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Crítica | Nasce Uma Estrela

Sobre o poder de cura da música na vida e em roteiros de Cinema

Você já deve estar encharcado pela chuva de elogios que o filme de Bradley Cooper, Nasce Uma Estrela (A Star is Born, 2018) vem recebendo. De fato, não dá pra ignorar os atrativos – a começar pela dupla de protagonistas lindos & talentosos e uma trilha sonora que extrapola o filme e vai parar nos seus fones de ouvido bem rapidinho.

O visual caprichado, todo intercalado pelos números musicais de Cooper e Lady Gaga, contribui para a experiência ser agradável a quem assiste. Uma história de amor, de aventura e de magia… mas que como filme, apresenta alguns problemas também. Vamos a eles? —mas não somente a eles.

Falando mais especificamente sobre a direção, Cooper faz um trabalho de modo geral bem competente na sua estreia. Por isso é estranho que ele tenha adotado um uso até excessivo de super-closes e alguns cortes secos que acabam atraindo uma atenção desnecessária. São exemplos: o longo slowmotion no nariz de Gaga na cena do bar ou a pequena briga que ocorre lá, com um corte repentino quase impossibilitando a compreensão do que houve.

Há outra passagem onde a câmera interrompe um movimento para focar no olho da atriz que derrama lentamente uma única lágrima. Esse tipo de intervenção, por ser muito brusca, cria uma artificialidade, como se a emoção fosse recortada em um fragmento, como se a lágrima tivesse sido colocada ali para o plano funcionar. Nessa cena eu ouvi alguém dizer na sessão “Que forçado!”. E, olha, talvez nem tenha sido, mas a montagem fez parecer forçado. Tá catando?

Em se tratando da construção dos personagens, os protagonistas dão muito o que pensar.  Se Jack é o astro adorado por multidões, que demonstra respeito pela arte como forma de expressão, rico até não ter mais como… é também uma figura atormentada por várias lacunas em seu passado – e recorre ao abuso de álcool e drogas para preencher o vazio. Já Ally é uma mulher cheia de sonhos, mas decidida, pé no chão, trabalhadora. E é a mistura que surge dos dois que faz Nasce Uma Estrela ser um sucesso que se repete nos cinemas.

Sendo assim, depois da fama, Ally passa de mulher forte e combativa que enfrentava o chefe e o pai, a um produto pálido da indústria, que permite todas as decisões da sua carreira a terceiros. Ela deixou a personalidade de lado para viver o sonho? De outro lado, enquanto a parceira cresce profissionalmente, Jack afunda no alcoolismo.

Mesmo que essa transição dos personagens seja o que há de mais interessante no filme (já que permite interpretações bem diferentes), a falta de conflito entre o casal é um ponto que prejudica bastante os momentos mais emocionais da história. O bom é que, nesses casos e pra todo eventual problema, a música surge como um ótimo contrapeso.

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