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Crítica de Filme

Crítica | Homem-Formiga e a Vespa

Desenho animado com força de filme de herói.

Foto: Divulgação/Marvel

Homem-Formiga talvez seja o personagem mais despretensioso e relax do Universo Cinematográfico da Marvel. Praticante contumaz do Deboísmo, o “Homem-Formiga” remete a qualquer herói de paródia, como SuperMouse ou Formiga Atômica ou até, vá lá, o Chapolin e suas pastilhas de nanicolina. Se há um paralelo com o ‘cartunesco’ muito claro aqui, não é por acaso mesmo. E o humor maluco de desenho animado, que entra em contrapeso à lógica, impede que a história seja levada a ferro e fogo. E isso é ótimo. Vamo lá.

Essa nova aventura é toda costurada pela relação familiar. Repare que o passado da Hope van Dyne/Vespa (Evangeline Lilly) e o presente de Scott Lang (Paul Rudd, nasceu pro papel) são análogos e isso faz com que eles se unam como dupla de uma forma orgânica – sem falar, claro, na instância romântica. A premissa é bem simples e, se for ver, sofre do mesmo efeito colateral que aquela vista em Guerra Infinita: a lógica (ou falta dela) é muito maleável. E quando Scott diz “Vocês usam ‘quântico’ antes de qualquer palavra?” esta é uma fala que atesta a consciência do filme diante dessa groselha desenfreada com fundilho científico.

A inteligência do roteiro, entretanto, reside justamente na habilidade de rechaçar essas refutações com um forte senso de auto-zoação. A exemplo da cena em que toda a trama até ali é explicada para uma criança, como se esta fosse um adulto. Ou o fato de que o herói do título é um forasteiro naquele mundo de nomes complicados e coisas que encolhem e desaparecem e tudo mais.

O Homem-Formiga é, portanto, os olhos do público no filme e como ele frequentemente dá de ombros para os pormenores técnicos… só nos resta dar de ombros também. Mas veja que esse efeito só é bem sucedido por que para os demais personagens (o de Michael Douglas, especialmente) a ciência é matéria da mais alta seriedade. A eles tudo faz muito sentido e se é assim, a gente acredita. Eles é que têm que saber mesmo. Tá acompanhando?

Dito tudo isso, os efeitos de proporcionalidade e deslocamento tornam o filme graficamente muito interessante. E é quando eles investem no humor que a coisa flui mesmo. O vilão Sonny Burch (Walton Goggins) e seus capangas lembram a caricatura de crápulas da máfia, como aqueles de O Máskara (1994), assim como a equipe de aliados do Homem-Formiga são atrapalhados, mas cheios de boas intenções. A gag do Soro da Verdade tá ali pra confirmar o talento para a risadagem na direção de Peyton Reed.

E aí a gente chega às personagens femininas: A Fantasma (Hannah John-Karen), que parece uma mariposa albina, é de um visual absurdo, incrível; mas a motivação da criatura é um pouco confusa – não precisa atrapalhar a missão-família para resolver o próprio problema, precisa? É o Dick Vigarista? Peralá. Mas a Vespa é de fato o toque que faltava pra que a sequência superasse o original – muito mais que um sidekick feminino, a Vespa é, sozinha, um arraso.

Homem-Formiga e a Vespa é um filme divertido, cheio de soluções criativas e bem armado contra a aparente confusão que apresenta. Talvez um bem-vindo alívio cômico na grandiloquência do MCU, talvez “uma historinha bem gostosa de se ver”. O passeio a bordo de uma formiga voadora ou de uma vespa com saudade da mãe, você vai ver, vale a pena.

Crítica

Crítica | Violet Evergarden Gaiden: Eternidade e a Boneca de Automemória

Violet acompanha a história de duas irmãs separadas, mas que se amam.

É muito bom sentar numa quarta-feira de tarde chuvosa em frente ao computador, celular, TV etc. para assistir um bom drama. A história não precisa de um plot surreal. Nada disso! Basta apenas ter sentimento (mesmo que para alguns isso seja muito genérico). Que tal a relação de amor entre duas irmãs separadas por uma razão egoísta? Para mim essa foi a combinação perfeita para um choro contido escorrer por minha face após 90 minutos de cenários belos e trilha sonora cativante.

Essa é a minha dica de quarentena. Violet Evergarden Gaiden: Eternidade e a Boneca de Automemória, spin-off da aclamada série do estúdio Kyoto Animation que entrega um prazer de satisfação a cada frame e cena visualizada. A qualidade da animação que nos cativou tem um gosto especial. O filme de animê é a primeira produção do estúdio a estrear após o incidente que destruiu sua base de trabalho em 2019 (bom frisar que o filme já havia sido finalizado antes do incêndio criminoso que matou 39 pessoas).

