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Crítica de Filme

Crítica | Os Incríveis 2

Nem tudo é o que parece na nova aventura da família Incrível.

Foto: Divulgação/Pixar

O grande lance de Os Incríveis sempre foi o conceito de família. Os superpoderes dos personagens já não eram novidade no longínquo ano de 2004, 14 anos atrás, quando a Pixar nos apresentou a Helena, Beto, Flecha, Violeta e Zezé. É uma mistureba de muitos heróis clássicos com visão de raio laser, elasticidade, campos de força, ultra-velocidade e força descomunal. O que torna os Pêra incríveis é o trabalho em equipe que aqui ganha os contornos peculiares de uma família comum – e é a chave para que pessoas de todas as idades possam se identificar com os personagens.

Essa é a premissa que o diretor Brad Bird (que também dubla a imperturbável Edna Moda) resgata aqui, remodelando tudo para questões do nosso tempo. Em Os Incríveis 2 (The Incredibles 2, 2018) tem muito espaço pra simbologias. Novamente a comunidade dos heróis é marginalizada pela sociedade civil, tendo que retrair suas verdadeiras naturezas, totalmente infelizes, misturando-se entre os comuns para viverem dentro da lei……..Tá ligado?

E quando Helena, a Mulher-Elástica, é escolhida para um projeto de retomada da Era de Ouro dos Heróis (com direito ao saudosismo do uniforme antigo) o Sr. Incrível se sente preterido. Bom, o projeto consiste basicamente numa artimanha de marketing que enalteça os feitos dos heróis a fim de reconquistar o apoio da sociedade e devolvê-los à legalidade.

E aí tem duas particularidades: primeiro, a ideia de que a manipulação da informação, (ou minimamente mudar a perspectiva de quem conta a história) é um recurso necessário para que os heróis voltem a ser aceitos. Peralá, se a mídia só aborda os pontos negativos do trabalho dos heróis, então os heróis devem expor outro prisma. Sim ou não? E não é isso que acontece o tempo todo na TV e jornais, etc?

De outro lado, a ‘inversão’ das funções de Beto e Helena questiona a crença arcaica de que o papel do homem é prover a casa, enquanto à mulher cabe a missão de cuidar dos filhos e das atividades domésticas. Nesse sentido, é desconcertante notar a frustração do Sr. Incrível, quase como se ele fosse incapaz de se alegrar com o sucesso da esposa. Mas trazer Helena para o primeiro-plano é a cara do cinema #GirlPower e nunca é demais.

E enfim a gente chega à figura do vilão, o Hipnotizador. O conceito é fantástico: um vilão que, através de telas, hipnotiza as pessoas conseguindo controlá-las à sua vontade. O paralelo é muito claro com uma contemporaneidade onde somos reféns da tecnologia, frequentemente “hipnotizados” pelas telas de smartphones e tablets, em detrimento da própria realidade de convívio social. Esse ponto nem precisa ser encarado como uma ~crítica~ aos novos hábitos, vá lá. É mais um retrato de como as coisas são mesmo. A gente tá ferrado nisso e não tem Incríveis pra tirar a gente dessa. Vamo adiante.

O problema real é a previsibilidade. A Pixar praticamente criou uma assinatura com essa coisa do personagem insuspeito que de repente se revela um crápula miserável. Se em Up e Coco esse twist foi fofo, em Os Incríveis 2 é decepcionante. Explico: além de ser uma charada altamente frágil, a resolução é muito simplista e não demanda grandes transformações no arco dos personagens. Então, o conceito é excelente, a preparação é muito promissora, mas é um vilão fraco e o desfecho idem. (Caramba, doeu escrever isso).

Divago: mesmo que a união de forças e a noção de que a combinação das habilidades é o grande trunfo da família Incrível, talvez tenha faltado aqui um pouco daquele amorzinho de quando eles se encontram e se abraçam e se entendem e assumem a briga. Divaguei.

Pra encerrar feliz, Os Incríveis 2 tem aquela habilidade chocante da Pixar que é: trazer uma animação cheia de camadas, que oferece um material poderoso pra reflexão, capaz de extrapolar até mesmo o visual absurdamente apurado, as empolgantes sequencias de ação e as hilárias piadas com o Zezé. Nunca é tempo perdido ver um filme da Pixar.

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Crítica de Filme

Crítica | Sonic – O Filme

Live-action entrega história simples, mas divertida na telona.

