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Crítica

Crítica | Locke & Key – Temporada 1

Série é um case perfeito de como é ter potencial de sobra e personagens que não levam a sério nada do que acontece em cena.

Original dos quadrinhos de Joe Hill, filho de Stephen King, a história de Locke & Key demorou 12 anos para ganhar vida na televisão. Com a debandada de títulos de grifes para os streamings dos respectivos donos, coube a Netflix botar a mão no bolso para apostar algo nos novos produtos que farão a assinatura valer o preço que tem. O serviço já percebeu há muito tempo que o engajado público jovem é uma fonte potente de dinheiro e repercussão. Locke & Key (2020), então, acena pro público na esperança de ser uma nova “Sabrina”, mas se atrapalha na pretensiosa narrativa de suspense, ainda que sobre potencial e magia no arco principal.

Com certeza, você já deve ter visto algo parecido com o argumento principal de Locky & Key por aí. Crianças lidando com forças sobrenaturais não são raras na ficção. A série acompanha a família Locky, que é forçada a se mudar de Seattle (EUA) para uma casa antiga da fam´lia em Matheson (EUA) depois que o patriarca da família, Rendell (Bill Heck), é assassinado. Já instalados, os filhos da família descobrem que a casa tem chaves mágicas que lhes dão vários poderes e habilidades. São eles Tyler (Connor Jessup), Kinsey (Emilia Jones) e Bode (Jackson Robert Scott). Entretanto, como era de se esperar, alguém do mal também está de olho nessas chaves.

Temos aqui dez episódios. Logo no primeiro, dois paralelos começam a se traçar e ficar mais evidentes ao longo da aventura: um que aponta para um potencial narrativo gigantesco que permite arcos com infinitas possibilidades e profundidades – com margem até para pensar em universo expandido; e outro que dilui essas possibilidades ao descer o sarrafo para tornar-se tão interessante quanto as colegas de catálogo, que dividem o arco principal com namoricos e conflitos típicos dessa fase da vida.

O primeiro paralelo – o das possibilidades – só existe porque Locke & Key tem ao seu favor um roteiro que consegue construir uma realidade para aqueles persongens com elementos realmente estimulantes. No entanto, em total dessincronia com essa construção, não existe um personagem sequer que aja em conformidade com o peso dos fatos que movimentam a série.

Mortes acontecem, chaves são descobertas, elementos mágicos surgem em cena, mas nada disso parece ter valor ou peso para protagonistas ou coadjuvantes. Na dinãmica da série, é comum personagens enfretarem momentos violentos e, em seguida, aparecerem sorrindo, tomando café da manhã. Ou entediados com fone de ouvido logo após descobrirem uma chave que faz coisas absurdas. Qual o sentido disso?

Se os personagens de Locke & Key não levam a sério os acontecimentos que fazem a série girar, por que nós devemos? Um demônio invade uma escola, fere uma personagem e isso não tem relevância nenhuma? Se discute como se estivessem todos em “Para Todos os Garotos que Amei”? Sem condições.

As chances são grandes de uma segunda temporada acontecer. Tanto pelas próprias respostas que a série deixou no ar quanto pelo fato da Netflix não estar em condições de lançar produtos e não explorá-los ao máximo. Que nos próximos episódios, que devem chegar no início de 2021, os Locke possam ter mais responsabilidade ao lidar com perdas, ganhos e acontecimentos em um universo tão rico quando o que eles têm.

Crítica

Crítica | A Vida e a História de Madam C.J. Walker

Minissérie mistura ficção e realidade sobre a brilhante trajetória da primeira negra milionária dos EUA.

A missão de interpretar Walker foi abraçada pela atriz Octavia Spencer.

Produções baseadas em fatos reais, principalmente quando trazem histórias inspiradoras, são sempre necessárias desde que preservem ao máximo o conceito briográfico da coisa, é claro. Aqui, temos uma minissérie com quatro episódios que passeia por situações de racismo, machismo, pobreza, abuso e a luta para vencer tudo isso.

A Vida e a História de Madam C.J. Walker conta a trajetória de uma mulher que não só se tornou a primeira negra milionária dos Estados Unidos como também tem seu nome registrado no livro dos recordes pelo feito, considerado algo inalcançável na época em que viveu (1867 – 1919).

Madam (em português ‘senhora’) é, na verdade, Sarah Bredlove, que decidiu abandonar sua vida de lavadeira para construir uma fábrica de cosméticos. A figura de Sarah foi alvo da obra biográfica da jornalista americana A’Lelia Bundles, que contribuiu significativamente para a construção da narrativa da minissérie original Netflix.

