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Críticas

Crítica | Halloween (2018)

Em um retorno digno de reverência ao horror e a mitologia de Halloween, esse é de longe o melhor filme da franquia desde o seu original

Quando o primeiro Halloween foi lançado, em outubro de 1978, o diretor John Carpenter queria dar ao público um pouco mais daquele slasher que vinha se atrevendo a despejar sangue na tela desde O Massacre da Serra Elétrica (1974) – censurado em muitos países, inclusive o Brasil. A construção do medo, a tensão quase constante aliada à fotografia escura, a câmera do ponto de vista do assassino, a trilha sonora e alguns subtextos sobre a libertação feminina, toda essa “visceralidade” transformou a obra em um clássico quase que imediatamente. É possível dar àquele Halloween – A Noite do Terror, inclusive, o título de uma das grandes inspirações para o que seria uma onda de filmes com matadores mascarados que não morrem nem a pau. E, como todo grande sucesso cinematográfico, vieram as sequências. Nada me convenceu. Até agora.

Halloween (2018) é quase uma declaração apaixonada do desconhecido diretor David Gordon Green ao legado de Michael Myers para o universo de horror cinematográfico. Absolutamente diferente dos filmes de Robie Zombie (também declaradamente fã do original de Carpenter), a obra de Gordon é um terror com elementos bem construídos e com toda a expressividade e grafismo do cinema dos anos 1970, mas que não deixar escapar esse novo olhar atual.

O roteiro do comediante Danny McBride e do próprio Green não tenta surpreender ou transformar Michael Myers além da “força da natureza” e o “mal puro” que sempre foi.  Vai direto ao ponto para trazer de volta o confronto entre o assassino e sua vítima preferida, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis). Agora mãe e avó, Laurie tornou-se uma senhora inquieta a espera de que algum dia seu algoz tente fugir do manicômio e, novamente, venha atrás dela e sua família. Pois é o que acontece.  Mesmo traumatizada pelo pesadelo passado há 40 anos, ela agora parece estar preparada. Na verdade, ela parece até torcer para o encontro que a destruiu psicologicamente (somando-se os dois casamentos fracassados e o relacionamento instável com a própria filha).

De forma segura, o filme entrega uma narrativa direta, sem se estender muito nos conflitos familiares ou explicações desnecessárias. Há, sutilmente, espaço para conectar a história da protagonista com a temática feminista tão poderosa atualmente, não apenas pelo confronto em si, mas, principalmente, a forma pela qual  Laurie escreveu a sua história de vida e seguiu em frente.

Produzido pelos responsáveis por Halloween – A Noite do Terror, John Carpenter e Debra Hil, é no aspecto visual que o novo Halloween firma seus pés no que há de melhor dentro do gênero. O ambiente escuro, quase sempre iluminado por cores opacas, reforça a atmosfera de terror constante e o mal a espreita.  E mesmo que você não seja de prestar muita atenção nos enquadramentos e tomadas, é impossível não se deliciar com cenas sofisticadas como o plano sequência (a câmera persegue o antagonista durante um bom tempo sem corte) em que Michael Myers pega uma faca pela primeira vez e sai consumando o poder de seu instinto.

O final, mesmo em se tratando de um personagem que parece que morreu mas sempre volta, não fica aberto. Óbvio que para uma continuação basta uma explicação qualquer e é bem possível que isso ocorra. Mas, ao consumar um terror tão bem acertado e que agrega à mitologia das personagens, não me parece uma boa ideia.  Claro, isso do ponto de vista fã / espectador. Bastará o filme fazer uma graninha e bilheteria e… aguardem mais no ano que vem.

Halloween não renova o gênero, não tem um roteiro criativo e não espera ser o filme do ano. No entanto, a produção é um dos melhores retornos entre os filmes de horror baseados em clássicos que fizeram história no cinema. Ela não só respeita (e muito!) a essência do original (que trilha sonora! Que abertura!), como procura criar uma atmosfera mais atual, capitalizando, assim, um sentimento de angústia e terror mesmo para uma audiência já tão cheia de referências e experiências. E, em dias em que a sensação de medo real perambula por nossas mentes e corações, Halloween ainda consegue causar arrepios.  Mesmo que seja apenas durante o tempo da projeção. Afinal, nem psicopatas como Michael Myers parecem ser ameaça maior do que a falta de liberdade.

