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Críticas de Séries

Crítica | Ilha de Ferro

Com qualidade técnica apurada, seria tudo perfeito se ‘Ilha de Ferro’ não tivesse um roteiro tão fraco.

Foto: Divulgação/Globoplay

Pensar que uma emissora de TV pudesse apostar tão alto no futuro do streaming seria algo estranho de pensar até pouco tempo atrás. Mas o Globoplay, plataforma da TV Globo na internet, está apostando alto para ser ‘a casa do talento brasileiro’ e ter um valor de mercado semelhante ao da Netflix do Brasil. Nessa brincadeira, já surgiram produções como Carcereiros, Sob Pressão e Ilha de Ferro, que é sobre quem falaremos agora.

O drama conta a história de Dante (Cauã Reymond), que é o coordenador de produção da PLT-137, uma plataforma petrolífera recordista de acidentes. Ele sonha em se tornar gerente do local, mas fica revoltado quando percebe que precisa competir com a recém-chegada Júlia (Maria Casadevall) pelo cargo. No entanto, é no meio dessa disputa que acaba surgindo uma paixão entre os dois capaz de mudar o rumo de suas vidas.

Ainda que muita gente torça o nariz para qualquer produção brasileira que seja protagonizada por atores globais, aqui isso não precisa ser uma questão. O texto de Mauro Wilson e direção de Afonso Poyart desviam de diálogos artificiais e criam boas condições para atuações menos caricatas. Sem dúvidas, aqui, Sophie Charlote entrega a melhor atuação da carreira.

No entanto, é no roteiro que surgem os principais problemas de Ilha de Ferro por causa da falta de assunto. O grande arco narrativo da série se apoia num romance problemático e não tão carismático quanto pretendido, que gira em círculos infinitos e demora para ter qualquer avanço. Não existe um objetivo determinado, uma grande tarefa a ser cumprida ou sequer um vilão a ser combatido. Funciona como série procedural para encher linguiça enquanto o casal se desenvolve e só nos últimos episódios tira do limbo uma subtrama que se torna o pico de ação da história. Mas até chegar nesse ponto, o espectador é cozinhado demais.

A fragilidade do roteiro se escancara, ainda, quando apresenta quase toda cartela de personagens como pessoas infelizes e amarguradas sem conseguir distribuir esses dramas entre os longos 12 episódios, que mergulha no drama sem quase nenhum espaço para diálogos que rompam com essa tensão. Há casos, ainda, de personagens que interferem na trama, mas são mal trabalhados como Astério Medeiros (Milhem Cortaz) que some de repente e Sileno Matos (Júlio Rocha) que aparece do nada e numa frustrada intenção de alívio cômico.

De qualquer forma, talvez só um roteiro realmente sofisticado fosse capaz de se igualar ao melhor que Ilha de Ferro oferece. E não, não se trata do bom trabalho de Cauã Reymond ou no esforço de Maria Casadevall. Mas, sim, no primor técnico da direção artística e geral do cineasta Afonso Poyart, que traz uma estética que não deixa nada a desejar para qualquer produção estrangeira.

Há a sensação, ainda, de que a direção de arte é tenta ajudar a desenvolver a personalidade dos personagens em tela através de ilusões e desvaneios aparentemente abstratos.

A grosso modo, Ilha de Ferro começa bem, com estética que impressiona e personagens fortes. A história não se sustenta após o primeiro episódio, cumpre os quesitos técnicos, atinge seus melhores momentos nas sequências de ação, mas rompe, infelizmente, tem um roteiro pretensioso demais ao drama. De qualquer forma, é um bom passo para o fortalecimento do segmento de séries nacionais e merece uma chance de quem estiver disposto a dar.

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