Crítica | Ponto Cego





04/01/2019 - Atualizado às 10:59


Nos últimos anos, temos visto diversos filmes que abordam a temática da discriminação racial através de recortes históricos que procuram investigar suas permanências na sociedade contemporânea. Ao representar a escravidão ou o Apartheid, bons filmes como 12 Anos de Escravidão (2013), Selma (2014) e Estrelas Além do Tempo (2016) expõem a revoltante falta de lógica do racismo e, através de um discurso indireto, apontam o rastro medonho da intolerância nos dias atuais.

Nesse sentido, Ponto Cego (Blindspotting, 2018) é um filme que já deveria existir há tempos. Ao manter o foco na contemporaneidade, o longa do estreante Carlos López Estrada (rico bem novinho) mete o dedo na ferida sem nunca perder o senso do que amplifica o poder da linguagem cinematográfica enquanto uma ferramenta provocativa, inquietante e que conduz o público à reflexão.  

Mas é um trabalho sobretudo consciente de que agitar um vespeiro não é tarefa sutil e por isso busca desviar seu discurso da tentação panfletária que muito provavelmente deixaria o espectador se sentindo alvo de uma lavagem cerebral. O filme consegue mesclar cenas de alta voltagem (como aquela que envolve uma arma na sala de casa) e outras de descontração, já que uma relação de amizade é o que baliza a narrativa. A mensagem é passada de maneira pungente, mas nunca manipuladora.

O roteiro é escrito pelos protagonistas Daveed Diggs (Collin) e Rafael Casal (Miles) baseado na vivência deles mesmos em Oakland, nos Estados Unidos (mas poderia ser no Brasil, repare). E o foco está na diferença de tratamento entre negros e brancos, cuja discrepância define quem é o culpado, quem vai ser preso, quem tem cara de bandido. É uma cadeia de estereótipos que se retroalimenta em violência e é um terreno onde a justiça é volátil demais.

Assim, enquanto Collin vive os últimos dias de um ano em condicional (e a natureza do crime que o levou a cadeia é outro ponto central) ele precisa estar acima de qualquer suspeita, já que a cor da sua pele é por si só, um fator acusatório. Além disso, o amigo de infância, Miles, dono de um temperamento impulsivo, é uma bomba relógio uma vez que eles trabalham juntos e precisam conviver o dia inteiro.  

Há um fator que muda o jogo, mas vamos preservar essa surpresa. Perceba como o filme consegue acumular tantas nuances, a relação de amizade, os privilégios definidos pela cor da pele, a noção de pertencimento a uma comunidade, a força policial (que o filme consegue não generalizar com um toque extremamente sutil). E como ele aponta para a discriminação hipócrita através de uma simples placa que busca deslegitimar a luta alheia: “Blue Lives Matter” (referência à cor da farda policial).

Mude a sua perspectiva, veja dos dois lados. Taí um filmaço.