Todo aquela história de que o próprio Yuji Naka (ex-presidente da Sonic Team e um dos criadores do ouriço azul) ficou chocado com a aparência de Sonic nas primeiras imagens divulgadas pela Paramount Pictures pode até ser verdade, mas o resultado do longa-metragem nas telonas me fez pensar se no fim tudo não passou de estratégia de marketing.

Digo isso porque embora não seja mais do que o esperado para um filme adaptado de videogame, Sonic é um live-action divertido e que consegue contemplar a essência da personagem mais famosa da SEGA e um dos ícones dos jogos eletrônicos entre todas as épocas.

Temos nos 99 minutos de filme um roteiro bem humorado e contemplativo sobre a figura do ouriço, afinal de contas protagonismo é isso e precisa ser bem executado. Por mais surpreendente que pareça, a trama amarra muito bem diversos elementos da franquia sem abrir mão de certa originalidade em seus desdobramentos. É o caso da origem de Sonic e os poderes dos Anéis, que ganham uma conotação mais universal e que vão para além de evitar que o personagem chegue ao game over.

Por falar nisso, o filme tem muitos easter eggs bem criativos como a adaptação da famosa primeira fase Green Hills na cidade cenário da aventura. Entre os outros tantos, protagonizados nas falas e ações de Sonic, nada é tão divertido do que vê-lo chamar seu antagonista pelo nome original (Dr. Eggman) numa referência às armas usadas por ele, já que na versão em live-action a personagem vivida por Jim Carrey não é um homem em forma de ovo como nos jogos.

E já que Dr Eggman/Dr. Robotnik está em evidência, o que dizer de Jim Carrey? Novamente uma atuação memorável e que coloca a personagem na nossa memória afetiva como um dos bons trabalhos do ator. O duelo entre o ouriço azul e o gênio do mal é dinâmico durante todo o filme e satisfaz na medida do possível.

Reúne-se a isso a trilha sonora que reúne temas clássicos de Sonic the Hedgehog com hits famosos dos anos 1990 e scores bem elaboradas por Junkie XL, que contam a história do filme em momentos que misturam a linguagem do audiovisual e elementos do jogo eletrônico com um bom resultado.

Por fim, a deixa criada desde o começo do filme com personagens similares a Knuckles, a promessa de vingança de Robotnik e a aparição de Tails nos levam a crer que poderemos ver em breve um Sonic 2 com quem sabe um “Sonicverso”.

É por isso que termino esse texto levantando a mesma hipótese do início: E se o “Sonic deformado” não passou de estratégia de marketing para nos convencer a ir ver Sonic nos cinemas? Se for isso, os envolvidos estão muito enganados ao pensar que não iríamos ao cinema ver o ouriço mais famoso do mundo em ação. Antes isso que comprar a história de que os estúdios responsáveis pelo visual do Sonic se inspiraram no urso Ted para dar realismo ao herói velocista. Quanta bobagem! Não tinha como o Sonic do cinema ser diferente do que esse que aparece na telona.

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Crítica de Filme

Crítica | Parasite (2019)

Filme nos provoca sobre nosso próprio parasitismo social.

Planejar é um ato falho. Bong Joon-ho propõe uma reflexão – em cima de uma crítica – ao nos contar a história da família Ki-taek. Talvez eles possam ser encarados como a escória da sociedade, talvez ele sejam mesmo (ou talvez não). Isso porque se compararmos sua afetividade em relação aos Park, a outra família retratada em Parasite (2019), é nítido que o laço construído entre os Ki-taek é correspondente entre todos os membros.

Retratando duas facetas da sociedade sul-coreana, naquilo que seu repertório lhe proporciona, o diretor entrega um diálogo audiovisual muito intenso. A todo momento os Ki-taek estão aplicando ou revisando conceitos pragmáticos filosóficos e sociológicos em seus atos sórdidos de charlatanismo que não nos horrorizam (embora devessem), mas sim arrancam gargalhadas nas primeiras horas do longa-metragem. A parte mais engraçada nisso tudo é que você não consegue terminar o filme rindo (com exceção de um único personagem que na contramão do nosso estado havia iniciado o filme sem esboçar sorrisos).

Para a Biologia o parasitismo é a “interação entre duas espécies, na qual uma delas, o parasita, se beneficia da outra, o hospedeiro, causando-lhe danos de maior ou menor importância, mas raramente a morte“. Bong Joon-ho entrega a nós uma história que não escapa em nenhum momento dessa definição, a não ser pelo fato do parasita (ou dos parasitas) serem racionais o suficiente para conceber a própria imoralidade, julgá-la e aceitá-la. E aqui fica um questionamento sobre quem de fato é o parasita: o pobre que vive sobre a sobra dos sobejos dos ricos, ou os ricos que nem se dão conta do qual organizados são os pobres dentro de seu próprio território.