 

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Crítica | SHAZAM !

APENAS DIGA A PALAVRA ! e venha conhecer o novo membro da família DC.

APENAS DIGA A PALAVRA ! Com a estreia de Shazam nessa semana (03), vemos a DC e Warner Brothers dando mais um passo na direção certa, consolidando não somente seu nome, seguindo a fama de Aquaman (2018), como também firmando a nova fase da companhia, intiludada como: The Worlds of DC. Nesse novo direcionamento, vemos o Universo Compartilhado da DC nos cinemas tomar novas proporções, seus filmes ainda co-existem, entretanto agora eles contam suas próprias histórias, sem precisar se apoiar em um gancho, que foi feito em eventos anteriores. Com isso dito, Shazam é um filme que afirma seu lugar dentro de um mundo já estabelecido por grandes nomes como Aquaman e Mulher-Maravilha, ao mesmo tempo que prova seu valor como membro de uma nova trindade da DC.

Shazam conta a história de um jovem de quatorze anos, Billy Baston (Asher Angel), que pula de casa adotiva em casa adotiva, sempre procurando seu lugar no mundo e sua verdadeira identidade, até que um dia é escolhido por um Mago (Djimon Hounsou), que o julga puro de coração e espírito, passando sua magia para Billy, que ao proferir a palavra: SHAZAM ! se torna um herói com a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, o vigor de Atlas, o trovão de Zeus, o vigor de Aquiles e a velocidade de Mercúrio na forma de Zachary Levi. Entretanto, nenhum super-herói é tão bem definido quanto por seu vilão, e Shazam conta com a destreza de Dr. Silvana (Mark Strong), que em busca de adquirir mais poder e magia, se torna um formidável e vilanesco oponente para Billy Batson.

O filme segue uma linha cômica, prestando fortes homenagens ao clássico ‘’Quero Ser Grande’’ de 1988, estrelando Tom Hanks e não desaponta em vender a ideia de como seria um adolescente ganhando super-poderes e uma identidade de adulto. Além disso, graças ao carisma incomparável de Zachary Levi, que brilha como o personagem título do filme, Shazam consegue trazer elementos do Superman de Christopher Reeves, que cativou tantos e se tornou parâmetro em sua geração. No entanto, não se enganem, Shazam não é um filme que serve somente de alívio cômicos, trazendo uma imagem extremamente realista em questões como abandonamento, adoção e o senso de auto-descoberta que vem acompanhado disso tudo.

Shazam conta com uma mudança por trás das câmeras dentro da DC, que já vem acontecendo desde Aquaman e James Wan, com diretores vindo da divisão mais lucrativa da Warner: a de terror. Dessa vez, é o momento de David F. Sandberg (Annabelle 2) brilhar, mostrando maestria no uso não somente de seus atores, mas de cenas extremamente bem constrúidas, com uso de câmeras lentas e a capacidade de criar um ponto de vista fluído e inovador dentro de um universo já estabelecido. Sandberg e Levi contam também com uma trilha sonora incrivel, que combina sucessos atuais como Bruno Mars aos icônicos hits de Queen, marcando o passo e atmosfera do filme.

Falando de atmosfera, por fim, Shazam é um filme que precisa ser visto, pois esconde muito de suas surpresas de seu público nos trailers. Com apariçoes inesperadas, elementos tirados diretamente das páginas dos quadrinhos e diversas referências ao universo da DC no cinema, Shazam cria uma experiência que vai, não somente, agradar fãs de super-heróis como trazer uma nova onda de telespectadores para dentro desse universo tão mágico. Então, apenas diga a palavra e garanta de ver Shazam para discutir aqui com a galera do Volts.

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Crítica | Dumbo

Na próxima, menos humanos e mais animais, ok?