Contudo, a produção não conseguiu abrir mão da ficção para definir a espinha dorsal da narrativa, que evidencia uma rixa entre Sarah (Octavia Spencer) e Addie (Carmen Ejogo), sua concorrente no ramo da beleza. Addie, na vida real, foi Annie Malone. Ela empregou Sarah, assim como mostra a minissérie, mas não a perseguiu da mesma maneira abordada nas cenas.

A oscilação entre realidade e ficção, ainda assim, não tira o gosto de apreciar os episódios, que são bem marcados e divididos. O que, vai por mim, facilita bastante a maratona! A capacidade de identificação com vários públicos também é um ponto positivo que deve impulsionar a escolha de assistir à minissérie.

Sem falar que a grande vitória de Walker foi, sem dúvidas, alcançar o objetivo de construir sua fábrica. Não espere, portanto, nada menos que bons aprendizados para aplicar no empreendedorismo (e na vida!).

Mas, apesar dos pontos positivos, a ressalva vai para o desfecho confuso que foi adotado e que apresenta um contraste com a linearidade das cenas de embate entre Sarah (Octavia Spencer) e Addie (Carmem Ejogo). No desenrolar dos fatos, as lutas e preconceitos suportados por Sarah acabam ganhando mais brilho do que o momento que deveria ser de triunfo: sua conquista empreendedora.

Ao final, sobram incertezas acerca da integridade do trabalho desenvolvido por Walker que provavelmente não estavam na lista das boas intenções que a produção queria provocar diante de uma trajetória tão marcante como a de Sarah Bredlove.

A quebra de expectativas do final é minimamente compensada pela atuação da premiada Octavia Spencer. Indiscutivelmente, a entrega dela ao papel é feita não só pela Octavia atriz mas também pela Octavia pessoa, mulher e negra com postura mais que inspiradora e empoderada.

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Crítica

Review | She-Ra e as Princesas do Poder (4ª Temp.)

Nova fase da animação revelou alguns segredos e prepara público para ponto de virada na série.

A Honra de GraySkull está mantida? Talvez. A resposta para a pergunta somente na próxima temporada de She-Ra e as Princesas do Poder em 2020. Um ano depois da estreia da série, a 4ª temporada (que estreou 5 de novembro) deixou um sentimento de “e agora?” muito forte durante o processo de introdução de novos elementos.

Ressalto aqui também que quem leu a review da temporada anterior pode perceber que acertei na teoria. A antiga She-Ra daria as caras (embora somente em flashbacks da Madame Rizzo) e a aparição do Rei Micah seria agora justo após a morte de Ângela (que agora tenho minhas dúvidas!). Micah apareceu, mas não como o Cavaleiro Vermelho, como é na trama original. Nem um demérito ao reboot por causa disso. Só na traição de Sombria que minha pergunta permanece no ar. Seguindo!

Das quatro temporadas apresentadas até aqui, a última é a mais intensa. O fato de voltar a ter 13 episódios ajudou bastante. Mais tempo de tela reforça a construção de todas as personagens: protagonistas, coadjuvantes e antagonistas.

Foi o que Noelle Stevenson fez com a sua equipe de roteiristas. Para esse review focaremos em um trio de personagens e um extra: Cintilante, Mara e Scorpia, além de Hordak.

A coroação da jovem Cintilante, após o sacrifício de Ângela, deveria ter amadurecido a personagem. Cintilante, ao meu ver, foi a quem menos evoluiu nesta temporada. Ou melhor, até tenha evoluído, mas em consequência o seu lado mimado acompanhou o processo. Sua compostura diante dos amigos e aliados revela muita insegurança. Normal, se considerarmos que agora como rainha ela não estava preparada para o papel e a perda da mãe. No entanto, seus atos desesperados forçaram toda Etheria conhecer um obstáculo bem mais difícil que Hordak e Felina.

A nova rainha mudou o visual, mas não mudou as atitudes

Por outro lado, conhecemos Mara. Até então apenas citada ou em aparições rápidas, a personagem foi uma das protagonistas do episódio “Heroína” e nos ajudou a entender o que realmente estava se passando no planeta. A She-Ra anterior, que é um acréscimo bem válido à mitologia da franquia, resgata a personagem Mara com muito empenho e nos revela que os “Primeiros” (por que não Eternianos?) tem um propósito não tão nobre e abre espaço para novas apostas e teorias. Sua relação com a Esperança da Luz e Madame Rizzo chegam ao grau de melancolia na trama e dão o tom mais solene à temporada. Impossível não se identificar com ela.

Como já está bem claro, as chances de He-Man fazer ponta na série é mínima, quase zero, mas os elementos que o cercam não. Veremos na próxima fase o Castelo de GraySkull? A Espada do Poder? Ela, a espada, já existe ou será ainda criada? Essa última pergunta é um reboot de mais alto nível à mitologia e portanto pouco provável. O certo é que sabemos que Mara era dos Primeiros e eles serão o próximo foco da trama.