Num primeiro olhar, o spin-off não entrega muito mais do que já havíamos visto nos treze episódios originais ou no OVA lançados em 2018. Temos Violet Evergarden com sua habitual personalidade aparentemente apática contando histórias de pessoas ao mesmo tempo que vive e constrói as suas próprias. Até aí tudo bem, mas tudo caminha um pouco diferente aqui. Embora seja a protagonista, Violet sede espaço para as histórias de Isabella e sua irmã Taylor. Não são os dilemas de Violet que conduzem a trama. A autômata de automemórias é a condutora das duas para o palco.

Dividido em dois momentos – com direito a um timeskip de três anos – o filme conta na primeira parte a história da introvertida Isabella; e na segunda parte a da jovem Taylor. No fim, o que vemos é que nossa protagonista amadureceu muito em sua jornada de recomeço e nos sentimos felizes em saber que ela carrega seus sentimentos mais fortes ainda, mesmo estando disposta a aprender novos caminhos.

Talvez um dos momentos mais interessantes do filme seja seu rápido encontro com Luculia (sua colega do curso de autômatas) que nos leva a um diálogo em uma cena seguinte entre Violet, Iris e Erica a respeito de sonhos e ideais que podem ser uma deixa para o que veremos no próximo filme da série (que deveria estrear em abril, mas foi adiado devido à pandemia de COVID-19).

A narrativa de recomeço de Isabella e Taylor nos deixa uma mensagem simples e ao mesmo tempo profunda sobre a força dos laços existentes entre aqueles que se amam. Basta lembrar um do outro não importando a distância, as razões ou as pessoas entre nós que podemos sentir o outro do nosso lado. Isso é amor.

Mais velha, Violet já consegue lhe dar com as várias sensações provocadas pelos sentimentos sem se abalar tanto. Prova disso é que ela conduz as duas irmãs a conseguirem entender uma o sentimento da outra e seguir em frente mesmo separadas.

Em tempos de isolamento social uma narrativa que nos fale sobre amar o próximo que está distante é o ideal para aguentar a solidão. Lembrando que você pode conferir esse filme e os demais episódios da franquia na Netflix.

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Crítica | Dois irmãos: Uma Jornada Inesquecível

Afinal é Pixar, não é?

Ainda no cinema, o filme Dois Irmãos: Uma Jornada Inesquecível (Onward) traz uma premissa interessante. Numa cidade chamada New Mushroomton, baseada em um subúrbio da Califórnia, habitam criaturas que são tipicamente ‘mágicas’: elfos, sereias, fadas, gnomos e unicórnios, por exemplo.

Porém, a magia começou a ser como um recurso desvalorizado com a chegada da tecnologia, considerada mais simples e prática. Para quê aprender palavras mágicas, ler pergaminhos encantados para fazer uma magia de luz quando um simples interruptor resolve isso? Esse é o raciocínio inicial dos personagens. Vale registrar que os primeiro minutos lembram Bright (2017), da Netflix, porém, é claro, com uma estética mais colorida e liguagem direcionada a um público mais jovem.

Dirigido e roteirizado por Dan Scanlon e produzido por Kori Rae, o filme tem tudo que se espera de uma animação desses estúdios. Como havia adiantado em algumas entrevistas, a narrativa é influenciada diretamente pelas história da vida do próprio diretor. Uma das cenas presentes no trailer, por exemplo, em que o protagonista escuta uma fita antiga, é uma espécie de releitura de um episódio que o próprio diretor viveu na infância com o falecido pai.

A estética do filme segue a excelência já característica da Pixar, trazendo um show de detalhes, cores e texturas, sempre com destaque para a reprodução dos cabelos dos personagens, que desde os cachos incríveis de Merida em Valente só evolui. A trilha sonora também merece destaque por ser parte importante na construção do ambiente fantástico do filme – obrigado, Barley, por esse toca-fitas incrível!

Impossível não mencionar o banho de metalinguagem de fantasia e RPG presente ali. Há grandes referência de World of Warcraft (2016), imagens de Senhor dos Anéis (2001) e muitos easter-eggs referentes à Dungeons & Dragons (1974).

