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Crítica de Filme

Crítica | Pokémon: Detetive Pikachu

A aventura do Pikachu falante é objetiva e bastante divertida.

Nada melhor para o brasileiro que viveu a infância entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 poder celebrar parte dessa etapa da vida revivendo experiências.

Em 10 de abril de 1999 estreava no Brasil a primeira temporada do fenômeno mundial Pokémon. Agora, 20 anos depois, somos presenteados com o primeiro filme em live-action desta franquia de uma forma que reúne nostalgia e criatividade num roteiro prático e bem resolvido.

Essas são as primeiras palavras que reservo a Pokémon: Detetive Pikachu, que adapta partes das narrativas do jogo título lançado para Nintendo 3DS com sua shorter version chamada Great Detective Pikachu: Birth of the New Duo.

Objetivo, o filme reúne os principais nuances não só do jogo título como da franquia inteira em pouco mais de 104 min. Mesclando elementos nostálgicos diluídos em diálogos e elementos de cena, o longa-metragem é praticamente uma fábrica de easter-eggs. Necessário dizer, entretanto, como isso é bom e ao mesmo tempo prejudicial.

Bom porque da primeira cena até a última o pokemaníaco sente-se completamente imergido em Ryme City, o palco da trama, que de imediato passa a ideia de uma cidade cosmopolita no meio do Mundo Pokémon onde todos – humanos e pokémon – convivem em relativa harmonia indo até além do que acontece em outras regiões como Sinnoh e Kanto (ambas citadas no filme).

Essa imersão, nos elementos visuais como nas fachadas dos prédios, posteres e estatuetas, permite ao fã da franquia sentir o filme sem precisar que este perca tempo respondendo sobre temas que ao conhecedor de Pokémon parece ter quase obrigação saber.

Contudo, para o não-pokemaníaco – aquela pessoa que no passado assistiu alguma coisa de Pokémon, mas não se tornou fã implacável – é possível perder rapidamente o foco durante as reações das personagens em diálogos, atos e contextos de cena. Eis aqui o fator prejudicial. Sem as referências muita coisa em cena se torna mera poluição, informação acumulada. E aí o que salva o expectador são os alívios cômicos estrelados por celebres personagens como o próprio personagem-título, além de Snubbull, Mr. Mime e o incrível Psyduck (muitos méritos a ele pessoal!)

Outro ponto importante a se observar é que nesse universo cosmopolita de Ryme City a escolha de Justice Smith para o papel principal sempre me pareceu uma boa. Isso porque se é para ser cosmopolita tem que ser em tudo: raça, credos e sexualidade. Um ator caucasiano, assim como no vídeogame, não contribuiria para a verossimilhança com o mundo real. Entretanto, esse mesmo Justice Smith não convence no papel de Tim Goodman e seu personagem possui uma psicologia rasa demais mesmo para os padrões da franquia japonesa.

Outro personagem-chave a ser comentado é MewTwo. O pokémon ganha poderes impressionantes e levanta uma questão amada por muitos fãs mais polêmicos sobre sua real força. O filme chega a ser bem específico ao dizer que Mewtwo é o pokémon mais poderoso a existir ao mesmo tempo que apresenta o lendário Arceus como uma divindade. “Santo Arceus!” te lembra alguma coisa?

Considerações à parte, o filme convence quem se dedica a vê-lo. É fluído, divertido e coeso. Talvez por isso dizer que ele quebrou a maldição das adaptações de games não é uma mera bravata.

Antes faço um adendo, Warcraft (2016), Assassin’s Creed (2017) e Tomb Raider (2018) contribuíram bastante para o fim dessa “maldição”, mas é real podermos afirmar que Pokémon: Detetive Pikachu supera o dilema existente entre os críticos. O jogo está lá, os pokémon estão lá e ainda assim é um filme de cinema sem tirar nem por.

Não há motivos para alguém dizer “Ah, mas no jogo é totalmente diferente!”, pois mesmo remodelando alguns elementos da trama original o filme cumpre seu papel na linguagem em que está apresentado e convida quem nunca jogou Detetive Pikachu a correr de imediato ao Nintendo 3DS para ampliar essa experiência.

E se o papo é sobre ampliar experiência, Pokémon: Detetive Pikachu deixa bem construído a ideia de mundo expandido e abre o leque para todo um universo cinematográfico a ser explorado. Não que isso não já esteja sendo pensado.

Os fãs de games que também são fãs de cinema agora tem um filme para chamar de exemplo perfeito de adaptação. A emoção é tão grande que me sinto no direito de dizer que Warner Bros., Legendary e Toho já podem se reunir à Big N e sondar as possibilidades de Link, Zelda e Cia. também ganharem um live-action no futuro.

Por enquanto, sobre a próxima adaptação de game que virá (da empresa rival à Nintendo) os trailers nos mostram apenas cenas de decepção.

Que Arceus nos acuda!

