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Crítica

Crítica | Love, Death + Robots

Para as mentes mais abertas, a série é um convite para uma viagem transcendental entre a morte e o amor.

Foto: Divulgação/Netflix

Para o diretor Tim Miller (Deadpool), a série Love, Death + Robots, que ele comandou ao lado do renomado cineasta David Fincher (Clube da Luta, Se7en, O Curioso Caso de Benjamin Button), é nada mais que “uma carta de amor aos nerds”. E ele não poderia estar mais correto.

Do passado ao futuro, entre a guerra e a extinção, os 18 contos animados apresentados na série exploram todos os temas de fascínio ao jovem geek. Aliás, como uma produção antológica, que funciona de maneira semelhante a Black Mirror, cada história é marcada por sua particularidade, tendo consigo, tramas e universos muito mais do que distintos.

Uma ideologia também presente nos traços das animações. Pois, enquanto alguns episódios bebem de fontes japonesas ou poderiam facilmente ocupar a grade da TV aberta americana (se não fosse a sua classificação para maiores), outros parecem sair diretamente do mundo dos quadrinhos ou das telas do Playstation 4.

As inspirações e técnicas vêm de toda a parte do globo. Fato atestado por sua produção mundial, que teve como berço os Estados Unidos, França, Hungria, Polônia, entre outros países.

Talvez por tais razões, as tramas também variam e transitam entre o complexo e o simplório. Quando não surpreendem por suas reviravoltas impactantes e inesperadas, causam impacto com uma narrativa simples, mas intensa e eficiente.

Dito isso, prepare-se para encontrar, aqui, histórias psicodélicas, de drama, horror e sobrevivência, oras triunfadas sobre as verossimilhanças visuais, ora abstratas e cartunistas, seja em 2D ou em 3D. O steampunk e o gênero heist também fazem à festa em alguns episódios divertidos e muito bem executados. E o humor, ainda que breve e amargo, também garante um espaço tímido e satisfatório entre algumas animações.

Outro ponto importante é que apesar de curtos, com durações variando entre 6 e 17 minutos, os episódios nos fisgam quase que de imediato. São, em geral, intuitivos, e nos guiam com facilidade entre mundos fantásticos e repletos de detalhes a cada canto da tela. Enquanto os personagens, além de (quase sempre) fugirem dos estereótipos padrões da sociedade, são carismáticos e fáceis de serem interpretados, desde as suas motivações pessoais até os objetivos dentro de suas mini-histórias. Não a ponto de decidirmos decorar os seus nomes para todo o sempre, mas eles cumprem o seu papel e conseguem nos fazer sentir na pele as suas experiências nada usuais.

Por outro lado, o problema de uma série antológica, que abarca contos e estilos distintos em cada episódio, é que algumas coisas podem funcionar e outras não. Além disso, as três palavras-chaves da série (Amor, Morte e Robôs) sugerem e possibilitam uma infinidade de histórias. Por esta razão, os temas explorados nos episódios variam, indo de um ponto a outro em poucos instantes. Consequentemente, nem todas as histórias irão agradá-los. Não que isso seja necessariamente uma regra, isto dependerá do ponto de vista de cada espectador.

Aliás, Love, Death + Robots reúne propositalmente diferentes tribos em uma só produção. Aqui, gamers, otakus, nerds e cinéfilos terão a chance de aproveitar o deleite visual que os contos proporcionam em um curto período de tempo. Para as mentes mais abertas, a série é um convite para uma viagem transcendental entre a morte e amor (e a robótica) em universos ricos e singulares.

Por outro lado, certos episódios (para alguns) podem facilmente serem resetados da mente logo após serem executados. E parte da culpa é da própria produção. Aliás, a sucessão e a transição entre jornadas intensas e poéticas para outras que são nada mais que narrativas visuais muito bem construídas, fazem as expectativas dos espectadores irem por água abaixo.

No final, a principal dica para navegar pela série é manter-se aberto às experiências e ter em mente que cada uma das animações o guiará por um mundo espetacular de maneira totalmente adversa as aventuras anteriores. Quase nada, digo com tranquilidade, se repete ou torna-se habitual aqui.

Assim, além dos temas centrais, a diversidade, o senso da descoberta e a surpresa são as únicas variáveis imutáveis do show e cabe somente a você decidir o quão positivo ou negativo isto é.

Crítica

Crítica | 13 Reason Why – Temporada 4

Tentando corrigir abordagem equivocada, Netflix nadou, nadou e morreu na praia.

Entre as virtudes da Netflix está a coragem de abordar assuntos sensíveis em produções dos mais diferentes gêneros. Em 2017, no entanto, a companhia se envolveu em uma dor que parece não ter sido superada até hoje: a polêmica sobre a equivocada abordagem dada aos temas altamente inflamáveis trazidos na trama de 13 Reasons Why, que chegou injustificadamente à quarta e última temporada em 2020.