Foto: Divulgação/Disney

Dumbo (2019) é mais uma das reimaginações dos clássicos da amada Disney. A palavra nostalgia, por sinal, anda sendo vangloriada aos diferentes cantos do mundo nos últimos anos, seja com reboots, revivals, remakes, remasterizações e todo “re” que você conseguir imaginar. E a Disney, claro, não poderia estar de fora.

Por um lado, é uma inestimável chance de assistirmos a mesma história com tons e diferentes perspectivas, com o uso triunfal de novas tecnologias e talentos. Sem contar com a oferta de entregar uma amada aventura para uma nova geração. Por outro, o seu relançamento é passível de todos os tipos de problemas, do roteiro até a trilha e a edição. Nesse embarco, as adaptações também podem ou não serem fiéis, distanciando-se ou não do seu material de origem.

(In)felizmente, o Dumbo é um pouco dos dois casos.

Para começar, um dos severos problemas do live-action, que adapta a animação original de 1941, concentra-se em seu roteiro, que entre diálogos horrendos, tenta criar espaço para diversos e inéditos personagens, como as crianças, Milly e Joe Farrier, e o elenco colossal do Circo dos Irmãos Medici. Nessa lotação desnecessária, Dumbo até perde, por alguns momentos, o brilho na tela e torna-se um coadjuvante da trama que supostamente deveria ser sua.

Porém, nesse ringue pelo estrelato, o fofíssimo elefante, ainda que totalmente montado em CGI, consegue criar mais empatia e carisma do que quaisquer outros personagens do filme, interpretados por reais atores. As crianças, principalmente, são até protegidas momentaneamente pelo seu papel de importância ao lado do Dumbo, mas, acima dessa pequena barreira de proteção, é fácil notar a sua falta de carisma e talento.

Eva Green e Colin Farrell, por outro lado, não sofrem problemas em sua atuação, mas ainda enfrentam a crise com o tempo de tela. Assim como todos os demais personagens humanos, eles não ganham profundidade na trama, não evoluem ou passam por grandes transformações. Tudo é extremamente raso e ainda que o filme tente salvá-los em sequências grandiosas na trama, a falha é nítida e os atos grandiosos são apenas sequências de efeitos e emoções momentâneas.

Na verdade, o longa parece ser montado nessas sequências, que são amarradas com soluções fáceis e previsíveis. Com exceção dos casos citados e alguns momentos de tensão e sufoco genuínos, com novas e antigas cenas, nada, de fato, surpreende. Algumas transições, às vezes bruscas, rapidamente nos fazem sentir falta de trechos que completassem a história de maneira mais efetiva. Infelizmente, tudo aqui fica no imaginário.

Mas não só de defeitos vive Dumbo! A torcida pelo amável elefante é imparável e a sua tristeza, oras intensa, é sentida com facilidade (lágrimas vão rolar). A trilha composta por Danny Elfman (Alice no País das Maravilhas) também não falha e a maravilhosa Baby Mine se faz presente para aquecer os corações do jeitinho que a gente gosta. Tim Burton e os seus visuais singulares do cinema nos trazem a magia necessária para a história de Dumbo. A riqueza em detalhes não é poupada e as sequências mais intensas e emotivas ganham ainda mais destaques com seus efeitos visuais. E, ainda que entre os altos e baixos, um sentimento resguardado da nossa infância, sensível e caloroso, nos acompanha por todo a jornada de Dumbo.

No fim, o filme resolve as deficiências da animação original e expande alguns de seus aspectos mais adoráveis, como o distinto talento de Dumbo e a sua própria jornada familiar. Por outro lado, longa retrocede e trai o estrelato dos animais ao dar destaque aos imperfeitos humanos. Aliás, uma aventura que deveria, em teoria, ser centrada nas problemáticas sobre o cativeiro e o maltrato dos animais, tudo que a gente não precisava era de uma história sobre as problemáticas pessoas.

