Crítica | It – Capítulo 2


Por Davi Coelho

Qual a necessidade de 2h50min de filme? É a pergunta pertinentérrima que muitos estão se fazendo em relação a esse It – Capítulo 2 (It – Chapter 2, 2019). E nesse caso é preciso considerar duas coisinhas: uma é que o primeiro filme, de 2017, deixa várias lacunas a serem preenchidas aqui; outra é que o calhamaço de Stephen King no qual o roteiro se baseia ostenta nada menos que 1104 páginas. (Pense num rolê pra matar este palhaço). Resta saber o seguinte: os 170 minutos são devidamente bem aproveitados nessa continuação? Vem comigo.

Bom, as questões deixadas pelo primeiro filme dizem respeito principalmente à lógica interna da história: origens do palhaço Pennywise; o que explica suas habilidades macabras; o lance do retorno em 27 anos etc. E nesse quesito as respostas estão todas presentes – e até um pouco além da conta, vá lá. Além disso, o roteiro precisa reintroduzir o “Clube dos Perdedores” reapresentando cada um dos membros e pincelando um panorama de suas vidas adultas.

Sendo assim, o roteiro de Gary Dauberman (craque no Cinema de gênero) vai atrás do ritmo e a direção de Andy Muschietti, outra vez muito imaginativa, investe em transições de cena superinteressantes, como aquela que transforma um céu estrelado em pecinhas de um quebra-cabeças ou em sequências que mesclam elenco adulto e infantil a serviço da narrativa. Aliás, num filme como esse, que transita entre medos internos dos personagens, a imaginação é mandatória do começo ao fim.

E nesse sentido o trabalho da Direção de Arte assinado por Nigel Churcher é fantástico. Churcher traz o ímpeto criativo que já provou ter em A Forma da Água, Scott Pilgrim e tantos outros. Aqui se brinca com todo tipo de distorção de cores, formatos e proporções pra intensificar o aspecto hediondo das criaturas que surgem ao longo do filme. A sequência que envolve a estátua da cidade de Derry é particularmente inspirada, já que se dá em um ambiente aberto e durante o dia. Assim como o parque de diversões num dia nublado e a escola de longos corredores vazios também apontam para um trabalho caprichado de cenografia.

E aí chegamos a outro ponto central: o elenco. Com certeza Eddie por ser mais caricato com sua hipocondria e o jeito apressado de falar, acaba sendo um personagem mais “fácil”, mas todos os atores conseguiram um tom de aproximação com o elenco infantil (também ótimo) que vai além da semelhança física. E palmas especiais para Bill Skarsgard que faz um Pennywise tão expressivo mesmo embaixo de toneladas de maquiagem. Repare em como ele brinca com alterações na voz, por exemplo. E observe que mesmo sendo um elenco grande, cada um deles tem subtextos pertinentes, devidamente bem explorados e até bem emocionais também.

Então, respondendo a pergunta do primeiro parágrafo: sim. O filme utiliza satisfatoriamente sua longa duração – talvez uma cena ou outra pudesse ser reduzida, como aquela do jantar no começo do filme, mas não há cenas excessivamente extensas que prejudiquem o ritmo de uma forma geral. Um ponto negativo, no entanto, é uma abordagem de violência gráfica severamente acessória, especialmente no primeiro ato. Qual a real necessidade? Nenhuma.

De todo modo, mesmo com tantos acertos, ele repete o mesmo “problema” do primeiro. Pennywise assusta muito mais com seus truques de palhaço, sua natureza circense subvertida para o macabro, suas investidas para enlouquecer e matar… mas na surdina, de tocaia. O desfecho tanto lá quanto cá, inevitavelmente expõe demais sua figura, minimizando bastante o tom de ameaça que ele representa e consequentemente, a sensação de medo na plateia. O clímax não deixa de ser interessante, mas durante o trajeto o filme consegue efeitos bem mais imersivos que em seu momento final – o que não deixa de ser irônico já que se discutem os “finais ruins” dos livros de Bill (McAvoy) o tempo inteiro.

Seja como for, It – Capítulo 2 passa a régua e fecha a conta como um belo exemplo de estética para o terror no Cinema, onde a criatividade, sobretudo visual, é o imperativo. Que o diga o icônico balão vermelho flutuando e flutuando…

Observação: Os cameos do glorioso Peter Bogdanovich e the one and only Stephen King são a cereja do bolo 😉