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Crítica de Filme

Crítica | Projeto Gemini

Que é isso, novinho? Mesmo sendo muito mais interessante pela forma que pelo conteúdo, novo filme de Ang Lee deixa sua marca na linha evolutiva do Cinemão

Com certeza você já passou por isso: foi rever um filme que te parecia impecável na época e só agora você nota que os efeitos visuais eram, na verdade, bem capengas. Isso certamente acontece porque temos como referência o que vem sendo feito no Cinemão de hoje em dia. É claro que alguns filmes sobrevivem melhor ao teste do tempo que outros, mas de todo modo, a linha evolutiva da tecnologia a serviço da Arte se movimenta constantemente – agora mesmo enquanto você lê esse texto. Em Projeto Gemini o mestre Ang Lee nos traz outra novidade. Vai vendo.

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Antes de qualquer coisa é importante brindá-lo com uma informação que talvez você já tenha: Ang Lee se juntou a expertise de Jerry Buckheimer para blockbusters atribuindo a Projeto Gemini (Gemini Man, 2019) o apelo popular de que esse filme carecia. (Veja, é um thriller de ação com assassino cansado de labuta e doido pra se aposentar. Ou seja: genericaço). Tudo porque a tecnologia empregada aqui oferece uma experiência de 3D nunca antes vista: rodado a 120 frames por segundo (muito mais que os 24fps tradicionais) o filme é um tapa de altíssima resolução e uma limpidez de imagem que vai deixar qualquer aficionado por hidef abestalhado.

E pra quem reclama da imagem escurecida do 3D tradicional: não há diferença nenhuma de iluminação com ou sem os famigerados oclinhos. Nesse sentido, o visual é impactante do começo ao fim. Lastimavelmente, entretanto, é crucial destacar que aqui no Brasil gozaremos apenas da oportunidade de ver Projeto Gemini em 4K 3D+ HFR (e tome sigla) em 60fps – em virtude da falta de equipamento capaz de suportar a tecnologia empregada nesta ousadérrima película. Mesmo sendo metade do concebido por Ang Lee, a experiência ainda é muito incrível. A título de comparação, Peter Jackson fez esse exercício em 2012 com O Hobbit em 48fps e o choque foi algo.

Ainda há outro atributo técnico distinto nesse filme que é a mágica do rejuvenescimento, cada vez mais apurada e assustadora. Will Smith é um assassino de elite a serviço da inteligência americana que, por ser o “agente que sabia demais”, precisa ser exterminado. Driblando spoilers, o homem de 51 anos se vê diante de uma versão dele mesmo, trinta anos mais jovem. O variante ‘Um Maluco no Pedaço’ resgatado dos anos 90 na base do murro tecnológico é interpretado por ele mesmo, lógico, rebocado por toneladas de truques digitais. E, ainda que o resultado não seja impecável, em alguns momentos rela na perfeição e aponta para as infinitas possibilidades que esse recurso pode proporcionar para o futuro dos filmes.

Devido a HFR (high frame rate) empregado aqui, Lee precisou economizar nos planos e cortes para evitar incômodos visuais (e o público bem que reportou desconforto com O Hobbit devido a isso, quem viveu sabe) o que acabou rendendo pelo menos alguns momentos bem impactantes. Destaco aqui toda a sequência envolvendo uma perseguição de motos, passando pelas ruas estreitas da Colômbia, tirando fino dos carros. O realismo impressiona e os movimentos de câmera, notadamente mais fluidos sem o ruído dos picotes comuns de sequencias de ação, acabam maximizando a sensação de urgência na cena.

Tendo sido dito tudo isso, o calcanhar de Aquiles aqui fica justamente por conta do roteiro. Não fosse a insinuação existencialista contida num cenário onde você tem a oportunidade de conversar com uma versão mais jovem de você mesmo (o que você diria?) a premissa é bem genérica, como o atento leitor já catou lá no começo do texto – inclusive chegando a ser previsível em vários níveis. E aí o caráter hipnótico do 3D+ 4K HFR (!) só consegue cobrir até certo ponto.

Mesmo assim, o fato é que Projeto Gemini aponta para o futuro. Com que outras bruxarias incríveis a tecnologia ainda há de nos surpreender, pra que possamos rever tais filmes tempos depois, julga-los obsoletos e em seguida nos surpreendermos com tantos outros? A saber.

