Crítica | Hebe – A Estrela do Brasil

Hebe transborda nos anos 80: aspecto politizado da apresentadora ganha ênfase na cinebiografia

A história de Hebe Camargo se funde de certa forma com a história da TV brasileira. Isso porque ela esteve lá no quando da fundação da primeira emissora do Brasil, a TV Tupi, no remoto ano de 1950. Bom, quase esteve. Hebe tinha um encontro marcado para o mesmo dia e tendo sido incumbida de cantar na nossa primeiríssima transmissão televisiva, optou pelo date (no que estava correta). A missão acabou sobrando para a amiga Lolita Rodrigues, rendendo esta anedota maravilhosa que foi contada e recontada pelas duas em entrevistas. O fato é que, carismática que só ela, consagrou-se Hebe Camargo como a maior apresentadora da tv brasileira – e tanto é justa a honraria, que mesmo depois de sete anos de sua morte, o posto segue vago. Falemos agora da aguardada cinebiografia Hebe – A Estrela do Brasil (2019), de Mauricio Farias.

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Se valendo de um extenso material de pesquisa, o roteiro de Carolina Kotscho seccionou um período dos anos 80 em que Hebe já era Hebe (mas ainda na era pré-SBT) e manteve o foco nos protestos que a apresentadora fazia, ao vivo, a favor do próprio direito de dizer o que bem quisesse em seu programa. Direito esse que era constantemente combatido pelos zumbis censores da recém-derrotada ditadura – e pelos executivos da tv que temiam retaliações.

Se por um lado essa escolha de roteiro é interessante ao definir uma mulher que sabia se impor num ambiente predominantemente ocupado por homens e que encarava o machismo e o preconceito de frente (ainda que o interesse fosse a manutenção da própria espontaneidade diante das câmeras) é justamente a ênfase insistente nesse aspecto de Hebe que acaba expondo a artificialidade da construção.

Nesse sentido, nota-se um esforço narrativo para colocar esta Hebe em primeiro plano – quando, a bem da realidade, a assinatura da apresentadora solidificou-se muito mais pela alegria esfuziante que ela esbanjava no ar com sua gargalhada icônica e a naturalidade no trato com os convidados em seu sofá. E nas cenas que se passam no palco do programa, essa alegria praticamente não se vê, já que em grande parte dessas passagens Hebe surge com os olhos marejados ou em discursos inflamados.

Fora do palco, Hebe combate as crises de ciúme do marido Lélio (Marco Ricca) e defende a qualquer custo o filho Marcello (Caio Horowicz), no delicado período da adolescência. E, curiosamente, é mesmo fora dos palcos que o filme ganha seus momentos mais memoráveis – talvez porque permitem mais ambiguidades, sem um ponto de vista exatamente direcionado.

Assim, a maneira como Hebe lida com a vida privada reverbera seus posicionamentos na tv, expondo pontuais contradições. O filho questiona o apoio da mãe ao execrável Paulo Maluf, “cada um vota em quem quer” ela diz. Em outra cena, Marcello “foge” de um jantar formal para confraternizar com os empregados da casa. E o abraço amoroso da mãe deixa no campo do implícito a maneira como ela recebe a sexualidade do filho.

De outro lado, a direção de Maurício Farias e as escolhas de enquadramento que priorizam câmera na mão e uso resistente de closes funcionam, como na sequência em que Hebe entra em casa, subindo escadas e abrindo portas – mas se tornam incômodas em alguns pontos, especialmente naqueles em que a ação pede planos mais abertos, como nas cenas no palco que insistem em enfocar a apresentadora pelas costas.

O filme ganha quando investe numa direção de arte preocupada com detalhes, tendo se beneficiado de itens originais de Hebe como joias e vestidos e em sets bastante fiéis, como a mansão da apresentadora. E, obviamente, a interpretação de Andrea Beltrão é muito eficaz ao desviar da imitação caricata, ganhando muito mais em espontaneidade.

Embora repleto de escolhas questionáveis, não dá pra negar que Hebe – A Estrela do Brasil é um filme honesto em sua abordagem e que sinaliza para a existência de tantos outros aspectos da apresentadora que certamente merecem ser explorados em outras produções. E irão.

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