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Crítica de Filme

Crítica | Coringa

Todd Phillips expande as possibilidades de filmes baseados em quadrinhos com narrativa atordoante e perturbadora sobre as origens do Palhaço de Gotham

Depois de uma campanha das mais barulhentas de que se tem memória, Coringa (Joker, 2019) finalmente entra em cartaz com a promessa de ser um “filme de herói” diferente de tudo que já foi feito até agora. E, de fato, o diretor Todd Phillips proporciona aqui uma experiência atordoante, caótica, perturbadora e carregada de ambiguidades que ajudam a entender a trajetória cheia de polêmica do filme pelos festivais mundo a fora. Vai vendo.

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Primorosamente fotografado e conduzido, o filme primeiro atrai pela virtuosidade estética: a atmosfera setentista que se nota logo nos letreiros iniciais se estende pelas ruas apinhadas de gente com pressa, pelos carros, pelos trens super poluídos de pichos e sujeira, pelos prédios cinzas. Tudo contribui para o sufoco que o filme transmite e que cresce nos engasgos da gargalhada do protagonista, na fumaça do cigarro que nunca se apaga.

Joaquin Phoenix é um absurdo quando enverga uma risada congelada ouvindo o chefe lhe pregar mais uma injustiça “o valor da placa vai ser descontado do seu salário”; quando corre com o vigor de um desenho animado, quando bate com a cabeça contra portas de vidro, quando demonstra não perceber a brutalidade enquanto a exerce. A performance é também caótica ao permitir ao público ler sinais que são ora de compaixão, ora de asco. E o corpo esquálido do ator termina de emoldurar a imagem. Nesse sentido, por Phoenix, esse Coringa está à altura de qualquer um de seus pares já vistos na tela grande.

Mas se por um lado no roteiro escrito por Phillips e Scott Silver tudo é combustível pra entender a posição de vulnerabilidade do ainda Arthur Fleck (e a vulnerabilidade é o que provoca a compaixão do público) por outro faz questão de enfatizar a condição de um homem com a mente doente, cujo controle de suas ações se equilibra como um castelo de cartas. Nesse ponto, são inválidas as teorias de que o filme justificaria os crimes do personagem como uma resposta às injustiças a que foi submetido.

No entanto, ao ilustrar o Coringa como um agitador psicopata que ao se rebelar contra o “sistema” encontra no caos a recompensa e a redenção, os esforços começam a ficar ambivalentes.  “Isso não é lindo?” ele diz depois de ser acusado de provocar a desordem generalizada em Gotham pra, em seguida, ser ovacionado como herói pelo mar de gente vestida de palhaço.

De todo modo, o Coringa de Todd Phillips certamente expande as possibilidades de filmes baseados em histórias em quadrinhos uma vez que aqui se pretende um caminho muito mais interessado no drama existencial e na tragédia humana que nas firulas megalomaníacas que o público (no qual me incluo) tanto ama. É muito provável que através dele se abra a chancela para mais produções como essa – o que só demonstra a riqueza da linguagem dos quadrinhos que até parece subaproveitada depois de um filme atordoante como esse.