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Crítica

Crítica | No Game No Life: Zero

Animação já está disponível na Netflix.

Amor. Essa é a palavra que define o roteiro de No Game No Life: Zero, filme recém-chegado no catálogo da Netflix, mas que deu as caras em 2017 nos cinemas japoneses. A animação é uma prequela do animê homônimo de 2014, que por sua vez é adaptado da light novel escrita pelo nipo-brasileiro Yuu Kamiya.

Falar sobre esse filme desconsiderando a narrativa da série de TV é muito fácil e muito bom, pois o filme dirigido por Atsuko Ishuzuka e roteiro de Jukki Hanada apresenta uma consistência fluída e chega a ser muito cativante em diversos momentos pela forma como insere elementos tão reflexivos como a aceitação pessoal, o altruísmo, a mágoa e o amor.

Recontando de forma a evocar um quê de épico ao fatídico fim da Grande Guerra de 6 mil anos atrás no mundo de Disboard, o filme nos apresenta o imanity, Riku Dola, e a ex-machina, Schwi, que se reúnem primeiramente sem um propósito tão válido (se desconsiderarmos as escolhas de Schwi enquanto uma máquina) até chegar num clímax intenso.

O filme tem muitas referências que servem de gancho para os apreciadores da franquia entender os eventos do presente. Um desses links nos fazem até mesmo odiar uma personagem querida quando somos confrontados com seus atos naquela época.

Mas falemos de amor. Mesmo que a história nitidamente careça de elementos mais significativos para seu desenvolvimento, a relação estabelecida entre o casal de protagonistas é profunda e nos permite refletir sobre o poder do perdão e a força do amor. Não importa quem você é, o que importa é que quero estar ao seu lado. Nas entrelinhas ou diretamente essa é a mensagem que é joga na tela. Animações que seguem essa premissa sempre são bem recebidas, pois trabalham o visual com uma proposta mais reservada ao sentimento do espectador.

No Game No Life: Zero é a adaptação direta do volume 06 da light novel de Yuu Kamiya e segue uma construção narrativa bem diferente do restante da obra ao trazer um contexto mais soturno ao universo narrativo. Vale a pena dedicar um tempo para apreciar o filme, mesmo se nunca leu ou assistiu nada de NGNL. Com dublagem em português na Netflix, a animação é aposta do serviço de streaming neste fim de ano.

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Crítica de Filme

Crítica | A Vida Invisível

O melodrama tropical de Karim Aïnouz: um estudo anti-machismo cheio de dor e beleza

A Vida Invisível parece uma janela no tempo. Não só pelas propriedades estéticas que reconstroem o Rio de Janeiro dos anos 50, mas principalmente por materializar histórias que a gente conheceu só de ouvir sobre tantas e tantas mulheres que tiveram suas trajetórias alteradas e suas aspirações pessoais anuladas em virtude de uma condenação encomendada desde o nascimento: a de que seu papel seminal é servir a casa e ao marido. O melodrama escorre por todos os cantos nesse novo filme do cearense Karim Aïnouz, que pleiteia com muita dignidade uma vaga nos indicados a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2020. Vai vendo.

O amor entre as irmãs Eurídice e Guida é o motor da narrativa baseada no livro de Martha Batalha: elas são confidentes, se divertem com suas descobertas, são cúmplices nas contravenções que desafiam o pai ultraconservador e a mãe, tão submissa ao marido que sua voz pouco se ouve. O tempo corre como água no roteiro de Murilo Hauser e acompanha um período de mais ou menos uma década na vida dessa família cujos laços se afrouxam lentamente.

A Guida de Julia Stockler é intrépida, foge de casa pra encontrar o namoradinho marinheiro sob os protestos da irmã Eurídice (Carol Duarte), mais temente e cujo talento para música a faz sonhar em ser uma pianista profissional. No entanto a trajetória das mulheres em A Vida Invisível é toda balizada pelas intervenções dos personagens masculinos e certamente quem assiste ao filme reconhece naquelas mulheres outras Eurídices e Guidas da vida real.

Assim, o filme em certa medida acessa a memória de tias, mães e avós pertencentes a essa mesma geração das personagens e que cresceram sob a doutrina da submissão ao homem provedor que cerceava suas liberdades mais básicas em nome de uma suposta “proteção” (outro efeito do machismo estrutural). Dessa forma o pai justifica seus excessos com “Fiz para proteger a família” e o marido de Eurídice (Duvivier) poda “gentilmente” os desejos da esposa em se especializar em música “Você já sabe tocar… pra quê estudar mais?”.

E mesmo diante da feiura do sexo meramente fisiológico e mecânico ou da aterrorizante impossibilidade de decidir sobre a própria gravidez, o filme de Ainouz traz uma beleza hipnótica nas paisagens, quase como se quisesse apontar as cores lá fora, apesar da opressão entre-paredes.  A fotografia impressionante de Hélène Louvart investe em planos evocativos diante do mar e nos cenários cinquentistas do Rio que a direção de arte de Rodrigo Martirena veste com cores e formas. A entrada da casa da família, escura e cheia de galhos secos, na casa de Filomena (Bárbara Santos) os brinquedos mortos no pátio.

