Crítica | Mogli – Entre Dois Mundos

Crítica | Mogli – Entre Dois Mundos

Com a promessa de trazer uma abordagem mais aproximada da história original (“O Livro da Selva”, de Rudyard Kipling, publicado em 1894), o novo filme de Andy Serkis prometia se diferenciar não apenas de tantos outros longas já existentes sobre Mogli, mas principalmente do ótimo live-action que a Disney lançou logo ali em 2016. E, de fato, essa é a grande pedra no sapato da produção que ganhou a benção da Netflix e estreou direto na plataforma de streaming.

Sem o “raio disneyficador” a história realmente perde a lavagem fabulesca e amistosa da animação clássica de 1967, da qual o filme de Jon Favreau também se desviou sorrateiramente. Mas aqui a sobriedade dá mais espaço a subtextos densos como as divisões hierárquicas em qualquer sociedade, a exploração da natureza e as noções de exclusão e pertencimento. Isso não quer dizer que uma abordagem seja superior a outra; elas apenas atendem a demandas específicas de público.

Então o que de fato diferencia Mogli – Entre Dois Mundos (Mowgli – Legend of the Jungle, 2018) das outras adaptações? A resposta é clara: Andy Serkis. Desenvolvedor da incrível técnica de transmutar expressões de atores reais a personagens criados em computador (a ‘captura de performance’), Serkis dá um novo sentido àquilo que a gente chama de “magia do Cinema”. À primeira vista, talvez o desenho dos animais com traços ligeiramente humanos cause algum estranhamento, mas logo a expressividade absurdamente apurada superpotencializa as emoções retratadas ali.

E aí esse é um ponto curioso, já que Serkis entende que a alma da captura de performance é o desempenho do elenco. E que time temos aqui: Cate Blanchett como a serpente Kaa, Christian Bale como a pantera Bagheera, Benedict Cumberbatch como o tigre Shere Khan, o próprio Serkis como o urso Baloo e por aí vai. Destaque, claro, para o pequeno Rohan Chand como Mogli, um personagem que exige demais do ator tanto fisicamente (ele corre maratonas) quanto em representação, já que ele precisa interagir com feras que só existem nos computadores.

O novo Mogli é um filme que impressiona do ponto de vista estético, tem subtextos interessantes para refletir, tem um desenvolvimento bem ritmado, mas foi prejudicado pela esteira de lançamentos que tirou dele o frescor da novidade. É esperar que o glorioso Andy Serkis continue nos presenteando com essa feitiçaria incrível da tecnologia a serviço do entretenimento.

 

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