Crítica | Era Uma Vez em… Hollywood


Vendo à distância, é meio difícil compreender como lá no fim dos anos 60 um maluco randômico conseguiu converter pessoas a uma seita assassina regada a sexo e ácido. Mas dá pra entender perfeitamente os motivos de a história (e seu desdobramento hediondo) ter virado o pano de fundo perfeito para as obsessões revanchistas de Quentin Tarantino. Em seu nono filme, o diretor mergulha na gênese da Nova Hollywood, se refestela na metalinguagem e explora os talentos de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt às últimas consequências. Vai vendo.

Um dos melhores atributos dos filmes de Tarantino é a capacidade incrível que ele tem de criar tipos. A comicidade involuntária que surge dali provoca um riso meio culpado, mas que fascina pelo inusitado da coisa toda. É só lembrar de Samuel L. Jackson recitando ‘trechos bíblicos’ em Pulp Fiction, de Jennifer Jason Leigh e seu olho-preto em Os Oito Odiados, de Christoph Waltz esbanjando seus dotes poliglotas em Bastardos Inglórios… A lista vai longe.

Em Era Uma Vez em… Hollywood (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019) DiCaprio é Rick Dalton, um ator veterano que depois de anos explorando a mesma fórmula, vê sua carreira engessar e declinar. Mas se na ficção Rick Dalton não é um profissional lá muito versátil, DiCaprio investe pesado nas nuances quando interpreta o astro diante e por trás das câmeras, com seus rompantes emocionais que vão do choro farto e repentino a surtos de raiva, destruindo o camarim.

E toda a sequência gigantesca que explora a gravação de um novo filme (desde a conversa despretensiosa com a garotinha no pórtico) é brilhante por fazer compreender a personalidade de Dalton e o medo mortal que ele tem do ostracismo e da mediocridade. É muito zelo por uma carreira que talvez nem existisse sem seu fiel amigo e exímio dublê Cliff Booth (Pitt).

Dono de um passado nebuloso que o enche de mistério, Booth aplica suas técnicas corporais de dublê fora das câmeras, rendendo momentos impagáveis como a rápida rusga envolvendo Bruce Lee ou ao executar pequenos jobs, como ajustar uma antena no telhado performando piruetas acrobáticas pelos muros. O personagem é escrito de maneira a entregar pequenas pistas sobre ele – uma diversão extra para qualquer espectador com síndrome de detetive.

Mas engana-se quem acha que Tarantino está interessado aqui em dar cartaz para a filosofia macabra dos seguidores de Charles Manson. O miolo do filme está a serviço mesmo é das digressões cinéfilas do diretor, passeando por estúdios decadentes, brincando com o aspecto manipulador da linguagem, promovendo uma verdadeira excursão por dentro do monstro. E ele se permite as clássicas sequências-longas-demais-sem-muita-aplicabilidade-narrativa. Ainda bem.

O que corre por fora é um desfile de referências a filmes que vão desde Relíquia Macabra, o clássico noir de John Huston, a outros que precedem o renascimento que Hollywood viria a passar nos anos 70, inspirada pelos franceses da Nouvelle Vague.

Nesse “era uma vez”, a dialética brinca o tempo inteiro com os conceitos de diegese dentro e fora do filme pra reensaiar a realidade. A cena em que Sharon Tate (Margot Robbie) se diverte com as reações da plateia a seu próprio filme tem uma doçura pouco comum na filmografia de Tarantino, um diretor cuja obra têm servido cada vez mais pra entender que não há melhor elixir pra fugir da realidade que o Cinema.  

Novo filme de Tarantino mais uma vez usa a realidade como luva para os exercícios cinéfilos do diretor. Ainda bem.