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Críticas

Crítica | Capitão América: Guerra Civil

Capitão América: Guerra Civil estreou nessa quinta-feira (28/04), pouco mais de 1 mês depois de Batman vs Superman, e mostrou que a Marvel e a Disney podem, mesmo mantendo um certo lado cômico, trazer um filme com uma temática mais séria.

Quem vai assistir ao filme encontra Steve Rogers (Chris Evans) liderando o recém-formado time de Vingadores em seus esforços continuados para proteger a humanidade. Mas, depois que um novo incidente envolvendo os Vingadores resulta num dano colateral, a pressão política se levanta para instaurar um sistema de contagem liderado por um órgão governamental para supervisionar e dirigir a equipe. O novo status quo divide os Vingadores, resultando em dois campos: um liderado por Steve Rogers e seu desejo de que os Vingadores permaneçam livres para defender a humanidade sem a interferência do governo; o outro seguindo a surpreendente decisão de Tony Stark (Robert Downey Jr.) em apoio à supervisão e contagem do governo.

Guerra Civil é, sem dúvidas, uma das melhores produções do Universo Cinematográfico da Marvel. As várias sequências de luta e perseguição (presentes durante todo o filme) estavam impecavelmente bem ensaiadas. É, claramente, perceptível a evolução na coreografia das lutas de todos os personagens. Isso decorre, principalmente, do treinamento dado por Steve Rogers aos novos Vingadores.

Tudo é muito bem construído. De cara, nos é apresentada uma cena misteriosa envolvendo o Soldado Invernal, que dá um rumo muito interessante ao filme, que, vale ressaltar, se desenrola de maneira natural, sem que nenhuma das falas e atitudes dos personagens pareçam ser forçados ou artificiais.

Podemos compreender de forma clara os motivos que levaram cada um a tomar seu lado na disputa, algo que já vinha sendo construído ao longo dos filmes. Com a queda da S.H.I.E.L.D., Capitão América, o soldado fiel, perde a fé no governo e em suas agências, acreditando que só os Vingadores são capazes de ajudar. Enquanto o Homem de Ferro, o gênio, bilionário, playboy e filantropo, que viu sua invenção se transformar naquilo que ele mais temia, se torna aliado do governo, temendo por suas próprias ações.

Em um filme como este é difícil listar todos os pontos altos, mas vou tentar citar alguns. O primeiro é a sincronia dos heróis em batalha, eles não só lutam juntos, como em Vingadores 1 e 2, eles lutam com sinergia, em parceria. E, a que mais demonstra isso é a Feiticeira Escarlate. Mesmo que uma falha dela tenha impulsionado o sistema de controle de heróis, é possível perceber sua evolução, tanto em controle quanto em poder bruto.

As tão esperadas aparições de Pantera Negra e Homem-Aranha serviram para elevar o nível do filme. O primeiro teve uma participação maior, muito porque a sua motivação para a “guerra” precisava ser construída. O manto do Pantera, apesar de carregado de CGI, é simplesmente um dos uniformes mais fieis e incríveis dos filmes da Marvel. T’Challa se mostra um guerreiro habilidoso e astuto, sem medo, se mostrando digno de ser o herdeiro do trono de Wakanda.

Já Peter Paker, com menos tempo em cena, conseguiu atrair a atenção sempre que apareceu. Mesmo sem muito treino, conseguiu impressionar lutando de frente com os seus adversários. A escolha por apresentar um Homem-Aranha mais jovem foi acertada, funcionando, até, como o alívio cômico do filme, principalmente nos momentos em que ele “esquecia” da batalha e se impressionava com a presença dos outros heróis.

Os demais heróis também não tiveram suas participações despercebidas. O Falcão teve um upgrade, com o acréscimo do “Asa Vermelha”, um espécie de “drone” que lhe auxilia em batalha (diferente dos quadrinhos, onde esse o nome de seu mascote, um Falcão de verdade). O Visão contínua numa busca pela compreensão da humanidade, e começa a desenvolver características de sentimentos humanos, sugerindo até que, futuramente, forme, com outra Vingadora, um dos casais mais poderosos do universo das HQs.