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Crítica | Nós

A indústria cinematográfica tem se tornado uma das mais competitivas do mundo. A cada ano, produções tem elevado seu nível, buscando qualidade e inovações, adaptando-se sempre a um contexto de representatividade e empoderamento.

Em 2017, Jordan Peele, elevou mais ainda as expectativas de um filme quando dirigiu, escreveu e produziu “Corra!’’, estrelado por Daniel Kaluuya. O filme, em sua maestria, cria uma crítica social contra o racismo, ainda tão presente nos Estados Unidos e no mundo, especialmente na região sulista do país. O filme se tornou um hit cultural, tendo recebido cinco indicações ao Oscar, ganhando o prêmio de Melhor Roteiro Original e rendendo 255,4 milhões de dólares.

Nessa semana, Peele teve a estreia de sua nova produção, Nós. O filme era cercado de uma grande pressão por seguir o sucesso e impacto sócio-cultural de Corra!. Entretanto, o filme não decepcionou e consolidou de uma vez por todas a marca de Jordan Peele, não somente no gênero de terror, como no universo cinematográfico inteiro.

Nós é um filme de terror psicológico, tendo diversos aspectos da série “Twilight Zone“, algo que o próprio diretor já falou pegar bastante inspirações para os seus filmes. Estrelando Lupita Nyong’o e Wilston Duke (ambos de Pantera Negra), sua história consiste em uma família indo passar suas férias de verão em Santa Mônica, para a aproveitar a praia. No entanto lá, mistérios do passado e eventos bizarros passam a acontecer quando a família de Nyong’o e Duke tem sua casa invadida por seus doppelgangers, usando macacões vermelhos e tesouras como armas. Nós, se diferencia de muitos filmes atuais pela sua qualidade e construção de mundo em detalhe.

Lupita Nyong’o é a alma de Nós com uma atuação eletrizante, ela consegue vender cenas sem diálogos completos, mostrando uma alcance como atriz de alto nível e mostrando que o seu Oscar por “12 Anos de Escravidão” não foi somente merecido, como é uma prévia dos muitos outros que ainda virão em sua carreira. No entanto, Lupita não faz tudo sozinha, o filme conta com um simbolismo extremamente bem mapeado, plantando o mistério da trama que é explicado de maneira eficiente e coesiva ao longo da história, mantendo a audiência fixada em cada detalhe. Além disso, o score desse filme é uma completa obra de arte, a música se torna parte do filme, ajudando não somente nas cenas, mas na própria criação de mundo tão bem executada do longa.

Nós, muito similar com o que Corra! fez, trata de aspectos sociais atuais de uma maneira sutil, tornando assim um filme por inteiro como uma forma de metáfora e mensagem social, algo que fica impresso em nosso subconsciente. Dessa vez, o filme trata de questões como abandonamento e como o ambiente na qual somos submetidos pode modificar a perspectiva que temos sobre nós mesmo, mas acima de tudo, o filme fala sobre um conflito interno por poder que todos nós sofremos, onde somos nossos próprios acusadores.

No entanto, o filme não é perfeito. Nós é uma produção extremamente ambiciosa e em momentos perde a balança entre a comédia e o terror, tirando um pouco o foco do espectador. Além disso, por sua ambição e um marketing mal direcionado, clímax do filme demora para realmente engajar, tendo criado uma identidade visual por meio de seus trailers, que não necessariamente, representa todo o enredo. Por fim, o filme ganha proporções dentro de sua construção de mundo que traem a essência de sua história: o individualismo. Nós, infelizmente peca pelo simples fato de querer ser grande demais.

Com isso sendo dito, Nós ainda é um filme que deve ser visto, já que em um mundo onde o público está faminto por conteúdo e qualidade, Nós se torna novamente um aumento na expectativa em produção e entrega de história num filme, especialmente do gênero de terror, que é tão ridicularizado por críticas. Nós, eu diria, continua o legado que Peele começou, criando uma nova divisão de terror que bebe da fonte dos clássicos como “O Iluminado” e Twilight Zone, mas cria algo tão inovador que em alguns anos, será referência para um universo que o próprio criou.

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