Connect with us

Críticas

Crítica | Homem-Aranha no Aranhaverso

Uma surra de criatividade narrativa que eleva o nível dos filmes de heróis e da animação no Cinema

Depois da trilogia do Sam Raimi, a Sony andou as voltas com o uso do Homem-Aranha no Cinema, que patinou pelo inacreditável Homem-Aranha 3 (2007), pela fase capenga do Andrew Garfield e agora com o questionável Venom (2018). Pelas mãos da Marvel, o cabeça-de-teia vive uma boa fase com o carisma brejeiro de Tom Holland. Mas de volta à Sony, Peter Parker parecia longe de casa (risos) com tantas histórias de origem até aqui. Vai vendo.

Por isso mesmo é surpreendente que Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-man: Into the Spiderverse, 2018) tenha encontrado um caminho pra inovar e expandir as possibilidades não apenas no que diz respeito ao herói, mas também junto à linguagem das animações no Cinema. O resultado é o melhor possível. Um filme enérgico do começo ao fim, altamente explosivo em cores e texturas e que consegue promover um verdadeiro malabarismo de referências que atravessam toda a trajetória do aracnídeo pelas mídias dos quadrinhos, games, TV e Cinema.

Pra quem é fã do personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko, Aranhaverso é um banquete quase sem precedentes. Algumas referências são bem mais explícitas (notadamente aquelas que remontam aos filmes de Sam Raimi e a fase 2.0 da Marvel com os Vingadores e ao jogo pra PS4) outras menos, como as que mencionam passagens em capas clássicas de HQs.

Sendo assim, o que o roteiro de Phil Lord e Rodney Rotman consegue fazer é uma bricolagem sinistra que não apenas homenageia o herói, seus fãs e seus criadores, como também, por intermédio dessa metalinguagem frenética, multiplica as possibilidades narrativas dentro da animação. O filme passeia o tempo inteiro por efeitos de 2D e 3D, uso de retículas, intervenções de cartelas – como aquelas que a gente viu em Scott Pilgrim (2010), só que aqui elas são todas voltadas à linguagem dos quadrinhos, como balões, onomatopeias e intertextos.

E o curioso é que essa abordagem faz todo o sentido dentro da proposta narrativa que traz o adolescente Miles Morales passando pelo transtorno da picada de aranha radioativa e tendo que lidar com cinco outras versões do Homem-Aranha que pertencem a dimensões diferentes. Bom, premissa confusa e muitos personagens geralmente parece a receita para o fracasso, mas aqui há uma conjunção tão bem arranjada entre narrativa e estética que do caos surge a harmonia. Não apenas o argumento de multiverso é bem arranjado, como cada personagem tem o equilíbrio de tempo suficiente de exposição na história.

O filme, dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman também não economiza no uso de cores (outra conexão entre estética e narrativa, já que além da salada metalinguística, o protagonista é amante da arte do grafite). O resultado é uma animação visualmente impactante e ultra-colorida em boa parte das sequências. E repare também a atenção aos detalhes que ao mesmo tempo em que coreografa lindamente as manobras voadoras dos heróis, não deixa de tomar cuidado com minúcias, como as marcas de flocos de neve molhando o cimento ou quando certo personagem tira um saco de pipoca do microondas, se queimando rapidamente com o vapor.

Atento não apenas ao humor-moleque característico do universo do Homem-Aranha (ou “universos”, melhor dizendo), o filme se preocupa ainda na construção de uma malha emocional que conecta os personagens entre si e com o público. Note que a relação pai, filho e tio emociona na medida certa pra não destoar do frenesi que domina a projeção. Sem falar, claro, no cameo de Stan Lee, que dessa vez ganha um contorno diferente.

Aranhaverso é um dos melhores materiais sobre Homem-Aranha feitos até agora e uma das melhores animações dos últimos anos, sem medo de exagero. E que alívio é perceber que, mesmo com a superpopulação de heróis nas telonas, ainda há espaço para inovar, surpreender e expandir possibilidades. “Vai, teia!”

Em alta agora