A Viúva e o Gavião continuam com suas habilidades impressionantes. Enquanto o Maquina de Combate mantém um grande poder de fogo, servindo no fim para aumentar a dramaticidade o filme. E, ainda, tivemos o Homem-Formiga, que, junto de Spiderman, serviu para acrescentar comédia (assim como em seu filme solo), mas ele não ficou só nas piadas, mostrou que pode ser um Vingador de verdade, revelando, inclusive um lado grandioso seu, que muitos fãs ansiavam por ver.

O último ato do filme é impressionante, como já sugeria os trailers e os vídeos liberados antes da estreia. A batalha final do Homem de Ferro contra Capitão América e Soldado Invernal, foi daquelas em que não se pode piscar por um segundo. Algo que, felizmente, neste ano tem sido muito bem feito, que o diga o filme da concorrente DC Comics.

Contudo, nem tudo são elogios. Entres tantos acertos, há um erro muito visível: a distância entre filme e quadrinho. Não é de hoje que as adaptações cinematográficas não são fieis à sua fonte de inspiração, até por isso são “adaptações”. E, já era sabido que o filme seria bem diferente da história escrita por Mark Millar, até pela impossibilidade de se juntar tantos personagens em um filme. Mas os irmãos Russo prometeram um filme que fizesse uma homenagem à HQ, e isso não foi visto em nenhum momento. Inexistiu durante o filme, a tensão de uma guerra. O sentimento de querer lutar por uma causa em benefício dos heróis ou da sociedade, à exceção do Pantera Negra, movido pelo ódio.

Talvez, o mais correto teria sido vender o filme apenas como Capitão América 3, e que justificaria a presença de tantos personagens pela simples intenção de acabar com aquela pergunta “onde estavam os outros enquanto tudo isso acontecia?”, que persistiu em aparecer na maioria dos filmes solo da Marvel.

Mas, como um todo, Capitão América: Guerra Civil foi um excelente filme. Deu o tempo necessário de cena para cada personagem, soube dosar a seriedade com a comédia (diferente de Vingadores: Era de Ultron), e deu abertura para novas histórias, principalmente pelo aumento do número de heróis, algo importante para se enfrentar a ameaça de Thanos que está por vir. Ah, não se esqueçam de ficarem até o final dos créditos como bons fãs da Marvel, as duas cenas pós-crédito são espetaculares.

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Crítica | Democracia em Vertigem

Um documentário sobre lembrança e reavaliação no país da memória-curta

Uma impressão arriscada sobre esse doc: embora Democracia em Vertigem (2019) responda a uma perspectiva igualitária e progressista, não se trata de um documentário “de esquerda”. Dependendo das convicções políticas de quem assiste, ele pode soar como uma ode ao triunfo ou um canto triste de derrota. E é justamente aí que mora a beleza desse trabalho dirigido, roteirizado e narrado pela cineasta Petra Costa e disponível agora na Netflix para mais de 190 países. Vai vendo.

Ao longo de seus 120 minutos, o filme vai desfiando os últimos anos da política brasileira a fim de entender como a nação da cordialidade e da hospitalidade se transformou no irreconciliável Fla x Flu ideológico que não se via há tempos. E a Esplanada dos Ministérios dividida em barricadas na decisão sobre o impeachment de Dilma Rousseff é o quadro que Pedro Américo pintaria nesses tempos loucos.

E tome lá o sinuoso dessa retrospectiva, catalogada com esmero pela montagem que recorre a imagens ainda muito frescas na lembrança dos brasileiros. A cadência dá espaço suficiente a cada evento, respira entre o alvoroço, passeia pelos salões vazios do Palácio da Alvorada numa quase-poesia que permite um tempinho para refletir (o tom de voz de Petra também contribui para esse efeito). E envolve toda essa linha do tempo com um ponto de vista muito particular: a relação pessoal da cineasta com a política e como sua família fez parte desse processo.

Ao misturar as esferas pública e privada na narrativa, Democracia em Vertigem abre o precedente para que o próprio espectador também o faça. E é só lembrar os núcleos familiares que começaram a ruir nas eleições de 2014 e vieram abismo abaixo na última visita às urnas – a identificação é imediata, afinal, em maior ou menor escala, todo mundo viu rachaduras nas paredes de casa.