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Crítica de Filme

Crítica | Parasite (2019)

Filme nos provoca sobre nosso próprio parasitismo social.

Planejar é um ato falho. Bong Joon-ho propõe uma reflexão – em cima de uma crítica – ao nos contar a história da família Ki-taek. Talvez eles possam ser encarados como a escória da sociedade, talvez ele sejam mesmo (ou talvez não). Isso porque se compararmos sua afetividade em relação aos Park, a outra família retratada em Parasite (2019), é nítido que o laço construído entre os Ki-taek é correspondente entre todos os membros.

Retratando duas facetas da sociedade sul-coreana, naquilo que seu repertório lhe proporciona, o diretor entrega um diálogo audiovisual muito intenso. A todo momento os Ki-taek estão aplicando ou revisando conceitos pragmáticos filosóficos e sociológicos em seus atos sórdidos de charlatanismo que não nos horrorizam (embora devessem), mas sim arrancam gargalhadas nas primeiras horas do longa-metragem. A parte mais engraçada nisso tudo é que você não consegue terminar o filme rindo (com exceção de um único personagem que na contramão do nosso estado havia iniciado o filme sem esboçar sorrisos).

Para a Biologia o parasitismo é a “interação entre duas espécies, na qual uma delas, o parasita, se beneficia da outra, o hospedeiro, causando-lhe danos de maior ou menor importância, mas raramente a morte“. Bong Joon-ho entrega a nós uma história que não escapa em nenhum momento dessa definição, a não ser pelo fato do parasita (ou dos parasitas) serem racionais o suficiente para conceber a própria imoralidade, julgá-la e aceitá-la. E aqui fica um questionamento sobre quem de fato é o parasita: o pobre que vive sobre a sobra dos sobejos dos ricos, ou os ricos que nem se dão conta do qual organizados são os pobres dentro de seu próprio território.

Com planos lentos e câmeras com movimentação contemplativas, a fotografia do filme está sempre ressaltando as diferenças entre as duas famílias (os Ki-taek e os Park), por meio de ângulos e linhas “invisíveis” na tela reforçando os esteriótipos delineados no filme. Obviamente que a proposta aqui não é a a aceitação desses esteriótipos, mas sim torná-los nítidos para o espectador. Cabe então a este fazer a observação do quão as diferenças preexistentes escondem semelhanças nos dois grupos, que se julgam distantes por maniqueísmos construído pelo status e o dinheiro. Enquanto um julga por considerar inferior e sujo, o outro julga por considerar superior e limpo demais. Não apenas na aparência, mas no comportamento. Julgar é o ato falho de maior semelhança entre humanos.

Parasite (2019), embora não seja sobrenatural, dialoga com o elemento da causa e efeito e nos entrega uma montagem que dinamiza a ação quando é necessário que vivenciemos ela. É na cena da inundação na casa dos Ki-taek, no porão de um prédio no subúrbio, que essa montagem fica mais acentuada a partir do link desagradável entre os vasos sanitários dos dois porões (o dos Park e dos Ki-taek). Uma montagem que remete ao mórbido quando tomamos o clímax do filme.

É nessa balança entre cômico e suspense, lentidão e ação, limpo e sujo, que Parasite (2019) se constitui num conjunto reflexivo sobre nós mesmos, que parasitamos os outros e nós mesmo a partir de um canal universal: os planos. O tragicômico dá lugar a um realismo introspectivo, pois não há momento algum após a experiência de ver o filme que você não se pergunte o quanto já se tornou o parasita de alguém.

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Crítica de Filme

Crítica | Frozen II

Sequência do sucesso da Disney é boa, mas não tanto.

“Você quer brincar na neve?”. Talvez esse não fosse o tipo de situação que se esperava da sequência de Frozen (2013). Pelo menos os trailers já nos levavam a crer nisso. Contudo, mesmo com a expansão da trama e as muitas referências, Frozen II (2019) nem de longe é tão bom quanto o primeiro (e veja bem, esse que vos escreve não gostou do primeiro filme).

Há aqui um certo conflito na hora de escrever essa crítica, pois não dá para dizer que o longa-metragem animado é um fiasco. Muito pelo contrário! O filme é lindo, fluido e em certa medida emocionante. O problema é que ao esperarmos pelo fascínio que fez de Frozen um fenômeno mundial não percebemos a mesma sensação ou mesmo algo de novo.