Acusada de irresponsável, a Netflix viu a ousadia — feita com a melhor das intenções, acreditamos — tornar-se uma mancha na boa reputação da empresa, que tentou apagar essa má impressão até o último episódio da quarta temporada, que trouxe as consequências do assassinato de Bryce Walker (Justin Prentice) como faísca da trama e a problemática saúde mental de Clay Jensen (Dylan Minnette) como a gasolina. Vistos os 10 episódios finais, podemos concluir, com absoluto respeito aos profissionais que fizeram essa obra tão complexa acontecer, o óbvio é o real: essa história não precisava ser contada.

Ainda que bem conduzida na primeira temporada, a história de 13 Reasons Why foi absolutamente ofuscada pelas cenas explícitas de estupro e suicídio. Um gosto amargo que a Netflix tentou consertar com altas doses de avisos, documentários e episódios mais responsáveis.

Mas não há tema complexo que sustente uma temporada com falta de assunto. A 4ª temporada da trama de Clay Jensen foi a Netflix diluindo um pacotinho de Tang em um galão de 20 litros de água. E, sim, assistir é o equivalente a tomar esse suco ralo sem açúcar.

O que, se você parar para pensar, é um tanto contraditório. A série tem uma cartela extensa de boas possibilidades: um protagonista com sérios problemas mentais, outro que é dependente químico, passa de leve por assuntos como feminismo, xenofobia, homossexualidade, enfim, mas prefere desenrolar a temporada inteira num grande “quem matou?” cansativo esticado pelo filtro confuso do olhar de Clay.

O discurso de conscientização é o que a série traz melhor. E a fotografia também. Ainda que o senso de responsabilidade desses adolescentes pareça incompatível com a idade que têm, não ficou clara a mensagem de esperança que os produtores tanto queriam passar nesse desfecho. Há grandes momentos com discursos bastante diretos e importantes, mas incoerentes com a tristeza sem fim retratada em todos os outros episódios. Foi uma sensação de nadar, nadar e morrer na praia. O que foi feito, infelizmente, não vai conseguir impedir que 13 Reasons Why envelheça cada vez pior.

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Crítica | Em Defesa de Jacob

A minissérie de suspense foge dos padrões que o gênero possui e entrega um enredo surpreendente e cheio de reviravoltas.

Dramas familiares sempre chamam a atenção e cativam o público, principalmente aqueles que envolvem todas as esferas familiares. Entretanto, essas produções podem se tornar bem mais interessantes quando novos elementos são inseridos na narrativa, como por exemplo, um assassinato. É exatamente isso – e um pouco mais – que a minissérie ‘Em Defesa de Jacob’, a nova produção original da Apple TV+ leva ao público.

O thriller de oito episódios é dirigido por Morten Tyldum (O jogo da Imitação), ganhou uma adaptação para TV feita por Mark Bomback (Planeta dos Macacos) baseada no livro de William Landay. O enredo conta a história de Jacob (Jaeden Martell), que tem a vida virada de cabeça para baixo após ser acusado de assassinar seu colega de classe. Ao lado dele, os pais Andy Barber (Chris Evans) e Laurie Barber (Michelle Dockery) vivem dias de aflição e tentam de todas as formas provar a inocência do filho.

A série acrescenta elementos interessantes, como o jeito antissocial de Jacob, as mensagens estranhas postadas por ele em uma rede social e o fato dele ter sofrido bullying por parte do colega que morreu, forçando a teoria de que ele pode estar envolvido com o crime. Além disso, a linha cronológica da história contada em duas versões: um tempo após o desfecho do caso e outra durante a investigação, prende a atenção do público que por várias vezes se pergunta: porque Andy está sendo interrogado? Jacob foi preso? Ele é culpado pelo crime?

Chris Evans vive Andy Barber, Jaeden Martell interpreta Jacob Barber e Michelle Dockery é Laurie Barber

Até o terceiro episódio, o enredo foge um pouco do que a série quer propor ao público – a dúvida se Jacob matou não o colega – e explora o passado um tanto conturbado de Andy e a relação ambígua de Laurie com seu filho. Mas tudo isso é proposital, afinal a partir daí, a série aposta no jogo psicológico, já que a inocência de Jacob é uma dúvida não só para o júri, mas para os pais do adolescente e agora para o público.

As revelações do passado obscuro de Andy com seu pai Billy Barber (J.K Simmons), preso há mais de 20 anos por homicídio, voltam a causar dúvidas e naturalmente, a novidade ajuda a criar uma ligação homicida entre o avô e o neto. Do outro lado, a fragilidade de Laurie em relação a descoberta sobre o passado do marido traz uma mudança no relacionamento dos dois como casal e com o filho, deixando os personagens centrais instáveis. Essa aspecto ajuda reforçar no telespectador a seguinte premissa: ele é culpado pelo crime.

Uma das coisas mais bem arrojadas do roteiro é que com o passar dos episódios, a perspectiva de Andy sobre Jacob vai mudando e isso reflete diretamente na maneira como o público vê o garoto. Lembra do jogo psicológico que falei no início da crítica? Pois então. Com isso, não se torna tão cruel aceitar que os próprios pais do garoto acreditam que ele é o verdadeiro responsável pelo crime.