Além disso, ao arrastar o discurso para a prerrogativa pessoal, Petra Costa evita o veredito, deixando as conclusões para o público. E o material é abundante entre entrevistas e discursos históricos . No país da memória-curta, Democracia em Vertigem surge como um documento poderoso de lembrança e reavaliação. Um tratado que tenta entender as polaridades que, vá lá, sempre existiram. Ao final, o texto aponta para o futuro sem fazer ideia do que vem de lá. Alguém faz?

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Crítica | X-Men: Fênix Negra

Ainda que abordasse um dos arcos mais grandiosos do universo de super-heróis, X-Men: Fênix Negra consegue a proeza de ser superficial.

Um desfecho à altura do carinho que os fãs têm pela franquia X-Men era tudo que o público esperava. Não importa quantos filmes dividam opiniões, sempre houve uma multidão a espera de um impacto de verdade quando o assunto era um novo filme dos mutantes. Logan (2017) até deu esperanças e tudo que X-Men: Fênix Negra não podia fazer era decepcionar. E decepcionou.

Veja bem, toda impressão é relativa. A palavra decepção é forte e nós sabemos, até evito usar, mas em relação a esse arco tão marcante da história dos alunos de Xavier, já tivemos outras experiências bem-sucedidas em animações e quadrinhos. Agora, com todo suporte tecnológico, de mídia e com a Disney na cola, a Fox parecia estar com a faca e o queijo na mão para entregar um filme com uma linha de raciocínio muito mais poderosa.

X-Men: Fênix Negra é ambientado em 1992, os mutantes já eram considerados heróis nacionais e, durante uma missão espacial, Jean Grey (Sophie Turner) é atingida por uma poderosa força cósmica, que acaba absorvida em seu corpo. Após ser resgatada e retornar à Terra, aos poucos ela percebe que há algo bem estranho dentro de si, o que desperta lembranças de um passado sombrio e, também, o interesse de seres extra-terrestres.

A estética e a técnica de efeitos do filme estão impressionantes, questionável, mesmo, só as decisões de Simon Kinberg em – sem querer, acredito – acabar diluindo a força do arco da Fênix em cenas menos intensas do que o pretendido e com a inserção desnecessária de Jessica Chastain no elenco. O drama de Jean Grey não precisava dividir atenção com mais ninguém e tinha potência o suficiente para ser muito mais ameaçadora.

Ao tentar ser original, Kinberg desperdiça o argumento da força cósmica que habita Jean, que nos quadrinhos até funcionou como uma metáfora ao abuso de drogas. O poder Fênix, que se torna parte da intimidade da personagem, faz com que ela perca a noção de poder e acabe machucando todos ao redor. Esse sub-texto não consegue se desenvolver porque há uma alienígena desviando o rumo da trama, reduzindo ao argumento aos traumas da infância de Jean. Xavier, e até Magneto, poderiam ter sido melhor aproveitados neste conflito, visto que ambos lidam com poder, vaidade e raiva.

Essa despedida dos X-Men da Fox, depois de 11 filmes, não foi das piores, claro, mas falhou no objetivo de ser grande e de dar argumentos que dessem sentido proporcional ao surto da protagonista. A partir de agora, o bastão está com a Disney e o futuro dos mutantes a ela pertence. X-Men: Fênix Negra ficará no passado como uma relíquia. Só nos resta esperar.

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Crítica | Toy Story 4

Quase uma década depois, Toy Story retorna e já é avaliado pelo público como o melhor filme da franquia.

Desde Up, Altas Aventuras, a Pixar deve ter uma pessoa por lá cujo cargo seria algo como “editor analista de roteiro especialista em fazer a audiência chorar”. E esse profissional fez um ótimo trabalho em Toy Story 3, Divertidamente, Viva (nesse ele estava muito empenhado) e agora Toy Story 4. Brincadeiras à parte, fato é que a nova animação da franquia de Woody e seus amigos é, talvez, a melhor da série.

