Crítica | It – A Coisa





10/09/2017 - Atualizado às 12:25


It – A Coisa (It, 2017) é um filme de escolhas arriscadas. Primeiro porque a ideia do palhaço sinistro parece um pouco deslocada do nosso tempo em que o terror no Cinema triunfa muito mais no sobrenatural que nas franquias de “monstros”, tão bem sucedidas no passado. Depois, porque It pertence a um filão de obras ancoradas na indústria da nostalgia, algo que se aproxima cada vez mais depressa da saturação. Dito isso, é surpreendente que o filme de Andy Muschietti, usando os ingredientes corretos, consiga um resultado preciso: não é só um filme de sustos, mas de terrores muito mais profundos que apenas medo de um sujeito numa fantasia de palhaço.

Ambientado entre 1988 e 1989 (sim, a febre dos anos 80) o roteiro de Gary Dauberman, Chase Palmer e Cary Fukunaga traz o famoso prólogo com a cena do barquinho que nos apresenta à figura bizarra de Pennywise, o “palhaço dançarino”. Vai vendo. Daí em diante um grupo de adolescentes, o “Clube dos Perdedores” se habilita a investigar o desaparecimento de outros garotos – e o faro dessa turma vai desenhando a ligação desses crimes ao tal palhaço.

Um truque esperto do roteiro é balancear as cenas em que “A Coisa” aparece com outras do mais ensolarado contraste. O que salva o filme de ter, do começo ao fim, uma atmosfera opressora como é o trabalho anterior do diretor, Mama (2013). E assim, as semelhanças com outros filmes aos poucos vão ficando mais claras. A cena do penhasco, por exemplo, é igualzinha a que vemos em Diários de um Adolescente (1995). Aqui e lá os personagens, mesmo que só por um tempinho, se permitem ignorar a realidade triste e cruel que os rodeia para aproveitar as benesses da temporada de verão.

E é nesse ponto em que “It” se aproxima em tantos aspectos do filme Conta Comigo (1986), um marco absoluto do cinema-aventura-com-adolescentes-se-metendo-em-altas-confusões. Conta Comigo é também baseado na obra de Stephen King (o conto “O Corpo”, bem mais lúgubre que o filme) e isso explica bastante. As crianças e suas bicicletas tentando resolver problemas de polícia é só um dos cruzamentos entre uma obra e outra – o destaque fica mesmo por conta dos dramas pessoais que cada um deles esconde em casa: veja lá o bullying, o abuso sexual, a perda de um ente querido, a orfandade, a responsabilidade de superar as expectativas depositadas pelos pais, entre outros.

É essa instabilidade que Pennywise busca, canalizando o peso de cada drama a seu representante mais pungente: o medo. E quando o filme mistura “ilusão” e realidade é que surgem cenas realmente impactantes como o banho de sangue no banheiro ou, claro, tudo que gira em torno do clímax. Não por acaso, A Hora do Pesadelo (1984) aparece ali como Easter Egg – é outro exemplo de filme que brinca com o subconsciente, o espaço dos sonhos, onde qualquer coisa pode acontecer.

Focando a narrativa no ponto de vista dos adolescentes e desenvolvendo tão bem as nuances de cada um deles (sem abrir mão de toques precisos do mais fino humor juvenil) o filme faz com que nos preocupemos com o destino daqueles personagens – o que de certa forma intensifica o temor quando ele surge. Com o roteiro tão bem apurado nesse sentido, é de se estranhar que algumas pontas fiquem soltas e perguntas passem sem respostas. Há muito a se saber, por exemplo, sobre a natureza de Pennywise ou sobre os crimes cometidos ali e que nunca são elucidados.

De todo modo, “It – A Coisa” é um filme aterrorizante por saber buscar na plateia medos verossímeis sintetizando cada um deles na grotesca imagem de um palhaço que, como qualquer coisa na vida real, nunca é apenas o que aparenta.