A fórmula Disney está ali e a originalidade do roteiro (em cima do clássico A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen) evoca muito bem as protagonistas Elsa e Anna em suas próprias jornadas. Seus tempos de tela são muito bem equilibrados e suas façanhas e dilemas balanceados com êxito. Tanto que a pouca presença de Kristoff e Sven não diminui em nada os seus papéis na trama. Olaf, como sempre é um ótimo escape cômico (e Fábio Porchat nos deleita com sua atuação icônica na versão dublada). Contudo…

Naquilo que se tornou o ponto alto da franquia Frozen, as canções, o sentimento deixa muito a desejar e nenhuma chega a impactar como Let it Go (Elsa) ou Do Want to Build a Snowman? (Olaf) fizeram se tornando hits. Está certo que ainda é cedo para afirmar isso, mas se considerarmos que o filme chegou ao Brasil mais de um mês depois da estreia nos Estados Unidos é possível medir a pouca atenção dada pelo público às faixas do novo filme e tentar cravar essa ideia de que a trilha sonora não cativou. Mas não é uma perda total!

Pela minha experiência posso afirmar que a canção mais legal do novo filme (Lost in the Woods) é justamente daquele com menos tempo de tela (Kristoff) que possui um forte elemento romântico a la Peter Cetera ou Bryan Adams (ao menos é a impressão que fiquei). É um dos momentos mais legais das cenas musicais da animação.

Assim, Frozen II entrega uma história bem profunda e que fortalece as suas protagonistas, mas não consegue manter a essência do primeiro filme quanto ao envolvimento do público com as canções e a própria trama em si (mesmo sendo reveladora de segredos). Antes do clímax a história acelera demais e não se sustenta muito. Também não deixa a certeza de que teremos um terceiro filme, que caso venha pode ser mais um erro que um acerto para a franquia.

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Crítica

Crítica | No Game No Life: Zero

Animação já está disponível na Netflix.

Amor. Essa é a palavra que define o roteiro de No Game No Life: Zero, filme recém-chegado no catálogo da Netflix, mas que deu as caras em 2017 nos cinemas japoneses. A animação é uma prequela do animê homônimo de 2014, que por sua vez é adaptado da light novel escrita pelo nipo-brasileiro Yuu Kamiya.

Falar sobre esse filme desconsiderando a narrativa da série de TV é muito fácil e muito bom, pois o filme dirigido por Atsuko Ishuzuka e roteiro de Jukki Hanada apresenta uma consistência fluída e chega a ser muito cativante em diversos momentos pela forma como insere elementos tão reflexivos como a aceitação pessoal, o altruísmo, a mágoa e o amor.

Recontando de forma a evocar um quê de épico ao fatídico fim da Grande Guerra de 6 mil anos atrás no mundo de Disboard, o filme nos apresenta o imanity, Riku Dola, e a ex-machina, Schwi, que se reúnem primeiramente sem um propósito tão válido (se desconsiderarmos as escolhas de Schwi enquanto uma máquina) até chegar num clímax intenso.

O filme tem muitas referências que servem de gancho para os apreciadores da franquia entender os eventos do presente. Um desses links nos fazem até mesmo odiar uma personagem querida quando somos confrontados com seus atos naquela época.

Mas falemos de amor. Mesmo que a história nitidamente careça de elementos mais significativos para seu desenvolvimento, a relação estabelecida entre o casal de protagonistas é profunda e nos permite refletir sobre o poder do perdão e a força do amor. Não importa quem você é, o que importa é que quero estar ao seu lado. Nas entrelinhas ou diretamente essa é a mensagem que é joga na tela. Animações que seguem essa premissa sempre são bem recebidas, pois trabalham o visual com uma proposta mais reservada ao sentimento do espectador.

No Game No Life: Zero é a adaptação direta do volume 06 da light novel de Yuu Kamiya e segue uma construção narrativa bem diferente do restante da obra ao trazer um contexto mais soturno ao universo narrativo. Vale a pena dedicar um tempo para apreciar o filme, mesmo se nunca leu ou assistiu nada de NGNL. Com dublagem em português na Netflix, a animação é aposta do serviço de streaming neste fim de ano.

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