É verdade que há o carinho pela surpreendente criatividade do primeiro, a profundidade narrativa do segundo e o sentimentalismo adorável do terceiro. Mas Toy Story 4 alcança uma maturidade diferente, com todos esses elementos dos anteriores e que construíram a força da franquia, somados a recursos técnicos bem impressionantes. A própria reação do público, inclusive, tem demonstrado o quanto o longa é especial. Até agora, Toy Story 4 possui 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e uma surpreendente nota 9,1 no IMBD.

Mas, calma. Mantenha sim as boas expectativas, embora não se esqueça que estamos tratando aqui de uma fórmula já vista outras vezes, ou seja, uma história doce, recheada de bom-humor e com um nível de sensibilidade intenso. Por isso, não espere grandes surpresas e desconstruções maravilhosamente inventivas. Espere por momentos simpáticos e com mensagens contemporâneas valiosas – como o empoderamento feminino, respeito às diferenças e a coragem em aceitar o tempo das coisas, sejam despedidas ou chegadas.

São nove anos desde o último filme da série e, por isso, logo nos créditos iniciais de Toy Story 4 há uma espécie de recorte rápido em retrospectiva para nos lembrar em que momento da história os bonecos estão agora, já que Andy cresceu e doou seus amigos à pequena Bonnie. Ela agora é a dona e quem decide os brinquedos que farão parte da brincadeira e os que ficarão no armário, a um passo do esquecimento. Quando a menina vai para o seu primeiro dia de jardim de infância, Woody se infiltra em sua mochila para ver como ela se sairá.

De volta ao quarto, Woody sai da mochila de Bonnie e apresenta um novo colega: Garfinho – fanfact: o personagem foi desenvolvido por Cláudio de Oliveira, brasileiro que faz parte do time da Pixar. Por não ter conseguido interagir com outras crianças, a menina encontra no lixo uma forma de fazer sua própria brincadeira e constrói um boneco feito de garfo plástico, pés de palito, olhos de boneca e braços de arame. Responsável pelos momentos mais engraçados do filme, Garfinho não entende que é um brinquedo e tampouco enxerga sua importância para a garota como o responsável pela sua fase de adaptação e o impulso para sua potencial criatividade.

Mas Woody sabe e tenta, de todas as formas, fazê-lo compreender os motivos para ficar próximo a Boonie. A aventura começa quando a família vai viajar e Garfinho se atira do motor home para buscar a felicidade em algum lixo, enquanto Woody parte para o salvamento. A situação se complica quando o talher desengonçado se torna refém de uma boneca dos anos 1950 em um antiquário. Quem ajudará a turma na missão é a Betty, cuja aparição é surpreendente e importante. A boneca pastoreira, ex par romântico de Woody, reaparece, alguns anos depois de ter sido doada, como uma personagem feminina forte, empoderada e que toma a frente do plano de resgate.

Em Toy Story 4 os personagens humanos tem participação secundária, assim como nos longas anteriores (exceção ao primeiro filme), mas não funcionam apenas como escadas para o andamento da trama. É a humanidade da pequena Bonnie e o seu desenvolvimento infantil que ajudam a convencer o público e a justificar os objetivos a serem cumpridos por Woody e os demais. Todo o ponto de vista do enredo, porém, se desenrola nas ações e sentimentos dos brinquedos – óbvio – e são tão autênticos, que deixam uma série de produções Hollywoodianas atuais parecendo pequenezas dispensáveis. 

A paixão pela qual o longa foi feito passa também pelo cuidado estético da animação. As luzes, sombras, profundidade (prestem atenção nos takes de câmera quando um boneco está em primeiro plano e olhando à distância para algo, como a cena do salto de Duke Caboom no parque de diversões), expressões e tantos detalhes técnicos são o ápice da perfeição alcançado pela Pixar.

Há, então, quem achará que o desfecho foi criado propositalmente para impactar os corações moles (como o meu), já que o caminho escolhido por um dos personagens (sem spoiler), de certa maneira, contraria uma bela lição que ele próprio usa como lema de vida. Mas, se você não for do tipo crítico chato e problematizador de emoções, prepare o lenço e deixe que o tom de despedida de Toy Story 4 lhe faça derramar umas lagriminhas piegas. Afinal, foi para isso que a Pixar contratou aquele profissional incrível especialista em causar choro em adulto.

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