Das três personagens que destaco, Scorpia é quem mais curti na temporada (novamente me rendo ao seus pés garota!). O crescimento de sua personalidade, dado seu lado mais infantil, rendeu uma surpresa maravilhosa ao vermos ela compreendendo o quão tóxica é a figura da Felina. Parabéns Scorpia! E ela é tão amável! Mesmo reconhecendo a toxicidade da outra continua a amando (pode ser um ponto fraco dela, mas sem isso ela não seria a fofa que é). De quebra, não posso esquecer que acertei de novo aqui quando conjecturei que poderíamos vê-la com a Grande Rebelião. Mais um ponto para mim!

O extra pra essa review é Hordak. O lado passional do vilão nem de longe condiz com o bufão da série clássica e isso é maravilhoso. Sua melhor cena é aquela onde as lágrimas mistas de alegria pela não-traição de Entrapta e o ódio pelas mentiras de Felina ficam retidas sobre a face em poucos segundos. Mas não esqueçam: ele ainda é vilão!

Por fim, o que foi Double Trouble?! A nova personagem é o tipo de personagem que mais detesto. Contudo, o metamorfo foi o elemento mais significativo para todos os acontecimentos da temporada. Já espero mais canalhices. Sobre Double Trouble, é necessário dizer que sua introdução na trama, por parte de Noelle Stevenson, não é tão original assim como alguns sites anunciavam. Double Trouble já existia na franquia, mas apenas nos quadrinhos.

Dohble Trouble, em novo design, é símbolo de representatividade na animação de Noelle Stevenson

Antes chegou a ser a prima de Cintilante com altas habilidade de disfarce. Agora Noelle repagina a personagem dando-lhe um outra proposta e fazendo-o assumir características que acredito ser numa referência a uma personagem não-binária. O bônus aqui foi o fato dela representar em suas transformações outra personagem da franquia que ainda não havia aparecido: Flora, a princesa com asas de borboleta, embora ao que parece em apenas um fanservice. Assim como foi com Octavia, capitã das tropas navais da Horda, que também apareceu na série dos anos 1980.

She-Ra e as Princesas do Poder segue firme com uma trama convincente e equilibrada em drama, humor e fanservice (as referências a Vassorito, Corujito e Geninho me animaram). A chegada do Mestre da Horda revela que algo mais sombrio está por vir. Aviso que não acredito na Felina, logo aguardem mais atos egoístas dela.

Com a Espada da Proteção em frangalhos estamos sem She-Ra. Adora será capaz de restaurar a Honra de GraySkull? Esperemos.

Confira as reviews anteriores:

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Coluna Leandro Giometti

Crítica | Watchmen (piloto da série)

Derivado da famosa HQ, o piloto de Watchmen vai na onda de Coringa e entrega uma obra intensa e realista

Watchmen

O piloto de Watchmen termina e você entende exatamente qual é a proposta de Damon Lindelof: a fidelidade pelo conceito criado no universo da clássica HQ de Alan Moore e Dave Gibbons e promover uma trama envolta no mistério característico, marca registrada do diretor e roteirista, criador de Lost e The Leftovers.

De cara, vai chamar a atenção também o visual arrojado e a edição ousada, mas será na atualização relevante da narrativa – com comentários políticos e sociais diretos que podem ser lidos como críticas ao ultaconservadorismo atual – e a abordagem bastante realista a chave que atingirá mentes e corações. E, mesmo que a série se passe em uma realidade alternativa, assim como no filme de Zack Snyder, ela é muito mais semelhante à nossa.

Trinta anos após os eventos finais da HQ (e do filme), os vigilantes mascarados ainda estão nas ruas e ajudam a polícia. Eles são heróis anônimos, mas agora são pessoas comuns, que tem vidas normais, sem o culto de personalidade que outrora tinham Coruja, Comediante e Spectral. Os fãs certamente irão vibrar com a precisão dos detalhes e as referências – um tanto diferente da opção pela estilização do longa assinado por Snyder – onde está explícita a paixão de Lindelof pela obra de Alan Moore. Porém, aos não iniciados no universo da HQ, Watchmen também funciona muito bem como uma série derivada e independe, ainda que possam se sentir interessados a entender certas excentricidades.

Em um momento em que, as obras baseadas em quadrinhos podem entreter a partir de um novo conceito, embaladas pela visceralidade real de Coringa, Watchmen é brilhante na medida em que entrega uma experiência nessa mesma intensidade. Com momentos impactantes, ótimas atuações (Regina King, Jeremy Irons e Don Johnson excelentes) e elementos técnicos irrepreensíveis, a série da HBO sustenta uma história promissora cujo caminho ninguém faz ideia onde vai dar mas, de forma inteligente, instiga a pensar, mantendo a audiência interessada e atenta. 

Expectativa altíssima para os próximos 8 episódios.


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