Com planos lentos e câmeras com movimentação contemplativas, a fotografia do filme está sempre ressaltando as diferenças entre as duas famílias (os Ki-taek e os Park), por meio de ângulos e linhas “invisíveis” na tela reforçando os esteriótipos delineados no filme. Obviamente que a proposta aqui não é a a aceitação desses esteriótipos, mas sim torná-los nítidos para o espectador. Cabe então a este fazer a observação do quão as diferenças preexistentes escondem semelhanças nos dois grupos, que se julgam distantes por maniqueísmos construído pelo status e o dinheiro. Enquanto um julga por considerar inferior e sujo, o outro julga por considerar superior e limpo demais. Não apenas na aparência, mas no comportamento. Julgar é o ato falho de maior semelhança entre humanos.

Parasite (2019), embora não seja sobrenatural, dialoga com o elemento da causa e efeito e nos entrega uma montagem que dinamiza a ação quando é necessário que vivenciemos ela. É na cena da inundação na casa dos Ki-taek, no porão de um prédio no subúrbio, que essa montagem fica mais acentuada a partir do link desagradável entre os vasos sanitários dos dois porões (o dos Park e dos Ki-taek). Uma montagem que remete ao mórbido quando tomamos o clímax do filme.

É nessa balança entre cômico e suspense, lentidão e ação, limpo e sujo, que Parasite (2019) se constitui num conjunto reflexivo sobre nós mesmos, que parasitamos os outros e nós mesmo a partir de um canal universal: os planos. O tragicômico dá lugar a um realismo introspectivo, pois não há momento algum após a experiência de ver o filme que você não se pergunte o quanto já se tornou o parasita de alguém.

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Crítica de Filme

Crítica | Frozen II

Sequência do sucesso da Disney é boa, mas não tanto.

“Você quer brincar na neve?”. Talvez esse não fosse o tipo de situação que se esperava da sequência de Frozen (2013). Pelo menos os trailers já nos levavam a crer nisso. Contudo, mesmo com a expansão da trama e as muitas referências, Frozen II (2019) nem de longe é tão bom quanto o primeiro (e veja bem, esse que vos escreve não gostou do primeiro filme).

Há aqui um certo conflito na hora de escrever essa crítica, pois não dá para dizer que o longa-metragem animado é um fiasco. Muito pelo contrário! O filme é lindo, fluido e em certa medida emocionante. O problema é que ao esperarmos pelo fascínio que fez de Frozen um fenômeno mundial não percebemos a mesma sensação ou mesmo algo de novo.

A fórmula Disney está ali e a originalidade do roteiro (em cima do clássico A Rainha da Neve de Hans Christian Andersen) evoca muito bem as protagonistas Elsa e Anna em suas próprias jornadas. Seus tempos de tela são muito bem equilibrados e suas façanhas e dilemas balanceados com êxito. Tanto que a pouca presença de Kristoff e Sven não diminui em nada os seus papéis na trama. Olaf, como sempre é um ótimo escape cômico (e Fábio Porchat nos deleita com sua atuação icônica na versão dublada). Contudo…

Naquilo que se tornou o ponto alto da franquia Frozen, as canções, o sentimento deixa muito a desejar e nenhuma chega a impactar como Let it Go (Elsa) ou Do Want to Build a Snowman? (Olaf) fizeram se tornando hits. Está certo que ainda é cedo para afirmar isso, mas se considerarmos que o filme chegou ao Brasil mais de um mês depois da estreia nos Estados Unidos é possível medir a pouca atenção dada pelo público às faixas do novo filme e tentar cravar essa ideia de que a trilha sonora não cativou. Mas não é uma perda total!

Pela minha experiência posso afirmar que a canção mais legal do novo filme (Lost in the Woods) é justamente daquele com menos tempo de tela (Kristoff) que possui um forte elemento romântico a la Peter Cetera ou Bryan Adams (ao menos é a impressão que fiquei). É um dos momentos mais legais das cenas musicais da animação.

Assim, Frozen II entrega uma história bem profunda e que fortalece as suas protagonistas, mas não consegue manter a essência do primeiro filme quanto ao envolvimento do público com as canções e a própria trama em si (mesmo sendo reveladora de segredos). Antes do clímax a história acelera demais e não se sustenta muito. Também não deixa a certeza de que teremos um terceiro filme, que caso venha pode ser mais um erro que um acerto para a franquia.

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