Crítica | O Destino de Uma Nação





14/01/2018 - Atualizado às 20:03


O Destino de Uma Nação (Darkest Hour, 2017) é um filme de atuação. Aquele tipo de produção onde tudo parece funcionar como um palanque para destacar a performance de um ator/atriz. E estando em temporada de premiações, a gente sabe que o Oscar frequentemente serve para consagrar a carreira de um artista, certo? Se o critério for esse, Gary Oldman merece o careca dourado com louvor. Seu trabalho aqui é fascinante. Mas o filme de Joe Wright não oferece lá tanto mais que isso. Vamo nessa.

A trama está localizada no ano de 1940, ponto crucial da Segunda Guerra, quando o 3º Reich de Aldolf Hitler avançava em galope, varrendo a Europa. Com o Império Britânico do Rei George VI (Ben Medelsohn) cerceado pelas tropas alemãs, Winston Churchill assume a cadeira de Primeiro-Ministro: “Eu ganhei esse emprego porque o navio está afundando. Não é um presente, é vingança” explica ele para a sempre segura esposa, Clementine (Kristin Scott Thomas).

Um ponto positivo aqui são as transições entre as esferas pública e privada, tome lá um clichê: os bastidores do poder. Mas é algo bem mais afiado que isso, já que ao mesmo tempo em que nos permite um acesso à dieta altamente calórica do primeiro-ministro, sua dedicação às bebidas e charutos (“Prática!”), também explora a construção de seus famosos discursos, arquitetados para motivar. E daí, consequentemente, a fama de Churchill enquanto um frasista nato: “Não dá pra negociar com um tigre quando você está com a cabeça na boca dele”, quem vai discordar?

Um incômodo central (de novo, filme de atuação) é como o complexo corpo do Parlamento Inglês é retratado, de certa como forma uma massa homogênea preocupada apenas em antagonizar o posicionamento do primeiro-ministro. Do ponto de vista narrativo, é uma premissa tentadora, já que destaca Churchill enquanto um gênio intrépido, que aceitava riscos. Já do ponto de vista histórico, o professor de História sente e chora um pouco. Normal, segue o baile.

Um exemplo claro dessas envergadas do roteiro é a personagem de Lily James, uma doce e graciosa secretária a quem, em certo momento, Churchill toma pelo braço e leva até a Sala de Mapas (um espaço proibido às mulheres) para lhe apresentar à situação crítica do exército inglês no tabuleiro da guerra. Enquanto explica os quiproquós a ela, esclarece as tretas para quem assiste. Truque de novato.

Nesse sentido, o filme de Wright funciona como uma espécie de Lado B do Dunkirk de Christopher Nolan, uma vez que a Operação Dínamo (explorada lá in loco e cá na estratégia) é um divisor de águas na atuação de Churchill como primeiro-ministro e também nos desdobramentos da Segunda Guerra.

Mas aí a gente quase é levado a crer que o conflito armado é uma solução aceitável de resoluções diplomáticas. Não é. Espera um pouco. O destino de milhares de soldados é decidido a canetadas, meros alfinetes na cortiça. Ok, o raciocínio é: vamos sacrificar 4 mil homens para salvar 300 mil. O que são 4 mil homens, não é mesmo? Vamos fixar esta elucubração aqui: a ‘arte da guerra’ fascina, mas não há lógica nela.

Dito tudo isso, é hora de voltar a Gary Oldman. Só olhando bem nos olhos dele é possível encontrar as feições do conhecido ator. Embaixo da maquiagem indefectível, Oldman esculacha. É um jeito específico de falar, de andar e gesticular que praticamente apagam o homem embaixo do personagem. E não é isso que é atuar? O Destino de uma Nação é o filme do Gary Oldman, sim. Amém.