O mix de sentimentos que ‘Em Defesa de Jacob’ proporciona é surpreendente, assim como o desfecho da série. As reviravoltas em relação ao crime – principalmente no último episódio – a viagem da família para o México e a revelação de novo segredo por Andy fazem você literalmente voltar à estaca zero. O suspense volta à tona e te faz pensar e repensar por várias vezes o que pode estar nas entrelinhas da história e qual é a verdadeira relação de Jacob com o crime.

As atuações acertadas de Evans, Dockery e Martell deram um diferencial acertado na produção. Com interpretações intensas, em alguns pontos bem frias e duvidosas, os personagens ajudaram a criar um clima de incerteza e reflexão, abrindo espaço, talvez, para uma segunda temporada. E com isso, teremos a chance de responder algumas dúvidas que a série deixou no ar, característica digna de uma boa trama de suspense.

Em Defesa de Jacob‘ está disponível na Apple TV+ e a assinatura pode ser feita por usuários no Brasil. Veja o trailer abaixo:

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Crítica | Control Z – 1ª temporada

A produção fisga o público e garante boa recepção a uma próxima temporada, sem manchas na estreia.

A protagonista da série é a adolescente Sofia Herrena, vivida por Ana Valeria Becerril. (Foto: reprodução)

O enredo das produções mexicanas, de um modo geral, costuma pegar emprestado o tempero apimentado da culinária do país para incrementar narrativas. Com a série Control Z não foi diferente. O drama teen possui em sua receita escândalos picantes, traumas do passado e segredos sobre a vida dos adolescentes de ensino médio que formam seu elenco central.

Produzida pela Lemon Studios para a Netflix, Control Z traz em oito episódios uma reviravolta na vida de estudantes, pais e funcionários da escola, causada pela ação de um hacker que começa a revelar publicamente os segredos de alguns alunos e até do diretor da instituição. Chantageados, eles precisam contribuir para a revelação de algo pessoal de outra pessoa para protegerem o próprio segredo das mãos do hacker.

Para sustentar a premissa de forma mais convincente, a série mostra uma escola bem estruturada, com cobertura de vidro, acesso liberado à internet e, consequentemente, alunos de famílias que têm absoluta condição de manter seus filhos matriculados nela. Isso contribui para que hajam subornos, festas, casas e carros luxuosos que movimentam as cenas em torno do eixo de ação principal: descobrir quem é o hacker.

Elementos secundários à parte, temos a protagonista Sofia Herrera (Ana Valeria Becerril), que antes de retornar às aulas naquele ano passou o verão na ala psiquiátrica de um hospital. Como é de se esperar, tendo em vista as últimas produções do gênero na Netflix, a personagem assume a figura de uma adolescente solitária, com aspectos depressivos e ansiosos que, durante crises, faz com que ela recorra a fazer cortes no prórprio corpo.

Para absorver as mensagens que a produção pretende passar, porém, o público precisa se voltar apenas à característica marcante da protagonista: a aguçada capacidade de observação. Já que, apesar de abordar temas pertinentes, Control Z não prende muito pelo diálogo e sim pelas suposições que desperta sobre a menina mais bonita da escola, que na verdade é um menino, pelo “malvadinho” que usa a valentia para encobrir aquilo que ele entende como uma fragilidade sua e pela menina boazinha que esconde a prática de fazer roubos.

Todos esses pontos são expostos pela ação do hacker. Em pararelo, a chegada do novato Javier Willians (Michael Ronda), filho de um famoso jogador de futebol faz com que Sofia, que decidiu descobrir quem está por trás do hacker, tenha agora um aliado nessa busca. O que ela não sabia no início é que até mesmo Javier tem envolvimento num terrível assassinato que foi silenciado com a fortuna e fama do pai.

A riqueza também apresenta papel importante na vida de Raul (Yankel Stevan), personagem de aparição tímida nos primeiros episódios da série para posteriormente se tornar o pivô de todas as mazelas ocorridas até então. A partir daí, a série dispara para a possível resolução do conflito principal e manobra com excelência a necessidade de abriar clichês como o fato de dois garotos, Javier e Raul, estarem apaixonados por Sofia enquanto os demais fatos de desenrolam em volta deles.

De maneira muito perspicaz, o sétimo episódio de Control Z é formado por flashbacks para instigar o público a pensar: “então é isso”. Contudo, não deixa a dedução vir de maneira fácil pela posterior sequência de acontecimentos em timelapse mostrando a realidade por trás das ações de cada personagem.

Já a revelação sobre quem é o hacker, nesse ponto, não poderia ser feita de outra forma senão pela dedução fato por fato de Sofia, nada imprevisível. Ainda mais quando se soma o fato de que mais uma vez era alguém que estava ali o tempo todo. Embora seja mais do mesmo, temos aqui os questionamentos provocados pelo último episódio: apesar das perdas, os personagens de fato viverão melhor com os seus segredos expostos? Valeu a pena mesmo fazer tudo isso?

Deixando várias questões no ar como, por exemplo, o que de fato acontece com o pai de Sofia e também como ficará a situação dela, de Javier e de Raul, a primeira temporada de Control Z consegue fisgar o público de maneira que este seja muito bem receptivo à sua próxima temporada, sem marcar de forma negativa sua estreia. Vale a maratona!

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