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Crítica

Crítica | Rare – Selena Gomez

‘Rare’ é marcado por uma lírica honesta, mas tropeça em seu desenvolvimento.

Na discografia de muitos cantores, há sempre uma obra que se destaca pela sua característica econômica, um processo de desaceleração em relação às produções anteriores. É o típico momento em que o artista, após provar o sucesso comercial e da crítica, resolve dosar a fórmula que tanto lhe garantiu tal êxito. Em ‘Rare’, terceiro álbum de inéditas da norte-americana Selena Gomez, a cantora se propõe traçar esse mesmo percurso, mas, aqui, ela adota esse processo para falar de suas fragilidades.   

Selena entrega logo na arte que ilustra a capa do novo trabalho a postura suncita, com pouca maquiagem, livre de adornos e de toda a produção que sempre a acompanha. A cantora resolve se despir dos filtros de outrora para se abrir ao público e expor as experiências de relacionamentos conturbados e de como esqueceu de si mesma em meio a tudo isso.

‘Rare’, faixa-título, abre o álbum de forma exitosa. São instantes de um pop que se destaca pela estrutura singela, construída pelo baixo que domina boa parte da melodia, uma percussão étnica e uma tênue atmosfera de devaneio, onde os versos de Gomez se incubem de torná-la tangível. “Sempre do seu lado/ E você não faz o mesmo / Isso não é justo”, canta, consciente da não reciprocidade amorosa.

E o catálogo de canções segue narrando a trajetória de redescoberta de Selena, caso de ‘Dance Again’. Durante a canção, as guitarras desenvoltas e o teclado pontual dão base para que as batidas acompanhem os versos que marcam o novo começo de Gomez após uma relação difícil. Já as faixas seguintes, ‘Look At Her Now’, ‘Lose To Love Me’ e ‘Vulnerable’, talvez sejam o maior trunfo do registro, pois além de serem as composições mais interessantes do disco, é o clímax do pop econômico trabalhado por Selena e seus produtores.

Contudo, já em ‘Ring’, o disco dá os primeiros sinais dos tropeços que serão apresentados no decorrer da audição. A faixa se perde em meio ao catálogo por não mostrar um desenvolvimento durante sua execução. ‘People You Know’ acaba no mesmo erro, tonando a experiência de continuar obra cada vez mais desestimulante. E nem o repeteco do R&B lascivo, tão explorado em ‘Revival’ (2015), consegue deixar ‘Crowded Room’ atrativa.

Ainda que abra o disco de forma assertiva, ‘Rare’ logo perde o seu rumo. O trabalho de Selena e sua produção em dar vida a uma obra mais honesta, onde a cantora fale abertamente sobre seus sentimentos, desanda pelo vício no uso de fórmulas pré-fabricadas, facilmente encontradas em qualquer álbum pop da década passada. Conforme os minutos de duração vão finalizando, o quê poderia ser promissor se encaminha para algo esquecível.

‘Rare’ pode não ter entregado o melhor momento da carreira de Selena Gomez, mas, com certeza, é um dos mais sinceros. A obra pode ser vista como os primeiros passos da cantora na busca pelo amadurecimento artístico, explícito aqui na lírica das 13 canções que compõe o disco. Agora, resta torcer para que esse amadurecimento esteja presente nas melodias de futuros trabalhos.   

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