O arco principal é basicamente o desenvolvimento da relação fraterna entre Ian Lighfoot (irmão mais novo) e Barley Lighfoot (irmão mais velho), que supera o clichê do irmão mais velho sério e moralista, e desenvolvendo o mais novo com heroísmo empolgante que faz sentido dentro da realidade mágica da animação. Nesse segundo caso, no entanto, sem nada que não tenhamos visto em outros lugares.

A dublagem brasileira é muito excelente. Há muita emoção e sincronia, mesmo em momentos que exigem mais emoção. Dois Irmãos: Uma Jornada Inesquecível é outro filme Pixar que trabalha a morte como tema. Entretanto a intenção da animação não é falar sobre a morte em si – para isso a Pixar tem Viva: A Vida é uma Festa -, mas como ferramenta para valorizar o discurso de “aproveitar o presente”, ainda que o filme se utilize bastante de flashbacks para desenvolver a narrativa.

Ainda que até aqui tenham sido só elogios, é importante frisar que existem outros longas Pixar que são claramente melhores. Longe de ser simbólico como Toy Story (1995) ou Monstros S.A. (2001), Onward repete dramas de filmes anteriores sobre amizade e superação, o que torna o filme mais previsível do que gostaríamos. Logo quando explica-se a forte amizade entre os irmãos, no início do filme, é possível imaginar o desenrolar dessa relação. Jornada do Herói grita.

De todo modo, Onward, ou Dois irmãos, pode não ser o melhor filme da Pixar, mas é uma animação que vale a pena assistir com tudo que temos direito: humor agradável, cenas empolgantes e aquele drama que a gente adora assistir nos cinemas.

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Crítica | Sonic – O Filme

Live-action entrega história simples, mas divertida na telona.

Todo aquela história de que o próprio Yuji Naka (ex-presidente da Sonic Team e um dos criadores do ouriço azul) ficou chocado com a aparência de Sonic nas primeiras imagens divulgadas pela Paramount Pictures pode até ser verdade, mas o resultado do longa-metragem nas telonas me fez pensar se no fim tudo não passou de estratégia de marketing.

Digo isso porque embora não seja mais do que o esperado para um filme adaptado de videogame, Sonic é um live-action divertido e que consegue contemplar a essência da personagem mais famosa da SEGA e um dos ícones dos jogos eletrônicos entre todas as épocas.

Temos nos 99 minutos de filme um roteiro bem humorado e contemplativo sobre a figura do ouriço, afinal de contas protagonismo é isso e precisa ser bem executado. Por mais surpreendente que pareça, a trama amarra muito bem diversos elementos da franquia sem abrir mão de certa originalidade em seus desdobramentos. É o caso da origem de Sonic e os poderes dos Anéis, que ganham uma conotação mais universal e que vão para além de evitar que o personagem chegue ao game over.

Por falar nisso, o filme tem muitos easter eggs bem criativos como a adaptação da famosa primeira fase Green Hills na cidade cenário da aventura. Entre os outros tantos, protagonizados nas falas e ações de Sonic, nada é tão divertido do que vê-lo chamar seu antagonista pelo nome original (Dr. Eggman) numa referência às armas usadas por ele, já que na versão em live-action a personagem vivida por Jim Carrey não é um homem em forma de ovo como nos jogos.

E já que Dr Eggman/Dr. Robotnik está em evidência, o que dizer de Jim Carrey? Novamente uma atuação memorável e que coloca a personagem na nossa memória afetiva como um dos bons trabalhos do ator. O duelo entre o ouriço azul e o gênio do mal é dinâmico durante todo o filme e satisfaz na medida do possível.

Reúne-se a isso a trilha sonora que reúne temas clássicos de Sonic the Hedgehog com hits famosos dos anos 1990 e scores bem elaboradas por Junkie XL, que contam a história do filme em momentos que misturam a linguagem do audiovisual e elementos do jogo eletrônico com um bom resultado.

Por fim, a deixa criada desde o começo do filme com personagens similares a Knuckles, a promessa de vingança de Robotnik e a aparição de Tails nos levam a crer que poderemos ver em breve um Sonic 2 com quem sabe um “Sonicverso”.

É por isso que termino esse texto levantando a mesma hipótese do início: E se o “Sonic deformado” não passou de estratégia de marketing para nos convencer a ir ver Sonic nos cinemas? Se for isso, os envolvidos estão muito enganados ao pensar que não iríamos ao cinema ver o ouriço mais famoso do mundo em ação. Antes isso que comprar a história de que os estúdios responsáveis pelo visual do Sonic se inspiraram no urso Ted para dar realismo ao herói velocista. Quanta bobagem! Não tinha como o Sonic do cinema ser diferente do que esse que aparece na telona.

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