E também é belo perceber que, embora as novas gerações ainda sintam a ressaca desse modo de pensar, um filme como A Vida Invisível funciona também como um lembrete desses prejuízos de vida – e como é bom ter hoje infinitos exemplos de mulheres que jamais se deixariam interromper por alguém. O filme tecnicamente irrepreensível, cheio de nuances e significados ainda conta com a honraria de ter Fernanda Montenegro ajustando uma cerejinha no bolo, guardando o melhor para o final e deixando claro que, apesar de tudo, 2019 foi um belo ano para o Cinema Brasileiro.

Filme visto na abertura do Festival Maranhão na Tela, 2019.

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Coberturas

#VoltsNaMSDC – Confira aqui as críticas do Panorama Brasil – Filmes da Região Sudeste

Os filmes selecionados vêm dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais

Ao todo, a Mostra Sesc de Cinema 2019 conta com 42 filmes e aqui no Volts você confere nossos comentários sobre todos eles. Nesse post, as produções da Região Sudeste são as estrelas. Vai vendo.

Fabiana (São Paulo, São Paulo) 89min, longa-metragem, documentário, 2018

‘Fabiana’ é o longa dirigido e escrito pela goiana Brunna Laboissière cuja proposta interessa de cara: pegar carona no caminhão da mulher trans e também lésbica que dá título ao filme. Uma figura poderosa, despachada e cheia de bagagem que segue baforando seu cigarrinho pela janela enquanto compartilha vivências.

O universo da estrada é por si só uma fonte infinita de histórias, mas Fabiana é um ponto de resistência numa profissão dominada por homens – não meramente por ser mulher e caminhoneira, mas também por sua orientação sexual. Porém, infelizmente o potencial fica perdido na estrada. A condução do filme é surpreendentemente passiva, desperdiçando a oportunidade de explorar a evidente riqueza do material.

E dá pra entender a intenção de Laboissière de não interferir, por exemplo, numa passagem em que Fabiana atende uma ligação e aparentemente recebe uma notícia ruim, desliga a chamada e fica em silêncio por longos minutos, balbucia algo e segue em silêncio até que a diretora pergunta “O que houve?” e aí ela finalmente conta. Outras sequências se limitam a contemplação pura e simples. Ou seja, a fartura do material exige mais intervenções e ao público resta sair da sessão como quem esperava uma viagem memorável e pegou apenas uma caroninha curta.

Plano Controle (Belo Horizonte, Minas Gerais)16min, curta-metragem, ficção, 2018

Se a turma do Twitter produzisse um filme, seria esse Plano Controle. Um flerte divertido com a ficção científica ensaia um Brasil onde o teletransporte é uma realidade e pode ser acionado como quem ativa um pacote de dados de internet móvel.

Escrito e dirigido por Juliana Antunes, o curta brinca com viagens no tempo pra fugir da realidade dura de 2016 com o golpe que tirou Dilma da presidência. Pra ilustrar os deslocamentos no espaço-tempo, o filme investe numa bricolagem de cenas icônicas da cultura pop nacional que vão de Van Damme dançando com a Gretchen no palco do Gugu a clássicos musicais dos anos 90. Sendo assim, onde “Plano Controle” falta em fazer sentido, sobra no senso de humor. 16 minutos bem aproveitados.

Navios de Terra (Belo Horizonte, Minas Gerais) 70min, longa-metragem, ficção, 2018

Esse longa de ficção dirigido por Simone Cortezão é um investimento pesado na estética do marasmo. Conceitual e visualmente promissor, o filme pensa a exploração de minério como o “deslocamento de montanhas” do Brasil a China e vice-versa. Seu protagonista (Rômulo Braga) sai de Minas e vai de navio ao outro continente em busca desses encontros muito subjetivos que ninguém sabe direito explicar. Nesse meio tempo o que se vê é um filme lentíssimo e frequentemente até arrastado onde quase nada acontece.

Jéssika (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro) 19min, curta-metragem, ficção, 2018

Jéssika, filme de Galba Gogóia, propõe uma discussão pertinente sobre a importância do acolhimento familiar em diversos níveis ao trazer a travesti do título de volta a casa onde cresceu como menino, pra reencontrar a mãe.

Pouco criativo na direção, o filme gira em torno de um diálogo na mesa do café (em plano e contraplano) onde muitos “não-ditos” e mágoas ficam evidentes assim como o amor entre as duas personagens, que é o que acaba gritando mais alto no fim das contas, mas tanto na vida quanto no filme, não é só o que importa. Infelizmente para Jéssika, como para tantas outras, apenas ser chamada pelo nome, já é uma imensa prova de aceitação pra quem cresceu acostumada a viver na defensiva.

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