, os afortunados por terem jogado o Resident Evil 2 original não seriam surpreendidos com o novo título, certo?

Seguindo esta lógica, a Capcom determinou: devemos mudar algumas coisas, criar novas surpresas e ameaças, inserir locais inéditos, puzzles diversificados e tudo que possa surpreender tanto os novos como os antigos jogadores.

Bem, pelas entrevistas dos produtores de desenvolvimento do jogo, esta realmente foi a fórmula adotada para criar o majestoso remake, que aliás não se preocupem, apesar das adições e alterações citadas, respeita com cautela a essência do original. Só que para incrementar a receita, potencializa e deixa tudo que já era bom, ainda melhor!

Os gráficos, como se esperava, estão a par da nova geração! Mas deve-se tirar o chapéu principalmente para os efeitos sonoros, luminosos e temporais, resguardados principalmente a chuva incessante, que dá um peso maior ao horror e até a dramaticidade do enredo.

A HISTÓRIA TAMBÉM ESTÁ NOS DETALHES

Por falar em enredo, rapidamente, sobre o que o jogo se trata? Leon S. Kennedy é um jovem policial ansioso para o seu primeiro dia de trabalho no Departamento Policial de Raccoon City (RPD), mas em vez de deparar-se com usuais infringidores da lei, ele acaba encontrando uma cidade infestada por zumbis. E em meio do seu caminho, ele conhece Claire Redfield, uma jovem estudante a procura do seu irmão, Chris, ninguém menos que o protagonista de Resident Evil 1 e de muitos outros jogos da franquia. De todo o modo, Leon e Claire, juntos por pouco tempo, separam-se, após um acidente e marcam de se reagruparem depois na RPD e descobrir o que está acontecendo na cidade.

Dito isso, vamos ao ponto seguinte: detalhes, detalhes nunca são demais! A sua implementação com base no realismo e no bom senso-comum, auxiliam na imersão e às vezes ao próprio entendimento da história do jogo. Para exemplificar: Um vaso de vidro quebrado em um canto da sala pode sinalizar que houve alguma confusão por ali, se o jarro continha água e o chão ainda se encontra umedecido, pode-se dizer que a confusão não aconteceu há muito tempo, certo?

Bem, onde eu quero chegar? No remake de Resident Evil 2, os cenários, por exemplo, expandiram o seu papel, como a boa tecnologia hoje permite. Não são simplesmente mais belos. Agora, estes contém uma quantidade absurda de detalhes, cada qual com a função de deixar rastros de que foram palcos de acontecimentos prévios do jogo. Uma barricada exemplifica os esforços e tentativas de conter a ameaça zumbi; os enfeites de boas-vindas acentuam os preparativos e a ansiedade dos colegas com a chegada do novo membro de equipe; ou uma porta emperrada, que graças a uma planta mutante, demora a ser aberta.

A história também está nos detalhes!

Mas caso você não se importe muito para isto, ou está ocupado demais tentando sobreviver, as cinemáticas propriamente ditas estão ali para provar estas melhorias. Claro, isto é outro pronto que se é esperado de um remake, mas a reimaginação do título novamente vai além do usual.

A dramaticidade e os aspectos cinematográficos emprestados de Hollywood engrandecem ainda mais o jogo. Algumas mudanças, aparentemente sutis, realmente dão um peso a mais. Há alguns momentos melancólicos, dramáticos, de cortar o coração, que aliados as atuações majestosas de todo o elenco, principalmente vindo de Claire, Leon, Ada e Annette, elevam a franquia a um novo patamar. Aliás, nunca antes Resident Evil esteve tão próxima da linguagem cinematográfica!

GERENCIAMENTO E EXPLORAÇÃO

Quanto a jogabilidade, este, quando comparado ao original, sofreu mudanças significativas, mas posta em paralelo com os lançamentos recentes, como Resident Evil 7, não há muitas novidades. Em brevidade há: Coleta de itens, entre essenciais para a progressão do jogo; e suprimentos, para bala ou recuperação de saúde. Também há arquivos espalhados detalhando ainda mais a história do jogo, ou fornecendo dicas sobre os enigmas ali presentes.

Os zumbis, classificados hoje como genéricos, visto o uso desenfreado de suas imagens em qualquer shooter genérico, voltam finalmente a aterrorizar. Em Resident Evil 2, eles retornam imprevisíveis, difíceis de serem neutralizados e muita das vezes surgem de surpresas dos cantos mais escuros e inimagináveis possíveis.

Aliado a isto, o gerenciamento de recursos e exploração são as palavras-chaves para a sobrevivência no jogo, nem sempre confrontá-los é a melhor solução. Por outro lado, esgueirar-se entre eles e acumular inimigos vivos (ou mortos?) pelos cantos de Raccoon pode não ser uma boa ideia. O jogador deverá avaliar as suas opções, recursos e habilidades e decidir o que será melhor para a sua jornada. Sentiu esse gostinho do clássico?

No mais, vale ressaltar a figura colossal e grotesca que já está por aí conquistando a internet, o Mr. X. O vilão, curtamente abreviado apenas como tirano em jogo, era um tanto tímido (ou quase) e mais pontual no original. Aqui as coisas mudam, o grandão ganhou um papel significativo com perseguições incessantes e muitas vezes irritantes, mas por justa causa. Além do mais, o seu papel é justamente aterrorizar e dificultar a nossa jornada. Trabalho concluído com sucesso, amigo!

A melhor parte de tudo é que lidamos com o tirano na base do raciocínio lógico, ou instintivo. Aprendemos, aos poucos, diante dos encontros, a lidar com a figura. Seja escapando, esgueirando-se por ele, despistando-o, ou mesmo prevendo as suas ações. Nem sempre é fácil, nem sempre é simples. Mas utilizando as palavras-chaves ditas anteriormente e possuindo um bom lote de paciência, a jornada se torna mais ‘leve’ e ‘acessível’.

ENTRE OS ACERTOS, OS ERROS…

Até aqui parece tudo perfeito, certo? Mas, infelizmente, nem tudo é flores. O remake ideal tem lá seus defeitos.

Para começar, as jornadas de Leon e Claire, são mais opostas e contraditórias, do que complementares. Tudo bem que no original a lógica era a mesma. Porém, tratando-se de todas as novidades postas na mesa, seria a oportunidade para a Capcom explorar o conteúdo e enredo complexo do jogo. Além disso, as campanhas, apesar de sofrerem mudanças entre si, algumas bem geniais por sinal, acabam sendo escassas e no bruto, iguais.

Os novos conteúdos pomposamente anunciados pela Capcom, que dizem respeito às novas locações e as seções exclusivas com Ada e Sherry, também não brilham como deveriam, Apesar de divertidas e interessantes, são rápidas, objetivas, com baixo potencial de exploração e não revelam nada a mais sobre o enredo que a gente já não saiba à parte.

No fim, nesses aspectos, o gostinho de quero mais ainda reside na boca.

VEREDITO

Infelizmente, isso não reduz o trabalho excepcional exibido em jogo, a qual, mais uma vez, demonstra a razão de Resident Evil ser uma das franquias mais amadas e consolidadas na indústria gamer.

Por fim, o jogo não só exemplifica a maestria da Capcom como desenvolvedora, mas também ensina aos demais colegas como se reinventar e reimaginar um clássico amado. Também nos revela como trazer à luz do dia, um jogo sombrio, aterrorizante, que incorpora uma trama complexa, satisfatória, engajadora, aliada de atuações e recursos audiovisuais dignos do cinema.

Relacionadas