Crítica | LOVE – 3ª Temporada





20/03/2018 - Atualizado às 17:44


Talvez seja seguro dizer que o maior acerto de LOVE (LOVE, 2016 – 2018) tenha sido sua abordagem não convencional e até meio cínica dos relacionamentos amorosos. Por se afastar o tempo todo da perspectiva idealista das comedias românticas, por exemplo, a série de Paul Rust, Judd Apatow e Lesley Arfin aproximou sua análise da realidade, transformando seus protagonistas Gus (Rust) e Mickey (Gillian Jacobs) em personagens complexos e críveis que, com seus dilemas pessoais e profissionais, criam elos de identificação imediatos com o público.

Até mesmo a faixa etária de seus personagens (acima dos 30) nega o caminho fácil do amor juvenil pra encarar tretas amorosas de gente grande. É como se o mote quisesse dizer, com senso de humor afiado, que de perto ninguém é normal. Pode até parecer meio óbvio se posto assim, mas todos nós temos nossos machucados de percurso, nossas bagagens, ilusões perdidas, memórias felizes, decepções profundas. Mesmo aqueles que aparentam ter um equilíbrio emocional inabalável, quando postos sob a lupa, expõem seus fantasmas. Todo mundo é doido, siô. O que muda é a forma como cada um lida com essa montanha russa maluca de sensações.

De fato, o humor tão bem aplicado foi perdendo o gás ao longo dos episódios e isso talvez ajude a explicar o fim prematuro da série agora na terceira temporada. Dito isso, LOVE não traz uma narrativa com grandes reviravoltas e cliffhangers. O que interessa é o trato que o texto dá a seus personagens, desenvolvendo e complicando cada um e no caminho fazendo a gente refletir sobre a engenharia insana dos relacionamentos.

Nesse sentido a estrutura da terceira temporada é um pouco disforme. Enquanto Gus e Mickey ajustam suas diferenças, os maravilhosos personagens secundários Berthie, Randy e Chris (Claudia O’Doherty, Mike Mitchel e Chris Witaske) envergam um triângulo amoroso que frequentemente rouba o foco dos protagonistas. Mas o destaque fica no episódio 11, “Aniversário de Casamento”, onde Gus, típico cara que tanta agradar todo mundo e não agrada ninguém, tem a chance de deixar cair todas as máscaras.

E é muito interessante que a partir disso ele consiga se entender melhor com Mickey, já que nós usamos máscaras sociais o tempo inteiro como mecanismo bobo de defesa, mas não percebemos que essas recusas podem ter efeito reverso e nos afastar das pessoas. É sensacional, portanto, que a série tenha destacado a importância da franqueza e transparência para que um relacionamento funcione de fato. (E o parágrafo seguinte contém spoilers. Podem pular pro último, de nada).

Mas justamente por ter escolhido um caminho não convencional na abordagem, LOVE soa um pouco frustrante com seu final de novela, com casamento e belas paisagens.  O contrato do casamento é maravilhoso, mas não é o único desfecho possível, certo? Bom, talvez Gus e Mickey se perceberam livres das pirações, numa relação que finalmente respira leve, e assim decidiram encarar o amorzinho romântico e dizer “sim” no altar. Vá lá.

De todo modo, o saldo das três temporadas de LOVE é muito positivo, especialmente se encarado como um eficaz estudo de personagens e relacionamentos. A história de Gus e Mickey é um pouco a história da gente, cheia de erros e acertos – e isso explica que a gente por vezes tenha sentido tanta raiva deles – mas sempre com muita torcida pela melhor resolução possível. Afinal, ser adulto é difícil, se relacionar é muito complicado… Mas, meu, a gente sobrevive. Viver é tudo de bom!